9 de setembro de 2016

“El Don”: senhores e nobres na Idade Média



Por Rodrigo Prates de Andrade

Lançada no dia 02 de setembro de 2016, a segunda temporada de Narcos – seriado produzido pela Netflix – fora marcada pela derrocada de Pablo Emilio Escobar Gaviria um dos maiores drug lords da América Latina. Referido na séria muitas vezes como Don Pablo, o narcotraficante colombiano não fora o único a receber o pronome don – outro importante personagem da série fora Diego Fernando Murillo Bejarano, o Don Berna.

7 de setembro de 2016

Refugiado ou migrante? Entenda a diferença

Diante da atual crise de refugiados, a maior desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em várias partes do mundo buscam-se soluções para os problemas que advém de tamanho deslocamento de grupos humanos, ainda mais diante dos efeitos ainda vigentes da maior crise econômica mundial desde a crise de 1929.

Nesse contexto, quando analisamos certas retóricas públicas veiculadas nas diferentes mídias, seja em artigos de opinião ou notícias expositivas, há muita confusão no que concerne às questões humanitárias relacionadas ao abrigo  de refugiados, bem como as diferenças jurídicas destes para com os imigrantes ou emigrantes. E é sobre isso que falamos aqui.

O que é anarquismo?

Anarquismo é, talvez, um dos conceitos históricos mais mal utilizados da história. Mesmo com todas as alterações que o conceito sofreu, especialmente a partir do século XIX, ainda hoje o termo é sinônimo de desordem, caos, baderna.

Contudo, o conceito tem um longo e complexo histórico, que precisa ser entendido em suas particularidades. Por conta disso, tentamos aqui explicar, mesmo que de forma superficial, este conceito à luz de sua história.

O tempo para Fernand Braudel (e sua treta com Levi-Strauss)

Quem é da área da História sabe quem foi Fernand Braudel, mas o público geral provavelmente o desconhece.

Braudel foi o historiador que encabeçou a chamada "segunda geração" da Escola dos Annales, ou seja, o núcleo de historiadores que não apenas escrevia para a revista francesa Annales, mas também por aqueles que dialogavam diretamente com seus autores e por eles eram influenciados, muitos a ponto de se tornarem futuros influenciadores de historiadores que surgiram.

Braudel, acima de tudo, ficou conhecido pela sua ideia de "longa duração", que viria a ser um conceito muito importante na historiografia do século XX.

Ha-Joon Chang: Chutando a escada

Em 2002, Ha-Joon Chang, um economista sul-coreano especialista em desenvolvimento econômico, lançou aquele que, até hoje, é um de seus livros mais lidos e influentes. Chutando a escada era uma severa crítica ao projeto neoliberal de economia livre de um gerenciamento mais aprofundado pelo estado, demonstrando como historicamente estes projetos mais fracassaram do que deram frutos, e demonstrando como foram justamente em seus momentos de maior intervencionismo que os países atualmente desenvolvidos começaram a crescer para tornarem-se o que são hoje.

9 de agosto de 2016

"O pior dos fins": as bombas de Hiroshima e Nagasaki

O texto abaixo foi escrito pelo Prof. Sidnei Munhoz, e foi publicado originalmente na Revista de História da Biblioteca Nacional. O original pode ser lido aqui.

Por Sidnei Munhoz

Era o dia 6 de agosto de 1945. O avião B-29, Enola Gay, comandado pelo coronel Paul Tibbets, sobrevoou Hiroshima a 9.448 metros de altitude e, quando os ponteiros do relógio indicaram 8h16, bombardeou-a com um artefato nuclear de urânio, com 3 m de comprimento e 71,1 centímetros de diâmetro e 4,4 toneladas de peso. A bomba, apelidada de Little Boy, foi detonada a 576 metros do solo. Um colossal cogumelo de fumaça envolveu a região. Corpos carbonizados jaziam por toda parte. Atônitos, sobreviventes vagavam pelos escombros à procura de comida, água e abrigo. Seus corpos estavam dilacerados, queimados, mutilados. Cerca de 40 minutos após a explosão, caiu uma chuva radioativa. Muitos se banharam e beberam dessa água. Seus destinos foram selados. 

2 de agosto de 2016

O assassinato de Francisco Ferndinando: interpretações em aberto

O texto abaixo foi escrito por Amila Kasumovic, professora da Universidade de Sarajevo, e publicado no Brasil originalmente no site da Revista de História da Biblioteca Nacional em 2014, no aniversário de 100 anos do atentado a Francisco Ferdinando. O texto original pode ser lido aqui.

Por Amila Kasumovic

Dois tiros, e a Europa colocou-se em marcha irreversível rumo a um conflito generalizado, que se tornou a Primeira Guerra Mundial. Dois tiros disparados na cidade de Sarajevo, atual capital da Bósnia e Herzegovina. O assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando, em 28 de junho de 1914, deixou marcada uma região que já havia sido palco de milenares disputas territoriais, que depois seria socialista durante boa parte do século XX, e novamente assolada por uma guerra nos anos 1990.

Os fantasmas do passado continuam a assombrar Sarajevo. Tanto tempo depois, e mesmo com a abundância de textos produzidos sobre o tema, muitas questões permanecem em aberto. Como entender o movimento Jovem Bósnia, responsabilizado pelo crime? Qual o papel da Sérvia no atentado? Qual é a percepção atual sobre o jovem assassino Gavrilo Princip?

26 de julho de 2016

Extremismos, terrorismo e um problema para os historiadores

O presente texto foi escrito no calor da hora, diante das duas notícias citadas nos dois primeiros parágrafos deste. Talvez, pensando mais friamente sobre os pontos que levante, mude de ideia com o tempo. 

