1 de setembro de 2014

Cesar Campiani Maximiano - Barbudos, sujos e fatigados

MAXIMIANO, Cesar C. Barbudos, sujos e fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Grua, 2010.

O ano de 2014 tem sido pródigo para os historiadores brasileiros interessados em história militar, mais precisamente a respeito da Primeira e Segunda Guerra Mundial, dado o número de livros que abarcam os conflitos (em sua “totalidade”, dentro do que é possível classificar dessa forma, ou eventos particulares) que estão sendo lançados nos últimos anos.

A proeminência de traduções e lançamentos no Brasil se dá, em parte, pela tendência comum de se rememorar de certos eventos quando o tempo decorrido destes até o presente atinge datas arredondadas; em 2014, completaram-se cem anos do início da Primeira Guerra Mundial, setenta anos da Operação Overlord e do fim do cerco de Leningrado, setenta anos do Levante de Varsóvia, setenta e cinco anos da invasão alemã à Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial, entre tantos outros eventos. Para nós brasileiros, há também algo a ser relembrado: há setenta anos que cerca de vinte e cinco mil soldados brasileiros foram enviados para a Itália, destinados a lutar ao lado dos aliados (mais precisamente dos Estados Unidos), compondo a Força Expedicionária Brasileira.

A jornada da FEB na Itália vem ganhando algum destaque, ainda que tímido, em livros, séries, músicas e filmes. Podemos citar, respectivamente, o livro de João Barone, baterista da banda Paralamas do Sucesso e filho de um veterano da FEB, 1942: o Brasil e sua guerra quase desconhecida, o documentário Caminho dos Heróis, veiculado pelo canal History Channel no Brasil (com participação do mesmo João Barone), a música Smokin’ Snakes da banda sueca Sabaton, cujo tema foi enviado à banda por um fã brasileiro e A estrada 47, filme vencedor do Festival de Gramado na categoria de melhor longa-metragem brasileiro neste mesmo ano de 2014, representando soldados brasileiros responsáveis por desarmar um campo minado durante o duro inverno italiano. Isso sem contar a série feita para a internet chamada Heróis, dirigida por Guto Aeraphe e o curta metragem, também disponível na internet Esperança, dirigido por Nathan Cragun,

Lançado em 2010 pela Editora Grua, o livro de Cesar Campiani Maximiano é uma das mais completas obras sobre o assunto disponível no mercado. Ancorada em um grande número de entrevistas com veteranos da FEB, obras de memórias escritas por tantos outros no passar dos anos, artigos, documentação tanto no Brasil como no exterior, é uma pesquisa aprofundada que tem como um dos méritos fazer a justa ponte entre as memórias dos veteranos e as discussões historiográficas acerca da relação entre história e memória presentes na academia. Ainda que grandes nomes de autores que tralham com tal relação não sejam citados no decorrer do texto como Maurice Halbwachs, Michel Pollak, Jacques LeGoff, entre outros, muitas das principais lições sobre as armadilhas da memória e da história oral são colocadas em debate, confrontando os testemunhos e estabelecendo hipóteses plausíveis, num trabalho coeso e responsável.

O autor, em determinados pontos, rejeita claramente perspectivas tradicionalmente vinculadas à esquerda marxista, como a proposição de que as duas grandes guerras (nesse caso, especificamente a segunda) foram resultado do ímpeto imperialista das potências europeias. Entretanto, sobre essa afirmação em particular, o autor afirma ser ela um argumento de quem “parou de ler da década de 1970”, afirmando, ao invés disso, que a Segunda Guerra Mundial fora uma luta contra o Fascismo. Tal interpretação, no entanto, não apenas não da conta de todas as nuances e complexidades de um conflito e escala global de cerca de seis anos, como é a típica explicação “senso comum”, usada inclusive como propaganda de guerra. Se não está totalmente equivocada, falta-lhe muito para sequer começar a dar respostas satisfatórias.

Apesar disso, a qualidade do trabalho em geral não é comprometida, e as escolhas que justificam as divisões do capítulo se mostram muito efetivas, impedindo a sensação de “mais do mesmo” que alguns livros podem trazer quando aparentemente se repetem em demasia.

No início do livro, Cesar se preocupa em dar um panorama do período de mobilização da FEB, sobre as expectativas do governo Vargas e a realidade das condições de mobilização; a origem dos convocados, particularidades sobre os voluntários, esboços de ideias sobre as intenções do governo de Getúlio, entre outros assuntos relativos são abordados nesta primeira parte, dando ênfase à ideia predominante entre os militares (que reaparece em outros pontos do livro) de que o governo não desejava um exército forte e bem quisto que pudesse, de alguma maneira, afetar sua legitimidade. Há de se levar em conta que o senso comum e a propaganda de guerra afirmavam ser aquela uma guerra contra regimes autoritários, nada muito diferente do que se mostraria o Estado Novo. Logo, qual o sentido de derrubar o autoritarismo no exterior enquanto em sua própria casa tudo permanecia igual? Essa reflexão até hoje pauta os relatos de veteranos sobre a desmobilização a FEB, quando ainda em solo europeu.

Outros capítulos abordam a penúria da linha de frente. A vivência nos foxholes, (trincheiras improvisadas onde os soldados poderiam passar horas ou mesmo dias sob as intempéries do clima e a iminência da morte), os combates viscerais que nada se assemelham a filmes e séries, a falta de alimentação e vestuário adequados, a ineficiência dos serviços postais, o clima diametralmente oposto ao que a maioria dos soldados estava acostumado no período de inverno, tudo é apresentado de forma nada romantizada, sem tentar levantar os soldados à categoria de seres superiores e intocáveis, mas fazendo questão de ressaltar os sacrifícios e as privações dos praças no cumprimento de seu dever.

Não há espaço para glória na narrativa de Maximiano, o que não quer dizer que não haja profundo respeito. O autor tenta não tomar versões de histórias como certezas, busca em fontes diversas, que vão de relatos a poesias e músicas, trazer vislumbres do cotidiano dos membros da FEB. É também prodigioso ao ressaltar as prováveis razões pelo qual a campanha fora ridicularizada pelos próprios brasileiros que viam os pracinhas como lutadores de um front sem importância, ou que estavam na Europa apenas a passeio, dada a abundância de fotos em cidades italianas e a ausência de fotos de combate, por exemplo. Claro, ignorando que a FEB não contava com fotógrafos na linha de frente, como os soldados aliados tinham ao seu lado na Operação Overlord em seis de junho de 1944.

Aliás, no que concerne aos aliados, ganha grande destaque o apoio que o exército dos Estados Unidos deu à FEB, não apenas no que tange às relações pessoais, mas principalmente no aspecto material. Roupas adequadas para o clima do norte da Itália (para suprir a falta desse material vinda do próprio exército brasileiro, ou por falta, ou por negligência), melhor alimentação, fumo, etc. O contato com este exército causou forte impressão no Exército Brasileiro, principalmente nos soldados rasos. Até hoje muitos veteranos veem os EUA como uma “nação irmã” ou mesmo “segunda pátria” graças às experiências no front.

Os últimos capítulos se dedicam a apresentar quais eram os relatos feitos sobre a FEB dentro e fora do Brasil, os boatos que se espalhavam sobre a campanha e a relação por vezes conturbada entre oficiais e soldados, que eram tratados de forma muito mais autoritária e agressiva que os conscritos do exército dos Estados Unidos. Maximiano se esforça em compreender esta diferença de tratamento de forma contextualizada, assim como as relações entre diferentes etnias. O autor até mesmo infere que o impacto positivo que a integração étnica da FEB teve no exército dos EUA (onde a segregação racial era fortíssima, reflexo da segregação na própria sociedade civil) teria exercido alguma influência nos movimentos pelos direitos civis dos negros nas décadas de 1950 e 1960, explicando de forma convincente o que o leva a pensar desta forma.

O livro de Cesar Maximiano, embora apresente um ou outro ponto de forma superficial, é uma leitura obrigatória para quem quer conhecer mais profundamente a campanha da FEB na Segunda Guerra Mundial. A FEB de Maximiano está longe das glórias de guerra que a indústria cultural nos apresenta carregadas, por vezes, de chauvinismo cego e sacrifícios vãos, mas também está longe da covardia, dos golpes de capoeira, do jeitinho brasileiro e da irrelevância que, em geral, os brasileiros viram e ainda veem nos soldados brasileiros que lá estiveram e que tanto sofreram. Um capítulo de nossa história que aos poucos adquire o merecido respeito.


