23 de dezembro de 2013

Chalmers Johnson - As aflições do império

JOHNSON, Chalmers. As aflições do império. Rio de Janeiro: Record, 2007.

O número de publicações e estudos acadêmicos nas mais diversas áreas das ciências humanas concernentes ao imperialismo e o militarismo estadunidense cresceu tremendamente após os atentados ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, e ainda mais após a declaração de guerra ao Iraque, dando seguimento, de certa maneira, à Guerra do Golfo, travada cerca de dez anos antes. Não é a toa que a Guerra do Iraque é chamada por muitos de “Segunda Guerra do Golfo”. A obra aqui avaliada é uma destas.

Autor de outras obras de ataque ao imperialismo estadunidense através do globo, Chalmers Johnson dedica em seu As aflições do império: militarismo, operações secretas e o fim da república um grande espaço de modo a dissertar sobre, entre outras coisas, a criação de uma “Nova Roma” por parte dos Estados Unidos e a ampliação da área de atuação de suas bases militares através do globo. Johnson defende que os EUA criaram um império de bases, e que a manutenção desse império, longe de existir apenas por influência política, ideológica e econômica, é tocada através do poderio militar.

Johnson apoia seus argumentos em uma série de dados, como o número de cerca de meio milhão de soldados, técnicos, espiões, construtores civis espalhados pelas bases no exterior, entre outros. Impondo suas zonas de influência na base da força, os gastos militares do governo estadunidense ultrapassam a soma dos gastos de outros países militarmente poderosos juntos. Como compreender, então, o aval de, possivelmente, a maior parte da população do país durante o conflito quanto aos gastos em questão?

Johnson, assim como Noam Chomsky, Douglas Kellner, Carol Brightman e tantos outros, compreende que esse aval têm a necessidade de estar respaldado por uma propaganda massiva, objetivando criar medo e insegurança na população, de modo a aceitar passivamente gastos exorbitantes e agressões violentas à soberania de outros países em troca de uma suposta segurança, que a cada dia se mostra tênue. A suposta guerra contra o terrorismo não impediu que, no passar dos anos, outros atentados ocorressem.

Johnson dedica os primeiros capítulos a articular as relações entre a propaganda e o imperialismo estadunidense, buscando respaldo histórico ao citar a intervenção em Cuba, a guerra contra a Espanha após o afundamento do Maine e a paranoia incentivada pela imprensa quanto a este fato, entre outras questões, além de citar o óbvio exemplo da Guerra Fria, responsável pelo crescente militarismo nos EUA, ao contrário da desejada desmobilização do exército após a Segunda Guerra Mundial. Desnecessário dizer, o acompanhamento das questões acerca da propaganda segue até meados de 2003 e adiante, demonstrando como se dá o aliciamento de jovens, exemplificando slogans sedutores e as promessas carreiristas que um exército de voluntários com tanta demanda necessita para não apenas sobreviver, mas se expandir.

O terror doméstico da propaganda durante a administração Bush, acerca das supostas armas de destruição em massa iraquianas dava combustível à paranoia belicista. No início da ofensiva ao Afeganistão, praticamente todas as informações disponíveis ao público ou ao congresso tinham origem no Pentágono, resultado da supressão de informações desfavoráveis ao governo.

O autor não deixa de estudar as questões econômicas envolvidas com o conflito. Não falo apenas a respeito de gastos excessivos e licitações cuja transparência é questionável, mas aos interesses particulares de diversos nomes do staff da administração do governo de George W. Bush. A ligação de alguns deles com a Chevron, Halliburton e outras companhias petrolíferas é um interessante indicativo de motivos escusos na empreitada militar ao Iraque, segunda maior fonte de petróleo acessível e barato do mundo.

Johnson também dedica espaço para dissertar como o próprio imperialismo estadunidense com o passar do tempo foi responsável por problemas futuros. A exemplo, citemos o apoio de cerca de dois bilhões de dólares aos mujahideen no Afeganistão, os quais tomaram conta informalmente do país após a derrota da União Soviética. Voltando-se contra os EUA, alguns dos seus integrantes foram responsáveis pelo atentado ao World Trade Center.