Por Icles Rodrigues

Postamos recentemente na página do Facebook do Leitura ObrigaHISTÓRIA um link de um evento terrível ocorrido em uma igreja francesa, onde um padre foi assassinado por dois terroristas que invadiram sua missa, atentado esse que foi assumido pelo Estado Islâmico. A comoção é justíssima, e a indignação das pessoas faz todo sentido. É curioso, inclusive, que a mesma imprensa que corriqueiramente é acusada de manipulação ideológica anti-islâmica é também acusada, em um momento como este, de ser relativista, "esquerdista", pró-muçulmana, entre outros adjetivos. 

A violência doméstica prospera na cultura do silêncio da China

O texto abaixo foi traduzido de um artigo do Washington Post. O original pode ser lido aqui.

Por Emily Rauhala

Dois meses depois de Li Hongxia ser assassinada, seu corpo não está enterrado. Ela encontra-se envolta em um edredom rosa em um caixão refrigerado, na casa que ela dividia com o marido. Ele é acusado de mata-la. Sua família, que vivia com eles, fugiu da cidade.

Os pais de Li não acreditam que haverá justiça para as vítimas de violência doméstica. Eles têm visto o sistema falhar para aqueles sem conexões: eles sabem que uma condenação pode requerer influência. Recusar-se a enterrar sua filha, que foi estrangulada, é uma tentativa de fazer as autoridades locais notarem, fazer alguém – qualquer um – se importar.

Na China, como em outros lugares, a violência doméstica é uma epidemia oculta – uma crise de saúde pública rechaçada como escândalo privado, um crime diminuído ou encoberto.

22 de julho de 2016

Felipe Demier e Rejane Hoeveler (org): A onda conservadora

Desde, pelo menos, o ano de 2014 cresce entre os setores de esquerda no Brasil a ideia de que o país passa por um momento onde uma "onda conservadora" toma conta da economia, da cultura, da política e de outros aspectos cotidianos. No entanto, não basta apenas discutir a respeito disso baseado em suposições. É preciso ir mais a fundo no assunto, e é isso que a obra "A onda conservadora" organizada por Felipe Demier e Rejane Hoeveler tenta fazer.

19 de julho de 2016

Vestidas para agradar: transformações na moda desde o Antigo Regime

O texto abaixo foi escrito por Eneida Queiroz para o site da Revista de História da Biblioteca Nacional. O original pode ser lido clicando aqui.

Por Eneida Queiroz
Mulher de espartilho vermelho, tela a óleo de
Adrien de Witte (s/d). O espartilho contribuiu
para a erotização do corpo feminino no começo
do século XIX. (Imagem: REPRODUÇÃO /
ORIGINAL DO MUSEU DE ARTE WALLON)

A luta pela “barriga negativa” e o aumento de cirurgias plásticas no Brasil e no mundo são novas versões de um antigo fenômeno: o sofrimento das mulheres para se manterem dentro dos padrões de beleza hegemônicos. Por mais que pareça anacrônico, o silicone de hoje e as anquinhas ou os espartilhos do século XIX unem-se em espantosa semelhança. O controle do corpo feminino é marca de sociedades patriarcais.

As estruturas rígidas e os enchimentos das roupas femininas na segunda metade dos oitocentos, momento de paroxismo da erotização do vestuário, têm origem em peças mais antigas. No Antigo Regime, o barroco e sua vertente mais rebuscada, o rococó, ainda ditavam moda nos trajes de baile da corte francesa, como os de Maria Antonieta (1755-1793). Vestidos com ancas laterais conhecidas como pannier – estruturas de barbatana de baleia ou galhos de vime – ampliavam as saias vários metros para cada lado. Antes deles, na nobreza espanhola do século XVII, as saias eram suportadas pelo farthingale, visível nas damas dos quadros de Velasquez (1599-1660). Como a Revolução Industrial ainda dava seus primeiros passos no século XVIII, a maior parte da população europeia e de suas colônias não usava essas roupas, pois não tinha acesso fácil e barato aos tecidos e às técnicas. Ademais, ainda havia proibição de uso de determinadas vestimentas: a estratificação da sociedade era visível também na moda.  

12 de julho de 2016

O terremoto de Lisboa de 1755

O texto abaixo foi publicado no site da Revista de História da Biblioteca Nacional, cujo original pode ser lido aqui.

Por Mary Del Priore

Jacome Ratton costumava assistir à missa na igreja do Carmo, cujo teto ou dorso de animal correspondia à pesada abóbada de pedra. Mas em 1º de novembro de 1755, “na manhã desse dia fatal”, ele não foi. Aguardava um comprador para certa partida de papel avariado que ali se tinha posto a enxugar. Nas águas-furtadas de sua casa, viu da janela que “achava-se o céu risonho como quase sempre é nas felizes regiões da Europa do sul; nem o ar se agitava lentamente”. Não percebeu a agitação dos animais de tração, os cães em disparada pelas ruas, os ratos que deixavam suas tocas, os pássaros em louca revoada. “Três minutos, porém, antes das 10 horas ouviu-se um ruído como se corressem por elas numerosas carroças; ao mesmo tempo estremecia a terra com um movimento violento, ondulante. Estremece a terra e em menos de um minuto ela sorve o cais (da alfândega)... Na cidade levantavam enormes colunas de poeira ao pé das ruas que caíam das ruínas”. Era o início do terremoto que, em 40 minutos, devastaria a cidade de Lisboa.