Preço médio: R$ 50,00

10 de maio de 2014

Roger Chartier - A história ou a leitura do tempo

CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

No meio acadêmico, é necessário algum tempo até que determinados estudos possam exercer a influência devida em estudos futuros, além de que os debates a respeito de um tema podem levar um tempo considerável até atravessar fronteiras geográficas ou linguísticas, e se manterem ativos em diferentes contextos com o passar do tempo.

Em A história ou a leitura do tempo, o historiador francês Roger Chartier apresenta uma série de pequenos ensaios trazendo questões contemporâneas a respeito de historiografia, ou que pelo menos estiveram em voga nos últimos anos e que ainda são debatidas, ao menos no meio acadêmico brasileiro. Não me arriscarei a afirmar o mesmo sobre outros países por desconhecimento, mas é algo muito provável.

O autor é conhecido principalmente por seus trabalhos a respeito de história cultural e a história da literatura e da escrita, entre outros temas que se aproximam destes (são também conhecidas suas incursões sobre a relação entre a História e o Cinema). Nesta obra, o autor não deixa de trazer reflexões a respeito desses temas, complementando discussões que o mesmo já havia feito em obras como À beira da falésia (observação que o próprio Chartier faz na introdução do livro).

No primeiro capítulo, Chartier traz uma discussão ainda fecunda, pois sua polêmica permanece intrigante: o “giro linguístico” e o “ceticismo pós-moderno” encabeçados por acadêmicos como Hayden White e suas afirmações de que o poder da História estava na narrativa, pois ela não seria capaz de apresentar verdades, apenas verossimilhanças; logo, sua escrita pouco difere da literatura, no sentido de que ambas estão repletas de invenções que preenchem lacunas, e sua efetividade está no seu poder de convencimento, e não na apresentação de uma história factual. Chartier apresenta muito brevemente essa discussão, inclusive a partir da réplica de Carlo Ginzburg, um dos mais ferrenhos opositores das proposições de Hayden White. O primeiro defende que o rigor dos métodos historiográficos e a construção do conhecimento baseado em indícios significativos e provas – ainda que o historiador tenha que fazer uma série de inferências diante da natureza lacunar de todas as fontes – já são o bastante para distinguir os processos que regem a história e literatura como produção.

O segundo dedica um importante espaço para debater as diferenças entre a história e a memória, algo já discutido por outros autores como Michel Pollak e Paul Ricoeur, e a relação entre a história e a ficção, sobre as verossimilhanças literárias e suas representações serem potencialmente úteis aos historiadores atentos aos méritos e aos deméritos da ficção como fonte histórica.

No capítulo seguinte, Chartier se dedica a discutir a mudança de foco na História social para a História cultural, e o que lhe categorizaria. Obviamente que sua apresentação não esgota a discussão, haja vista que cultura é um termo muito complexo, e que livros inteiros dedicados a sua conceituação e aplicação ainda não foram capazes de superar o debate de forma definitiva. O capítulo seguinte não foge tanto do tema, levando em conta que se dedica a discutir a relação entre discursos eruditos e práticas populares, a partir de eixos como “representações” e “representações simbólicas”. Chartier vê um meio termo entre uma definição de cultura popular como autônoma – fechada em si mesma – e outra que a coloca como vítima de uma distância entre ela e uma legitimidade cultural erudita.

Na sequência, o autor traz um vislumbre de discussões a respeito de certa rejeição à micro-história diante de uma “História global”, talvez demandada pelas intensas discussões sobre globalização que abundam nos meios acadêmicos europeus nos últimos anos. Chartier apresenta a discussão e levanta os problemas do isolamento tanto de uma perspectiva globalizante quanto de uma estritamente microscópica, sem articulação entre ambas (nada de novo, é verdade, mas é uma questão pertinente).

O capítulo seguinte é, na minha opinião, o mais fecundo, mas infelizmente é muito curto. Chartier traz à tona a discussão sobre a história na era digital. Focado na história na leitura como é, o autor acaba priorizando os livros e as informações escritas em detrimento de outras coisas, mas uma ou outra reflexão geral pode ser absorvida. O autor nos dá algum vislumbre de como a internet pode ser útil à produção acadêmica, mas é fato que o capítulo é muito lacunar, principalmente por tratar um assunto ainda tão negligenciado pela historiografia.

Por fim, o último capítulo flexibiliza os três tempos da história propostos por Fernand Braudel (fatos, conjuntura e estrutura), atentando para as observações de autores como Michel Foucault sobre a importância das relações de poder e das rupturas que elas causam, que desafiam a rigidez da articulação entre esses tempos históricos.

Em todos os capítulos deste livro de cerca de 77 páginas (contando com a bibliografia), a apresentação das discussões e temas é muito sucinta e pouco aprofundada, mas a força da obra está justamente nisso: é um livro feito para ser “consumido” rapidamente, de modo a seu conteúdo ser absorvido de forma rápida. Levando em conta que muito do que é apresentado nele nada mais é do que um amontoado de debates historiográficos anteriores, é possível usá-lo como norte para saber quem são os historiadores que se aprofundam nas presentes discussões, permitindo o aprofundamento futuro por parte do leitor. Contudo, se lido isoladamente por um leitor sem alguma noção de certas discussões trazidas por Chartier, ou se for lido por alguém com vasta bagagem de leituras sobre as discussões que levanta, o livro pode ser de pouca utilidade.


Preço médio: R$ 30,00

3 de março de 2014

Lawrence Sondhaus - A Primeira Guerra Mundial

SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial. São Paulo: Contexto, 2013.

A Primeira Guerra Mundial é, sem dúvida, um dos eventos históricos com uma das mais vastas bibliografias à disposição. No entanto, ao menos no que tange às publicações no Brasil, esta está muito aquém da guerra que lhe sucedeu. Historiadores como René Rémond e Eric J. Hobsbawn há tempos discutiram sobre esta ser ou não uma sequência direta da primeira ou não, mas o fato é que tal perspectiva, ainda que seja bem recebida no meio acadêmico, não muda o fato de que o número de publicações sobre as duas guerras são desproporcionais, ao menos em nosso país.

A despeito do impacto social, político, cultural e econômico que a Segunda Guerra Mundial teve sobre o globo, o primeiro conflito foi, até aquele momento, uma guerra sem precedentes históricos sequer semelhantes. Os conflitos culturais, econômicos, territoriais e étnicos (para não citar outras características que o permearam) foram responsáveis, após a escalada da violência, por significativas mudanças no mapa da Europa, nas relações das potências europeias com suas colônias e países sob suas esferas de influência. Elevaram-se a esperança de emancipação – ou ao menos uma maior autonomia – de países como África do Sul, Namíbia, Índia e Irlanda; foram cometidos crimes de guerra hediondos, como o massacre dos armênios pelo Império Otomano, além do uso indiscriminado de armas de intensa crueldade, proibidas após o conflito, como certas armas químicas; vimos a guerra submarina indiscriminada, o primeiro uso de aviões em uma guerra e o surgimento dos tanques como armas de combate importantes; vimos milhões de soldados perecerem em trincheiras, demonstrando sua ineficiência a longo prazo; vimos a primeira revolução de aspirações comunistas bem sucedida na história, tirando uma potência da guerra e sacudindo o cenário político mundial, dada a suspeita de possibilidade de crescimento de sua influência mundo afora.

Para os acadêmicos, principalmente historiadores, que sentem certa defasagem no conteúdo em português sobre a outrora conhecida como “Grande Guerra”, A Primeira Guerra Mundial de Lawrence Sondhaus não apenas vem complementar a bibliografia em português sobre o tema, mas chega como uma das obras mais completas sobre o assunto. O livro tende a agradar a uma ampla gama de públicos, desde aqueles que buscam descrições de conflitos em particular, movimentação de batalhões e demais questões de cunho bélico (inclusive das marinhas envolvidas, uma das especialidades de Sondhaus), aos que buscam os meandros políticos e sociais, os quais qualquer pesquisador sobre o tema não pode ignorar.

Além de ser uma obra muito abrangente e bem organizada narrativamente (cada capítulo começa com um quadro cronológico de eventos pertinente ao tema do capítulo em si, por exemplo), o livro ganha pontos por seu didatismo e por ser uma obra muito atualizada, à luz das discussões historiográficas mais pertinentes. Chamam a atenção, em pouco tempo de leitura, três características da obra.

