2 de setembro de 2010

Paul Veyne - Como se escreve a história


VEYNE, Paul. Como se escreve a históriaa se escreve a hist; Foucault revoluciona a história. 4ª ed., Brasília: Editora UNB, 2008.
História, por si só, é um termo que suscita definições simplistas. Enquanto os menos instruídos ou menos interessados professam que história é nada mais, nada menos, que o passado, muitos historiadores costumam defini-la como o entendimento do passado para se compreender o presente e, consequentemente, abrir perspectivas para o futuro. Contudo, definir a história, seja com a palavra “passado” quanto com frases seria reduzir algo tão importante a meras sínteses pouco elucidativas. Por esse motivo, faz-se necessário o estudo mais aprofundado da história. Uma das obras clássicas a tratar o assunto é Como se escreve a história, de Paul Veyne. O francês, especialista em Império Romano, escrevera a obra em meados de 1968, e até nossos dias ela se mostra uma obra certeira no que concerne a suscitar discussões.

Nesse livro, Veyne não se propõe a tratar assuntos comuns aos historiadores como a nouvelle histoire ou o positivismo. Nele, o autor imerge mais profundamente no tema, esmiuçando-o. Dividindo o livro em três partes, Veyne separa “O objeto de estudo”, “A compreensão” e “O progresso da história”. Discorre, inicialmente, sobre a história como narrativa verídica, discutindo sobre eventos humanos ou não, e as armadilhas da hierarquização da história. Esta hierarquização – mas não apenas ela – causa lacunas, que são características da história em si; noção por vezes incoerente, nem sempre factual e sem dimensões absolutas, como os próprios subtítulos do capítulo 2, “Tudo é histórico, logo, a história não existe”.

O título, isoladamente, é um tanto desconfortável. Porém, o autor sabe exatamente sobre o que está tratando. Veyne expõe que a história é uma construção; as informações a serem historicizadas são recortadas por aquele responsável pelo relato. Assim, o historiador se torna o construtor de uma trama. A trama, da forma como é tecida, faz com que a história siga um ou outro viés, o que mostra que uma construção diferente de trama traria resultados distintos, baseados em relações de valores – estes relativos.
Durante boa parte do livro, o autor se propõe a um extenso debate sobre a discussão “História é ou não é uma ciência”. Expondo seus argumentos, Veyne discorda que a história seja, de fato, uma ciência, pela ausência de leis; critica o empirismo lógico e afirma que a história nunca será científica. Entre outras discussões, classifica o termo sociologia como uma concepção demasiadamente estreita da história. Não critica o sociólogo em questão, mas afirma que a sociologia ou é uma filosofia política, uma história das civilizações contemporâneas ou um gênero literário atrativo. Paul Veyne trata desse assunto no item As três sociologias.

Aproximadamente dez anos depois de escrever a obra em questão, Veyne escreveu um ensaio chamado Foucault revoluciona a história. O ensaio é anexado ao livro; porém, sua linguagem é deveras intrincada, sendo recomendada apenas a leitores mais experientes.

Com exceção desse apêndice a respeito de Michel Foucault, a obra de Veyne poderia ser lida tranquilamente por qualquer entusiasta da história. É uma obra ideal para se iniciar qualquer debate a respeito de historiografia e cuja leitura é de suma importância para qualquer historiador, ainda que possa causar discordâncias.

Preço médio: R$ 36,00

2 comentários:

  1. Engraçado eu entrar aqui e dar de cara logo com esse livro, porque lá na faculdade e gente tá enfrentando toda uma situação problemática por causa dessa edição da UNB. Percebemos que, não só a tradução é péssima, como vários trechos de duas ou três páginas do livro simplesmente somem, são cortados!

    Estamos dando preferência a edição portuguesa, se não em engano da Edições 70. Infelizmente essa não conta com a parte do "Foucault revoluciona a História".

    ResponderExcluir
  2. Bom, acho que ficou claro que a resenha foca no conteúdo, mas tenho que confessar que sempre achei essa edição da UNB uma porcaria. Só não sabia que a tradução era assim ruim e que faltavam trechos. Muito bom saber.

    ResponderExcluir