A primeira é a inserção de trechos de fontes primárias; cartas, correspondências oficiais, declarações de independência, relatos biográficos, entre outros. É vasto o número de vezes que tais inserções aparecem, contextualizadas com a narrativa principal, de modo a não serem apenas fragmentos dispersos. Estas fontes trazem não apenas as perspectivas dos países envolvidos no conflito, mas também de indivíduos cujos anseios, medos e ideais representam a percepção de parte da população de seu contexto geográfico, em maior ou menor grau dependendo do caso.

A segunda são os boxes sobre perspectivas. Neles (cerca de sete durante todo o livro, principalmente no início e no fim), Sondhaus traz as principais perspectivas a respeito dos debates historiográficos mais pertinentes sobre o conflito. Um exemplo é o box presente nas páginas 20 e 21, onde Sondhaus apresenta duas opiniões divergentes sobre o início da guerra. De um lado, a opinião de que a Europa era um “barril de pólvora” prestes a explodir, enquanto outra aponta a Alemanha como responsável pelo conflito. Outros boxes discutem sobre o protagonismo da Áustria-Hungria diante da influência alemã, ou mesmo a discussão sobre o Tratado de Versalhes ser ou não responsável direto pela Segunda Guerra Mundial.

A terceira característica que amplifica a riqueza do livro são os cinco ensaios, micro-capítulos ao fim de determinados capítulos, que abordam questões mais específicas relativas à vida dos soldados participantes do conflito. No primeiro deles, temos o dia-a-dia no ANZAC, batalhão formado por tropas majoritariamente neozelandesas e australianas que participou da tentativa de invasão do Império Otomano em Galípoli. Derrotados, se tornaram um importante marco na história nacional da Nova Zelândia e da Austrália, sendo – segundo o autor – altamente ofensivo à memória destes países qualquer esforço de diminuição do sacrifício dos homens do ANZAC. Os embates em Galípoli, inclusive, se tornaram também parte da história nacional da Turquia.

O segundo ensaio tenta, de forma eficiente, dar uma noção do suplício que era a vida nas trincheiras, e o próprio conflito terrestre sendo levado a cabo a partir destas, enquanto o terceiro discute sobre a viagem de Lenin, da Alemanha à Rússia no “trem selado”. O quarto ensaio discute o dia-a-dia das tripulações dos submarinos alemães, enquanto o último discute o legado das trincheiras nas mentes, corpos e espíritos dos combatentes.

O livro é prodigioso, também, no esforço de não traçar relações de culpa e se alinhar a perspectivas muito específicas. É nítido que Lawrence Sondhaus se esforça em não tomar partido nos dois lados beligerantes da guerra, e busca dar a devida compreensão de aspectos da guerra como a conquista do voto pelas mulheres em alguns países e sua maior participação no mercado de trabalho, sem, no entanto, exagerar de forma excessivamente otimista quanto ao grau de alcance dessas conquistas.

O prefácio do livro inicia afirmando que

O objetivo deste livro é apresentar uma história global da Primeira Guerra Mundial, útil aos leitores em geral, bem como a estudantes de história e historiadores que procurem uma síntese atualizada dos trabalhos mais recentes sobre o assunto.

Nesse sentido, podemos afirmar que Lawrence Sondhaus cumpriu com êxito seu objetivo, em uma obra de cerca de 550 páginas. Lançado em 2013 no Brasil pela Editora Contexto, A Primeira Guerra Mundial desde já se tornou leitura obrigatória para pesquisadores sobre o conflito.


Preço médio: R$ 70,00


30 de dezembro de 2013

Richard Pipes - História concisa da Revolução Russa

PIPES, Richard. História concisa da Revolução Russa. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008.

Costumam ser apaixonados os debates acerca de certos eventos históricos, enxergados como divisores de água no que concernem à política, economia, sociedade, ideologia, cultura, entre outros fatores – ainda que pudéssemos dissertar longamente sobre cada um desses exemplos. E um dos eventos que não foge a estes debates é a Revolução Russa.

O evento, ocorrido em 1917 em pleno curso da Grande Guerra, futuramente consolidada como Primeira Guerra Mundial, causou grande impacto no mundo (talvez possamos dizer que, principalmente, impactou no ‘mundo ocidental’). Dava-se, em um país de proporções geográficas continentais, mas muito atrasado economicamente, a primeira revolução que advogava para si o rótulo de comunista, uma fagulha de esperança para os grupos comunistas de diversos países, principalmente das grandes potências europeias; isso se dava, também, pelo fato da Revolução Russa ambicionar ser não uma revolução nacional, mas mundial.

O presente livro é uma destas obras fortemente movidas por paixão em sua profunda análise (ainda que chamada de concisa) sobre a Revolução Russa como evento, suas causas, conseqüências e articulação com a sociedade russa (e com as dos demais países com os quais se relacionou) em geral. Contudo, não se trata do trabalho de um pesquisador alinhado ideologicamente com o comunismo, mas seu extremo oposto.

Richard Pipes é um historiador especialista na história da Rússia, principalmente na União Soviética. Fortemente anticomunista, encabeçou as principais equipes de analistas formadas pelo governo dos EUA durante a Guerra Fria, e em 1976 comandou o “Time B”, um grupo de analistas formado pela CIA para avaliar as capacidades estratégicas e os objetivos militares da URSS. Com esse currículo, temos uma ideia do que esperar de História concisa da Revolução Russa, mas apenas sua leitura é capaz de nos dar uma dimensão da repulsa de Pipes pelos artífices da Revolução.

Um dos argumentos-chave do autor em relação aos eventos de 1917 na Rússia é o de que o que ocorreu na Rússia não foi uma Revolução, mas um golpe de estado, feito na surdina – ou seja, sem participação popular. Pipes afirma que uma porcentagem ínfima da população estava do lado dos bolcheviques no processo de tomada do poder, e que a maioria esmagadora do país sequer sabia o que se passava em Petrogrado. Além do mais, segundo o autor, essa mesma maioria foi deveras hostil ao governo instaurado por Lênin, que aqui é mostrado como um líder fanático e cruel; um novo Czar que, tão autoritário quanto os mais autoritários czares que passaram pela Rússia, condenava centenas e/ou milhares à morte apenas para atingir seus objetivos políticos.

“Para o autor destas linhas, que estudou o assunto durante a maior parte de sua vida, a Revolução Russa descortina uma tragédia, cujas cenas se sucedem inexoravelmente a partir da mentalidade e do caráter de seus protagonistas” (p. 15); é desta forma que Pipes enxerga a tomada do poder pelos mais radicais do partido bolchevique, rechaçando com veemência os argumentos daqueles que defendem que a Revolução era inevitável. Para ele, essa suposta inevitabilidade só é enxergada olhando em perspectiva após os eventos, pois muitos teriam sido os fatores objetivos que, por muito pouco, não levaram o movimento a um fracasso retumbante. Pipes cita Trotsky, que teria afirmado que, se ele e Lênin não estivessem em Petrogrado no momento da revolução, ela não teria acontecido. “Que fato histórico ‘inevitável’ pode depender de dois indivíduos?”, questiona o autor (p. 403).

Richard Pipes apresenta um detalhado panorama histórico dos eventos que desembocaram na Revolução de outubro. Para ele, após a abdicação do czar Nicolau II (por comprometimento com o bem da Rússia, segundo Pipes), o governo provisório instalado dava mostras de uma abertura democrática sem precedentes na Rússia. Este governo, composto por moderados que desprezavam os bolcheviques pelo seu fanatismo, é defendido por Pipes como tendo sido a melhor oportunidade da Rússia deixar seu atraso para trás e resolver, de forma pragmática e mais condizente com os desejos da maior parte do povo russo, as questões que afligiam o país. O autor defende que os bolcheviques, vendo o campesinato como contra-revolucionário, focavam seus esforços nos operários, parcela minúscula dos trabalhadores de um país predominantemente agrário e atrasado do ponto de vista industrial, e que tal postura era suficiente para demonstrar o quanto o governo bolchevique estava longe de quaisquer auspícios democráticos.

O autor argumenta que a intelligentsia, o pequeno grupo de intelectuais revolucionários em tempo integral, eram os verdadeiros desejosos da Revolução, e não o povo russo. Este desejo teria partido muito mais de posicionamentos e preconceitos ideológicos fanáticos do que de condições objetivas que apontassem um desejo popular por uma reforma radical.

Sem dúvida alguma, Pipes dedica muito tempo do seu livro a criticar as incitações de Lênin a uma Guerra Civil, o terror vermelho, as execuções sem julgamento, o fechamento de toda imprensa independente, o controle de toda informação – tanto no país quanto a que era enviada para o exterior –, os confiscos forçados de grãos e terras, que teria culminado na grande fome entre 1920 e 1921, entre tantos outros fracassos da gestão de Lênin, no que concerne ao bem-estar da população. Se o objetivo era a manutenção de poder no partido bolchevique, tornado único, todos os esforços resultaram em sucesso. Aliás, o autor defende que o regime bolchevique foi um fracasso enorme, sendo bem sucedido apenas em manter-se no poder.

Outra reflexão de Pipes é a de que, para tomar o poder e permanecer nele, Lênin e seus seguidores distorceram o marxismo de todos os modos possíveis. Um dos argumentos para defender este ponto é o de que, segundo Marx, a sociedade capitalista deveria amadurecer até que suas contradições internas conduzissem-na ao fracasso; os bolcheviques, no entanto, teriam tomado um dos países mais atrasados economicamente na Europa, onde “o capitalismo mal aprendera a dar seus primeiros passos” (p. 407).

Pipes também afirma que, ao contrário do que muitos esquerdistas defenderam durante os anos, Stalin e Lênin eram muito parecidos. O primeiro teria seguido à risca a receita de expurgos, autoritarismo, assassinatos, confiscos, entre tantas outras atrocidades praticadas pelo partido quando Lênin se encontrava no poder. O autor, inclusive, traz dados demográficos que aponta uma diminuição de mais de 12 milhões de habitantes na Rússia entre outubro de 1917 e o início de 1922, isso desconsiderando o fato de que, num contexto normal, a tendência seria a população aumentar pela taxa de natalidade. A única diferença que o autor pontua entre Lênin e seu sucessor era a de que o primeiro não executava seus aliados, como fez Stalin.

Como os pontos levantados até agora deixam óbvio, trata-se de uma obra abertamente parcial, ainda que qualquer historiador entenda que não há imparcialidade na história. Pipes, inclusive, defende sua parcialidade, afirmando que o historiador deve ser imparcial apenas na coleta de fontes, dados e informações, e sua opinião e visão dos eventos deve estar presente no desenvolvimento da análise com esses dados e fontes, ainda que essa parcialidade não deva pautar as escolhas dos historiadores sobre o que contar e o que omitir, de forma leviana. Esse último ponto me parece o mais contraditório; mesmo quando Pipes aponta algumas atitudes do governo bolchevique que julga interessantes, o faz de forma depreciativa e faz questão de conduzir sua narrativa de forma a focar menos nos atos e mais nos seus fracassos.

Particularmente, não sou simpatizante do governo soviético, tampouco de seus principais nomes – alguns dos quais muito adorados. Minhas percepções acerca de uma série de pontos se alinham com as de Pipes, principalmente no que concernem ao despotismo e a todas as mortes ocorridas por atitudes do partido bolchevique em sua busca pela permanência no comando da Rússia. Contudo, Pipes conduz sua narrativa de forma tão enfática – quase fanática – que, apesar deste livro ser uma leitura fácil, acaba sendo um tanto incômoda. Fica no ar a sensação de que diversos contrapontos foram omitidos para solidificar os pontos que Pipes quer dar ênfase.

Recomendo este livro como leitura complementar a todos que estudam a Revolução Russa e o governo soviético. Contudo, se esta for sua primeira leitura sobre o assunto, recomendo a busca de livros com outras perspectivas, de modo a contribuir para uma construção mais abrangente de suas impressões sobre um evento tão importante – para o bem ou para o mal – no século XX.

Preço médio: R$ 20,00

23 de dezembro de 2013

Chalmers Johnson - As aflições do império

JOHNSON, Chalmers. As aflições do império. Rio de Janeiro: Record, 2007.

O número de publicações e estudos acadêmicos nas mais diversas áreas das ciências humanas concernentes ao imperialismo e o militarismo estadunidense cresceu tremendamente após os atentados ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, e ainda mais após a declaração de guerra ao Iraque, dando seguimento, de certa maneira, à Guerra do Golfo, travada cerca de dez anos antes. Não é a toa que a Guerra do Iraque é chamada por muitos de “Segunda Guerra do Golfo”. A obra aqui avaliada é uma destas.

Autor de outras obras de ataque ao imperialismo estadunidense através do globo, Chalmers Johnson dedica em seu As aflições do império: militarismo, operações secretas e o fim da república um grande espaço de modo a dissertar sobre, entre outras coisas, a criação de uma “Nova Roma” por parte dos Estados Unidos e a ampliação da área de atuação de suas bases militares através do globo. Johnson defende que os EUA criaram um império de bases, e que a manutenção desse império, longe de existir apenas por influência política, ideológica e econômica, é tocada através do poderio militar.

Johnson apoia seus argumentos em uma série de dados, como o número de cerca de meio milhão de soldados, técnicos, espiões, construtores civis espalhados pelas bases no exterior, entre outros. Impondo suas zonas de influência na base da força, os gastos militares do governo estadunidense ultrapassam a soma dos gastos de outros países militarmente poderosos juntos. Como compreender, então, o aval de, possivelmente, a maior parte da população do país durante o conflito quanto aos gastos em questão?

Johnson, assim como Noam Chomsky, Douglas Kellner, Carol Brightman e tantos outros, compreende que esse aval têm a necessidade de estar respaldado por uma propaganda massiva, objetivando criar medo e insegurança na população, de modo a aceitar passivamente gastos exorbitantes e agressões violentas à soberania de outros países em troca de uma suposta segurança, que a cada dia se mostra tênue. A suposta guerra contra o terrorismo não impediu que, no passar dos anos, outros atentados ocorressem.

Johnson dedica os primeiros capítulos a articular as relações entre a propaganda e o imperialismo estadunidense, buscando respaldo histórico ao citar a intervenção em Cuba, a guerra contra a Espanha após o afundamento do Maine e a paranoia incentivada pela imprensa quanto a este fato, entre outras questões, além de citar o óbvio exemplo da Guerra Fria, responsável pelo crescente militarismo nos EUA, ao contrário da desejada desmobilização do exército após a Segunda Guerra Mundial. Desnecessário dizer, o acompanhamento das questões acerca da propaganda segue até meados de 2003 e adiante, demonstrando como se dá o aliciamento de jovens, exemplificando slogans sedutores e as promessas carreiristas que um exército de voluntários com tanta demanda necessita para não apenas sobreviver, mas se expandir.

O terror doméstico da propaganda durante a administração Bush, acerca das supostas armas de destruição em massa iraquianas dava combustível à paranoia belicista. No início da ofensiva ao Afeganistão, praticamente todas as informações disponíveis ao público ou ao congresso tinham origem no Pentágono, resultado da supressão de informações desfavoráveis ao governo.

O autor não deixa de estudar as questões econômicas envolvidas com o conflito. Não falo apenas a respeito de gastos excessivos e licitações cuja transparência é questionável, mas aos interesses particulares de diversos nomes do staff da administração do governo de George W. Bush. A ligação de alguns deles com a Chevron, Halliburton e outras companhias petrolíferas é um interessante indicativo de motivos escusos na empreitada militar ao Iraque, segunda maior fonte de petróleo acessível e barato do mundo.

Johnson também dedica espaço para dissertar como o próprio imperialismo estadunidense com o passar do tempo foi responsável por problemas futuros. A exemplo, citemos o apoio de cerca de dois bilhões de dólares aos mujahideen no Afeganistão, os quais tomaram conta informalmente do país após a derrota da União Soviética. Voltando-se contra os EUA, alguns dos seus integrantes foram responsáveis pelo atentado ao World Trade Center.

Cito, abaixo, um trecho na íntegra do livro, presente na página 215 da edição brasileira, que explicita melhor a posição do autor do que qualquer avaliação de minha parte:

Guerras e imperialismo são irmãos siameses unidos pelos quadris. Cada um se alimenta do outro. Não podem ser separados. O imperialismo é a maior causa da guerra e guerra é a parteira de novas aquisições imperialistas. As guerras são feitas porque os líderes políticos convencem o povo que o uso da força armada é necessário para defender o país ou alcançar algum objetivo abstrato – a independência de Cuba da Espanha, prevenir uma vitória comunista na guerra civil coreana, manter as repúblicas das bananas da América Central no “mundo livre” ou mesmo levar a democracia ao Iraque. Para uma grande potência, travar uma guerra que não seja para defender a pátria requer geralmente bases militares no exterior por motivos estratégicos. Depois que a guerra termina, é forte a tentação de o vitorioso reter tais bases, e é muito fácil encontrar justificativas para isso.

Obras como As aflições do império são especialmente úteis, tanto para residentes nos EUA quanto para estrangeiros, para a compreensão de como as guerras imperialistas incentivadas ou iniciadas pelo governo estadunidense ocorrem. Ainda que muitos acusem livros como este de dar voz a supostas teorias de conspiração, generalizar eventos (como os estupros e violência dos militares estadunidenses residentes nas bases estrangeiras contra a população dos arredores), entre outras coisas, é indispensável estar ciente dos perigos da propaganda alinhada a interesses particulares e a ideologias de caráter expansionista. Estar preparado para avaliar criticamente tais eventos e questionar toda informação recebida deve ser privilégio não apenas de acadêmicos ou estudiosos das ciências humanas, mas de todos. E esta leitura muito contribui para o desenvolvimento de tal postura. Altamente recomendado.

Preço médio: R$ 50,00

22 de dezembro de 2013

Robert Walser - Running with the devil

WALSER, Robert. Running with the devil: power, gender, and madness in heavy metal music. Middletown: Wesleyan University Press, 1993.

Heavy metal. Um gênero musical que, em termos gerais, é pouco atraente do ponto de vista mercadológico – salvo momentos em particular, como em meados dos anos 1980 –, mas que há cerca de quarenta anos apresenta um crescimento ininterrupto. Contribui com o desenvolvimento de identidades, coletivas e individuais, e teve impacto no desenvolvimento da música em geral, em maior ou menor grau.

Sendo um fenômeno com tal impacto na cultura popular do século XX, é interessante perceber que os principais estudos acadêmicos a respeito do heavy metal como fenômeno social tenham surgido apenas a partir dos anos 1980. O contexto do mercado fonográfico dos Estados Unidos, local onde alguns desses estudos surgiram, certamente ajuda a compreender este ímpeto, mas foi também necessário que algumas das principais polêmicas que envolvem o heavy metal ganhassem mais espaço na mídia para que o gênero, como fenômeno, ganhasse mais atenção.

Robert Walser, musicólogo e diretor do Center for Popular Music Studies do Departamento de Música da Case Western Reserve University, aceitou o desafio de avaliar o heavy metal não apenas do ponto de vista musical, mas também social. Em Running with the devil: power, gender, and madness in heavy metal music, Walser se propõe a fazer um apanhado das principais características que definem o gênero – a despeito do número gigantesco de subgêneros surgidos com o passar do tempo.

Em seu início, a obra discute a mediação comercial sobre o heavy metal, fazendo uma rápida contextualização que leva aos anos 1980, indiscutivelmente o momento de ápice do estilo. Neste primeiro capítulo, além de nos situar historicamente, Walser faz um apanhado da produção acadêmica e as críticas do período a respeito do heavy metal a partir dos anos 1980, ressaltando principalmente seus problemas, relacionados geralmente a desconhecimento e preconceitos. Afinal, ao contrário do que o público que desconhece o gênero costuma aparentar acreditar, o heavy metal e seus adeptos (músicos e fãs) não possuem um padrão facilmente definível a respeito de sonoridade, letras, visual e comportamento. Como o autor pontua, o heavy metal não é monolítico (p. 3-4).

Walser apresenta, na segunda categoria, o heavy metal – mais precisamente suas mensagens líricas e musicais – como discurso. De certa forma, este conceito não está tão distante das ideias de Douglas Kellner a respeito do rap como um ‘fórum cultural’, onde são discutidas perspectivas, pontos de vista e questões em geral sobre o contexto social daqueles que produzem o conteúdo em questão. Relacionando esse discurso à análise musical – algo indispensável para qualquer estudioso sério que se preze a ter música como fonte de estudo –, Walser  pontua que, ao analisar as músicas, muitos pretensos estudiosos avaliam apenas a parte lírica das obras, o que empobrece – e mais comumente inviabiliza – uma análise satisfatória da música como objeto de análise acadêmica.

Nesse sentido, apresentar o heavy metal como discurso significa mostrá-lo como portador de significados que vão além da letra e abraçam uma série de elementos e práticas. Seu valor, do ponto de vista de uma história social da cultura reside no fato de que estes objetos estão intrinsecamente ligados ao contexto social no qual são produzidos.

Em seguida, Walser dedica um capítulo a avaliar as estreitas relações entre a virtuose da ‘música clássica’ e a virtuose dos grandes guitarristas do heavy metal, demonstrando como, além de outras óbvias influências musicais como o blues, o heavy metal deve muito de sua identidade estética à música clássica; algo que, longe de ser negado, costuma ser ressaltado por fãs e críticos musicais favoráveis ao gênero como elemento de distinção e prestígio.

Para desenvolver sua argumentação, Walser analisa (temos aí a parte do livro onde a parte de musicologia mais aparece) músicas em particular de grandes guitarristas: Richie Blackmore e a música Highway Star, do Deep Purple (banda onde o guitarrista esteve presente durante sua formação mais aclamada); Eddie Van Halen e sua Eruption, relacionando algumas das técnicas que Eddie utiliza com Vivaldi; Randy Rhoads, guitarrista do início da carreira solo de Ozzy Osbourne, outro guitarrista de formação clássica (por parte de seus pais músicos), que mesmo morto prematuramente em um acidente, ainda é muito influente para os amantes do instrumento; Yngwie Malmsteen, guitarrista sueco que trouxe uma verdadeira revolução na forma como alguns guitarristas tocavam guitarra, se aproximando tanto de elementos clássicos que passou a ser constantemente comparado ao virtuoso violinista Niccolo Paganini.

No capítulo quatro a parte musical perde um pouco do destaque para as questões de gênero que envolvem o heavy metal. Walser demonstra como ocorre a exclusão das mulheres da cena musical do estilo, dá demonstrações de como certas bandas, em algumas músicas, se vitimizam diante do feminino (como no citado caso da música The Kiss of Death, da banda Dokken, relacionada ao HIV e colocando genericamente as mulheres como perigosas no que concerne à infecção) e, por fim, avalia os elementos românticos e a cena do glam rock dos anos 1980 em geral, incluindo os elementos andróginos presentes naquele contexto.

No último capítulo, talvez o mais interessante do ponto de vista social, Walser discute os ataques que a música – especialmente o heavy metal – receberam durante os anos 1980 e as tentativas de censura, principalmente do PMRC, órgão formado pelas esposas de influentes senadores dos Estados Unidos, religiosas em uma cruzada para censurar todos os produtos da indústria cultural que atacassem a moral e os pilares do puritanismo religioso. Walser derruba todos os principais argumentos do órgão com maestria.

No mesmo capítulo, Walser apresenta uma discussão sobre a presença do misticismo no heavy metal, fazendo uma discussão cujas conclusões se assemelham muito ao que Douglas Kellner discutiu em A cultura da mídia a respeito de filmes como Poltergeist, onde os elementos místicos ou de terror são representações de temores sociais reais, apresentados de forma fantasiada de modo a serem menos assustadores e impactantes, como uma espécie de escapismo lúdico carregado de significados identificáveis a respeito de uma situação social real.

Ainda neste capítulo, Walser apresenta os estudos de Danny Sugerman sobre o sucesso do álbum Appetite for Destruction, do Guns ‘N’ Roses, como resultado de suas representações cruas e de fácil identificação com classes oprimidas; suas músicas bateriam de frente com a realidade das ruas de Los Angeles (como representantes de um panorama muito maior) e de seus excluídos; drogados, prostitutas e outros indivíduos considerados indesejáveis. Sugerman chega a relacionar as perspectivas da banda aos escritos de Marx e Engels.

Apesar de, infelizmente, não possuir tradução para a língua portuguesa, arrisco a dizer que este é um dos melhores livros acadêmicos sobre o heavy metal com o qual já tive contato. Ele não se pretende como obra de apresentação da história do gênero (algo que, no que concerne ao heavy metal, tem permanecido no escopo dos jornalistas), mas as discussões que Walser traz à tona são importantíssimas para qualquer debate que se pretenda sério sobre o estilo. O autor derruba preconceitos, apresenta argumentos muito sólidos ao defender seus pontos de vista e acaba nos apresentando uma obra obrigatória para quem anseia estudar o heavy metal a sério, livre de preconceitos, ‘achismos’ e deduções sem embasamento.

Preço médio: $ 17.00 (valor médio no site Amazon.com, em dólares)

18 de janeiro de 2013

René Rémond - O século XX


RÉMOND, René. O século XX: de 1914 aos nossos dias. 12ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

Sendo a última parte da coleção Introdução à história de nosso tempo, O século XX é exatamente que se propõe a ser. Uma introdução à história do século XX, ou ao menos parte dele; assim como Hobsbawn e tantos outros, Rémond sugere aceitar a ideia de que o século XX se inicia, efetivamente, com a Primeira Guerra Mundial, primeiro capítulo desta obra. O livro em questão foi lançado em 1974, em meio à Guerra Fria (apesar do seu período de maior tensão já ter passado), perto do fim da Guerra do Vietnã (mal é citada) e, por compreender um período de cerca de sessenta anos, acaba dando muito destaque aos dois conflitos mundiais.

René Rémond é mais conhecido por seus trabalhos sobre história política, e tal preferência é explícita neste trabalho. Sua principal característica, explícita em todos os capítulos, é o fato de Rémond optar por trabalhar sobre causas e consequências dos eventos que se dispõe a relatar. Os complexos meandros que precedem as duas grandes guerras são mais dissertados dos que os próprios conflitos – o capítulo dedicado à Segunda Guerra tem apenas cinco páginas – e suas consequências idem.

Os capítulos que fogem um pouco – ainda que não totalmente – das duas guerras (considerando que capítulos como “A  crise nas democracias liberais” estão totalmente ligados a elas – são dedicados ao comunismo na União Soviética e a questões relativas a outros recortes geográficos, abarcando períodos anteriores e posteriores aos dois conflitos. Temos um capítulo dedicado ao mundo comunista, à descolonização (focando na África), o despertar da Ásia (leia-se Japão, China e Índia), o despertar do mundo Árabe e a ascensão econômica da Europa nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial; tal recuperação deveu-se ao fato de sua economia estar totalmente devastada no após-guerra e os Estados Unidos se tornarem a maior potência mundial, em conflito majoritariamente ideológico com a União Soviética, que para alguns países europeus era considerada uma ameaça, tanto militar quanto politicamente.

No mesmo capítulo, Rémond se justifica sobre ter optado por, no decorrer do livro, relatar os eventos escolhidos do século XX pautando-se pela história da Europa, ou da intervenção européia em outros países. O autor afirma que não julga ser a história européia a única que merece ser estudada ou que os demais povos não têm história – um paradigma há muito ultrapassado por qualquer historiador minimamente sério. Sua opção dá-se, segundo Rémond, porque da Europa partiram as tentativas de unificação do mundo, exploradores, descobridores e foi a grande exportadora de ideias e homens. Ignoremos aqui o fato de Rémond ser filho da historiografia francesa. Uma postura assumidamente eurocêntrica, ainda que não comprometa a validade da obra.

A conclusão do livro se dedica a pensar em fatores que poderiam ser motivo de união ou fragmentação do mundo, inferindo esperanças de maior união, não apenas politicamente, mas linguística e culturalmente, mas ao mesmo tempo apresentando obstáculos habituais.

A obra de Rémond é uma introdução excelente para diversos dos temas que trata, mas ao mesmo tempo, corre risco de ser interpretada como determinista. O apego que o autor tem pelo eixo “causas e consequências” é extremo, e ele segue uma análise cronológica de eventos que, confluídos, contribuíram para o panorama que culminou nos eventos aventados – as grandes guerras, revolução russa, revoluções no Oriente Médio, etc.

Ainda assim, mais do que compreender eventos cujo panorama político foi determinante, compreendemos a importância das diferentes ideologias na formação do mundo contemporâneo. Além disso, é possível compreender como os conflitos do século XX e a ampliação do acesso à informação fizeram com que os povos desenvolvessem consciência sobre o pertencimento a um mundo complexo, porém, bem delimitado, não aquele mundo abstratamente gigantesco e desconhecido de outrora; dessa forma, as distâncias oriundas do desconhecimento do outro, aos poucos, se dissipam, embora por vezes elas ressurjam.

Uma excelente leitura introdutória para compreender não apenas os cerca de sessenta anos que o livro trata, mas também para compreender elementos posteriores. Contudo, outras leituras mais abrangentes que aprofundem as questões do livro, e mesmo de recortes geográficos que o livro deixa em segundo plano ou ignora, são necessárias.

Preço médio: R$ 20,00

LEIA TAMBÉM, COM CAPÍTULO DO MESMO AUTOR:
Questões sobre a história do presente

15 de janeiro de 2013

Noam Chomsky - Ambições imperiais


CHOMSKY, Noam. Ambições imperiais: o mundo pós 11/9. Rio de Janeiro. Ediouro, 2006.

Ambições imperiais, coletânea de entrevistas concedidas a David Barsamian, segue a mesma linha de outros livros de Chomsky baseado em entrevistas, onde as perguntas são não apenas pertinentes, mas determinantes para o rumo da conversa, sempre dialogando com as possibilidades que a memória do entrevistado apresenta. Chomsky mostra-se um verdadeiro prodígio da memória, recordando de detalhes sobre diversos eventos em diferentes épocas e lugares.

O livro em questão pode ser considerado, cronologicamente, uma sequência de Propaganda e consciência popular, sendo a primeira entrevista datada de 22 de março de 2003, e tem  como principal eixo algo que já estava em pauta no livro anterior: o intervencionismo dos Estados Unidos no resto do mundo e suas principais razões, o que explica o título da obra. O autor afirma que, antes do desenrolar das ações da política externa dos EUA após o 11/9, chamar a potência de império era algo de caráter pejorativo. Após os atentados e a invasão do Afeganistão e do Iraque, o comportamento imperialista dos EUA ficou explícito o bastante para que o termo não soasse como um simples ataque, mas se tornasse uma classificação adequada sobre o que ocorre desde então, ainda que já o fosse em contextos anteriores.

Chomsky aponta o clima de insegurança constante que a população dos Estados Unidos, o que justifica como a propaganda – muitas vezes apoiada em argumentos ridículos para qualquer pessoa instruída, crítica e atenta – é tão efetiva em fazer com que sua população passe a apoiar os ataques terroristas perpetrados pelo país. Estes, cobertos de eufemismo, são chamados de “ataques preventivos”, entre outros termos, por se tratarem de atitudes da grande potência bélica mundial. As mesmas atitudes tomadas pelos EUA, quando tomadas por outros países, são chamadas, no mínimo, de terrorismo.

O autor disserta sobre o fato de que sociedades democráticas são o campo fértil que a propaganda precisa, pois um governo autoritário com controle efetivo de seu pais precisa menos de propaganda (o que não quer dizer que não precise) do que um país democrático que precisa convencer sua população a validar suas intenções e atitudes. No capítulo “linguagem colateral”, este e outros assuntos são tratados, mediante um histórico da propaganda e da “engenharia social” nos Estados Unidos.

Vale citar que outros eventos, como a Guerra da Coréia, Vietnã e outros conflitos são contemplados pelo livro, e Chomsky faz questão de pontuar os motivos para cada uma, que nada têm a ver com a manutenção da democracia, mas sim, controle de territórios estratégicos e supressão de exemplos incômodos. Em diversos casos, ao invés da invasão, os EUA se resumem a apoiar golpes de estado, colocando nos governos dos locais líderes corruptos e violentos. Pouco importa que os estados em questão se tornem ditaduras cruéis, muito longe de qualquer coisa que possamos chamar de democracia: o que importa é que os  governantes desses países andem na linha. Também está longe de ser democrática a atuação dos EUA nas Organização das Nações Unidas, já que o poder de veto que o país possuí não apenas trabalha, integralmente, em seu favor, mas também bloqueia soluções diplomáticas para conflitos que são levados adiante por questões de interesse político e econômico.

Além destas questões, Chomsky afirma que a “guerra de agressão” ao Iraque se deu pela mudança de postura de Saddam Hussein em relação aos Estados Unidos. Anos antes, ainda que fosse um ditador homicida, Hussein era apoiado pela potência ocidental, até que seu comportamento passou a incomodar. Iniciaram-se sansões econômicas que arruinaram a economia do país, mas foi a partir da propaganda pós 11/9, que fez com que pelo menos metade da população dos EUA acreditasse que o Iraque e Saddam Hussein teriam relação direta com os ataques que a invasão, de fato, começou, visando a abertura do país para o capital estrangeiro e o controle do petróleo. Não se trata apenas de ter as reservas de petróleo, mas também controlar a distribuição dele para o resto do mundo a partir de sua produção do Oriente Médio. Não basta possuir os recursos; controlar sua distribuição afeta as demais economias dependentes deles.

Chomsky, como é tradição, responde a questões determinantes sobre o que se pode fazer para bater de frente com esse panorama, aparentemente imutável. O autor vê a mobilização popular constante, não apenas protestos pontuais, como a solução para tais questões, algo que o autor já afirma há muito tempo. Não se trata de uma solução a curto ou mesmo médio prazo – tais soluções não existem nesse caso. Trata-se de uma mudança gradativa que se apresenta como tarefa árdua, mas é possível.

Ambições imperiais é altamente recomendável. Sua leitura é fácil e instigante, e apresenta os argumentos e eventos de forma muito clara, objetiva. Para quem se interessa pela conjuntura internacional de início do século, envolvendo os Estados Unidos e sua violência mascarada de “democracia”, além do histórico de tais questões, o livro é indispensável.

Preço médio: R$ 40,00

13 de janeiro de 2013

Noam Chomsky - O que o Tio Sam realmente quer


CHOMSKY, Noam. O que o Tio Sam realmente quer. Brasília. Editora Universidade de Brasília, 1999.

A obra aqui analisada, O que o Tio Sam realmente quer, não difere drasticamente de outras obras do autor, sejam seus textos ou entrevistas concedidas. Porém, ainda que seja um livro que dá seguimento a análises anteriores sobre política, economia e sociedade de eventos recentes da história mundial – principalmente no que concerne aos Estados Unidos –, é uma obra muito direta, disposta a analisar aspectos pontuais e cuja linha de raciocínio é muito coesa. Arriscaria dizer que este é um dos melhores livros para aqueles que não conhecem Chomsky e suas sagazes críticas políticas e sociais, principalmente aos Estados Unidos.

Logo de cara, Chomsky inicia seu texto explicitando os objetivos da política externa dos Estados Unidos, desenvolvida sobre a insegurança constante e argumentos descabidos sobre proteção do território, tomando a Segunda Guerra Mundial como divisor de águas por ser após o conflito que tais políticas se intensificaram com força, mais precisamente por conta da dita “Guerra Fria”. Um período onde cerca de 50% da riqueza mundial estava sob controle dos Estados Unidos, além dos dois lados do oceano, um controle sem precedentes na história mundial, segundo o autor.

Nesse mesmo contexto percebe-se a necessidade de se intensificar a pressão sobre a União Soviética a fim de minar o país e controlar a sucessão do governo soviético. Chomsky defende no decorrer de todo o livro que o principal objetivo dos Estados Unidos em derrubar os soviéticos, atacar regiões supostamente inexpressivas como o Laos, Vietnã do Sul, Nicarágua e outros não se dá apenas por localização estratégia ou recursos – por vezes nenhum desses elementos faz parte da equação. O grande objetivo por trás dessas ações é a supressão de exemplos: na maior parte desses locais, governos realmente democráticos – ao contrário do governo dos EUA – desenvolviam-se de forma vigorosa, sob aval popular e, por vezes, com caráter nacionalista, fechado à intervenção do capital externo. Tais exemplos, se bem sucedidos, poderiam influenciar outros países, ou mesmo camadas populares nos EUA, o que seria inadmissível.

Eis o motivo pelo qual Chomsky defende que os Estados Unidos, se não conseguiram atingir todos os objetivos com a Guerra do Vietnã, pelo menos saíram vitoriosos. O país foi destruído, milhares de camponeses foram mortos, os efeitos do Agente Laranja e outras armas químicas e biológicas são sentidos até hoje e, principalmente, a economia do país foi arrasada, fazendo com que um desenvolvimento adequado nos moldes anteriores a Guerra seja uma realidade pouco plausível, pelo menos nas próximas décadas.

O livro foi lançado na década de 1990, portanto, não inclui debates a respeito da postura dos Estados Unidos a partir dos atentados ao World Trade Center. Contudo, é muito claro para o leitor que as atitudes de perfil imperialista dos EUA estão longe de serem inéditas, e a forma como elas são desenvolvidas não mudou em sua essência: interferência direta na política de países onde há movimentação considerada subversiva (sentimos isso na pele com a ditadura militar, citada no livro como responsável  pelo estado de miséria em que o Brasil se encontrava ao fim do regime), invasão de inimigos indefesos, pressão para a abertura do país para o capital estrangeiro, morte de civis, crimes de guerra entre diversos outros abusos; estes, aliás, não são poupados neste livro, que cita com detalhes a violência de grupos paramilitares na América Latina, como os Contra e o Batalhão Atlacatl. Chomsky mostra também como ditadores brutais (Somoza, Saddam Hussein, Suharto) são apoiados na tomada do poder em seus países por parte dos EUA e cuja permanência é apoiada, desde que atendam aos interesses da grande potência bélica mundial.

Como de praxe, Chomsky apresenta suas ideias de como devemos lidar com esse tipo de situação; em outras palavras, o que fazer. Embora ele fale, principalmente, ao leitor dos Estados Unidos, seus exemplos são universais. O fato de tais ideias se repetirem em diferentes trabalhos mostra a obstinação do autor nesse sentido. Conforme seus livros são lançados percebemos que os tópicos com os quais Chomsky trabalha fazem parte de uma longa estrutura de política expansionista, seja no sentido de expansão territorial ou de influência. Como dito anteriormente, trata-se de um dos melhores livros para ser apresentado a Noam Chomsky.


Preço médio: R$ 18,00

LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR:
Ambições imperiais
Propaganda e consciência popular

4 de janeiro de 2013

Agnès Chauveau, Philippe Tétart: Questões para a história do presente


CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões para a história do presente. Bauru: EDUSC, 1999.

História imediata, história do presente, história contemporânea; independente da forma como encaramos a história de eventos muito recentes e como a classificamos, por muito tempo tal história se mostrou – e talvez possamos dizer que ainda se mostra – espinhosa e carregada de problemas. Academicamente, nos círculos historiográficos, há quem torça o nariz para o estudo do presente, classificando como trabalho de sociólogos, cientistas políticos, entre outros; os acontecimentos não teriam a maturação e o distanciamento necessários ao historiador para que pudesse fazer uma análise mais apurada, com acesso ao desenrolar dos eventos, com a melhor definição do papel dos eventos na conjuntura de média e longa duração e supostamente mais distante de influencias ideológicas do momento. Trabalhos como o conciso Questões para a história do presente adicionam reflexões indispensáveis a esta discussão, demonstrando que mesmo carregadas de problemas, a história do tempo presente deve ser encarada.
            
Lançado na primeira metade da década de 1990, o livro é um produto de sua época – ainda que tal afirmação seja óbvia –, e por se tratar de uma obra da historiografia francesa, está carregado de exemplos de trabalhos franceses, além de citar exemplos que são mais próximos a suas realidades, como a repetição da Guerra da Argélia como exemplo de história recente, contribuindo, principalmente, no papel da memória na história do presente (discutido mais profundamente no capítulo de Robert Frank, “Questões para as fontes do presente”). Além do mais, ele carrega a influência da queda do regime soviético e o fim da guerra fria em alguns de seus capítulos.

Após uma bem estruturada introdução dos organizadores do livro cujo título dá nome à obra, discutindo diversas questões sobre história do tempo presente – como a necessidade do distanciamento para com as fontes, ou mesmo o fato de a história do presente partir, em partes, de uma demanda social pós anos 1950 –, os capítulos se desvelam em diferentes temas, propostos por Chauveau e Tétard. O primeiro, escrito por Jean-Pierre Rioux discute a própria possibilidade de se fazer uma história do presente, diante da condensação das informações midiatizadas. O mesmo autor escreve um capítulo posterior, discutindo a relação da história com o jornalismo, e mostra-se muito crítico aos historiadores e acadêmicos que rejeitam a história do tempo presente, sob argumentos já citados aqui.

René Remónd permanece no campo do político, o qual lhe rendeu alguns de seus mais conceituados trabalhos, dissertando sobre a suposta volta da história política. Um conceito de “volta” que não deixa de ser problemático, por dar a entender o retorno de concepções historiográficas ultrapassadas, como se nada houvesse sido alterado nesse retorno. Rémond admite, não sem razão, que o político também pode ser um objeto de conhecimento científico, além de explicação de outros fatores além de si mesmo. Vale dizer que, corretamente, Rémond encaixa o político numa história de longa duração; compreendê-lo apenas por contingências é uma tarefa não apenas muito difícil, como também metodologicamente errônea.
      
Já Jean-Jacques Becker dedica seu capítulo a discutir o marxismo e o comunismo na história do presente; ou pelo menos essa seria a proposta. Becker traça um histórico sobre as dificuldades dos estudos sobre o comunismo (lembremos o contexto em que o livro foi escrito) e relega o marxismo a dois parágrafos ao fim do capítulo; apesar disso, faz uma sagaz observação ao afirmar que as análises de Marx, embora ainda relevantes para aspectos específicos da história do século XIX e XX, são comumente

simplificadas, adotadas de modo mecânico e em muitos casos inconsciente, além de terem um papel de “esterilização do trabalho histórico, pretendendo submeter toda a análise das sociedades humanas praticamente a um único tipo de explicação e negando, ou melhor, rejeitando o pano de fundo das explicações da evolução das sociedades e do comportamento dos homens que são, por exemplo, o espiritual, a ideia nacional...[1]

Jean-François Sirinelli dedica seu capítulo a uma reflexão importante e cuja atualidade não esmorece: a influência da ideologia nos trabalhos historiográficos, e como este problema pode ter maior peso em trabalhos de história recente, onde por vezes a ideologia na qual um historiador – ou qualquer outro estudioso – podem estar inserido, conscientemente ou não, não é identificada; ou seja, ao contrário de trabalhos sobre uma história mais distante, onde as ideologias presentes no contexto são mais facilmente identificadas e distanciáveis. Na sequência, Jacques Le Goff posiciona-se como um medievalista diante do presente, e aproveita o espaço para reforçar a importância de se relacionar o passado distante do presente – adotando, para o capítulo, a cronologia “oficial” de Idade Média, apesar de citar seu conhecido conceito de Idade Média permanente até o século XIX no plano material.

Voltamos ao já citado Robert Frank, responsável pela discussão sobre as fontes do tempo presente, discutindo metodologicamente as vantagens e desvantagens do uso de fontes orais, escritas e a relação da memória com a história. Embora tais discussões sejam encontradas em diversas obras de forma mais aprofundada, Frank consegue condensar as ideias principais e levantar, também, os principais problemas em cada caso, além das obrigações do historiador diante de tais dificuldades. Ao fim, o também citado capítulo de Jean-Pierre Rioux sobre a relação da história e do jornalismo e a conclusão, por parte de Serge Bernstein e Pierre Milza; esta condensa as ideias do livro em poucas colocações, retomando a influência de Braudel que permeia todos os capítulos a respeito da necessidade do historiador situar os fatos e as contingências na média e longa duração para que se possa compreender mais satisfatoriamente os motivos, sentidos, relevância e, talvez, consequências desses acontecimentos contemporâneos pontuais.

Como característica negativa, a edição/impressão analisada contém um número excessivo de erros de digitação, que demonstra um aparente desleixo com o trabalho de revisão; de qualquer modo, é algo que pode ter sido corrigido em impressões mais recentes e não compromete em nada o entendimento da obra.
           
Trata-se de um trabalho muito conciso e em alguns momentos pode parecer mesmo datado, mas é impossível negar sua qualidade. Considero este livro uma leitura obrigatória para qualquer historiador da história recente, ou mesmo imediata, pois mesmo que outras obras abordem, em separado, os temas deste livro com mais aprofundamento, Questões para a história do tempo presente as condensam de forma clara, objetiva e prática.

Preço médio: R$ 20,00



[1] BECKER, Jean-Jacques. “Marxismo e comunismo na história recente”. In: CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões para a história do tempo presente. Bauru: EDUSC, 1999, p. 72.

3 de setembro de 2012

Bernard Lewis - Os assassinos


LEWIS, Bernard. Os assassinos: os primórdios do terrorismo no islã. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 

A “Seita dos assassinos” é um tema que atrai a curiosidade de alguns historiadores e mesmo entusiastas, tendo ainda mais apelo na cultura pop após o lançamento do jogo eletrônico Assassin’s Creed, da empresa de origem francesa Ubisoft. Nele, o jogador controla o personagem Altaïr ibn-La'Ahad
, pertencente a ordem dos assassinos. O jogo em questão fez grande sucesso e abriu um precedente para o interesse por parte de algumas pessoas no que teria dado origem ao jogo, no que tange a seu fundo de cunho histórico. Talvez a melhor obra de iniciação ao tema seja o livro em questão, escrito por Bernard Lewis, que no Brasil leva o subtítulo de “os primórdios do terrorismo no islã”. 

Após resumir a história da seita dos assassinos, dissertando acerca dos melhores trabalhos a respeito do tema com o passar dos séculos, Lewis se preocupa em situar o leitor na complexa história do Islamismo posterior à morte de Maomé, de forma sucinta, mas suficiente. Para a compreensão do todo, algo que é vital para o entendimento da seita é a separação entre os xiitas e os sunitas, sendo o primeiro grupo formado inicialmente pelos descontentes com a sucessão de Maomé por Abu Bacr, um conhecido converso, defendendo a sucessão por parte de Ali, sobrinho e genro do profeta. Este ascendeu ao poder em  656, mas foi assassinado em 661. Após isto, o grupo dos Xi’a começou a adquirir um caráter cada vez mais messiânico, permitindo que, cada vez mais, política e religião se mesclassem, em uma região onde essa associação tinha lugar comum.

Nesse contexto, a figura do imame – uma espécie de líder espiritual com poderes de cura, portador da verdade e outras características pretensamente divinas – tinha uma importância elevada, e as intensas divergências acerca de direitos de sucessão fizeram com que um grupo de descontentes, seguidores de um possível imame chamado Isma’il fosse o grupo responsável pelo surgimento da seita dos assassinos, conhecidos então, por suas crenças, como ismaelitas. 

Isso explica claramente o motivo de a seita dos assassinos – surgida na Pérsia com ramificações na Síria, por vezes mais conhecidas do que as da Pérsia – ter se ocupado quase que integralmente ao assassínio de outros muçulmanos, principalmente os sunitas. Lendas sobre a seita abundaram, inclusive na Europa, por terem os assassinos tido prováveis ligações com europeus, e até mesmo matando em favor dos estrangeiros.

Como seita e grupo, a principal diferença dos ismaelitas para outras seitas e grupos foi o fato de ela ter sido a primeira a ter uma organização eficiente e duradoura. Segundo praticamente todas as fontes sobre o assunto, os assassinos eram servos fiéis de seu senhor, infiltrando-se no território inimigo, fazendo papel de servo deste até que uma hora propícia se revelasse. Não havia envenenamento, uso de armas de arremesso ou algo do tipo; simplesmente sua adaga bastava. Era recorrente o discurso de que para o assassino era glorioso ser morto, ou mesmo se matar, após cometer o crime. 

A própria palavra “assassino” possui uma origem controversa; sua origem gera desacordos, a despeito de ser comumente associada ao nome original do haxixe – supostamente empregado pelo líder e fundador da seita, Hasã-I Sabá, para em conjunto com jardins, mulheres e demais prazeres, dar uma amostra do paraíso que aguardaria àqueles que morrem pela causa. 

Lewis discorre sobre o sucesso da seita na Pérsia, principalmente a partir do quase impenetrável castelo de Alamut, onde Hasã-I Sabá residia, e onde seus sucessores, em geral, viveram, apesar dos demais castelos nas montanhas que pertenciam à ordem. Depois, parte para os assassinos que migraram para a Síria, afirmando não serem muitas as fontes sobre estes, exceto alguns registros de assassinatos cometidos por estes. Percebe-se que na Síria, território mais hostil e de difícil penetração cultural e religiosa – já que o ismaelismo era, apesar de tudo, uma seita estrangeira – sua inserção foi muito mais difícil, e sua eliminação mais eficaz. A despeito do medo que causavam aos seus adversários e da eficácia com que fizeram valer sua vontade em muitos períodos, os assassinos foram derrubados; pequenas sublevações posteriores faziam eco à seita, mas sem que houvesse uma ligação realmente concisa. 

Desde modo, ainda que possa fazer algum sentido num primeiro momento, a assertiva de que os assassinos foram predecessores dos terroristas modernos é precipitada e soa anacrônica. Bernard Lewis tem um histórico de obras que tratam o Oriente Médio como uma região atrasada, em crise e que, como afirma um dos títulos de sua autoria, deu errado. O subtítulo original a radical sect in islam (uma seita radical no islã), no entanto, soa menos generalista e menos anacrônico do que outros que o livro recebeu pelo mundo – incluindo o subtítulo brasileiro. 

Apesar deste detalhe, o livro merece todos os méritos, por ser uma obra concisa, mas certamente muito relevante. A pouca familiaridade do público brasileiro com nomes de origem árabe e semelhantes pode causar confusão quanto à citação tanto de líderes da seita como outros governantes e personagens de todas essas tramas de poder e resistência, mas nada que um pouco de atenção não possa contornar. Livro obrigatório para todo o iniciante neste tema.

Preço médio: R$ 44,90



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