Cito, abaixo, um trecho na íntegra do livro, presente na página 215 da edição brasileira, que explicita melhor a posição do autor do que qualquer avaliação de minha parte:

Guerras e imperialismo são irmãos siameses unidos pelos quadris. Cada um se alimenta do outro. Não podem ser separados. O imperialismo é a maior causa da guerra e guerra é a parteira de novas aquisições imperialistas. As guerras são feitas porque os líderes políticos convencem o povo que o uso da força armada é necessário para defender o país ou alcançar algum objetivo abstrato – a independência de Cuba da Espanha, prevenir uma vitória comunista na guerra civil coreana, manter as repúblicas das bananas da América Central no “mundo livre” ou mesmo levar a democracia ao Iraque. Para uma grande potência, travar uma guerra que não seja para defender a pátria requer geralmente bases militares no exterior por motivos estratégicos. Depois que a guerra termina, é forte a tentação de o vitorioso reter tais bases, e é muito fácil encontrar justificativas para isso.

Obras como As aflições do império são especialmente úteis, tanto para residentes nos EUA quanto para estrangeiros, para a compreensão de como as guerras imperialistas incentivadas ou iniciadas pelo governo estadunidense ocorrem. Ainda que muitos acusem livros como este de dar voz a supostas teorias de conspiração, generalizar eventos (como os estupros e violência dos militares estadunidenses residentes nas bases estrangeiras contra a população dos arredores), entre outras coisas, é indispensável estar ciente dos perigos da propaganda alinhada a interesses particulares e a ideologias de caráter expansionista. Estar preparado para avaliar criticamente tais eventos e questionar toda informação recebida deve ser privilégio não apenas de acadêmicos ou estudiosos das ciências humanas, mas de todos. E esta leitura muito contribui para o desenvolvimento de tal postura. Altamente recomendado.

Preço médio: R$ 50,00

22 de dezembro de 2013

Robert Walser - Running with the devil

WALSER, Robert. Running with the devil: power, gender, and madness in heavy metal music. Middletown: Wesleyan University Press, 1993.

Heavy metal. Um gênero musical que, em termos gerais, é pouco atraente do ponto de vista mercadológico – salvo momentos em particular, como em meados dos anos 1980 –, mas que há cerca de quarenta anos apresenta um crescimento ininterrupto. Contribui com o desenvolvimento de identidades, coletivas e individuais, e teve impacto no desenvolvimento da música em geral, em maior ou menor grau.

Sendo um fenômeno com tal impacto na cultura popular do século XX, é interessante perceber que os principais estudos acadêmicos a respeito do heavy metal como fenômeno social tenham surgido apenas a partir dos anos 1980. O contexto do mercado fonográfico dos Estados Unidos, local onde alguns desses estudos surgiram, certamente ajuda a compreender este ímpeto, mas foi também necessário que algumas das principais polêmicas que envolvem o heavy metal ganhassem mais espaço na mídia para que o gênero, como fenômeno, ganhasse mais atenção.

Robert Walser, musicólogo e diretor do Center for Popular Music Studies do Departamento de Música da Case Western Reserve University, aceitou o desafio de avaliar o heavy metal não apenas do ponto de vista musical, mas também social. Em Running with the devil: power, gender, and madness in heavy metal music, Walser se propõe a fazer um apanhado das principais características que definem o gênero – a despeito do número gigantesco de subgêneros surgidos com o passar do tempo.

Em seu início, a obra discute a mediação comercial sobre o heavy metal, fazendo uma rápida contextualização que leva aos anos 1980, indiscutivelmente o momento de ápice do estilo. Neste primeiro capítulo, além de nos situar historicamente, Walser faz um apanhado da produção acadêmica e as críticas do período a respeito do heavy metal a partir dos anos 1980, ressaltando principalmente seus problemas, relacionados geralmente a desconhecimento e preconceitos. Afinal, ao contrário do que o público que desconhece o gênero costuma aparentar acreditar, o heavy metal e seus adeptos (músicos e fãs) não possuem um padrão facilmente definível a respeito de sonoridade, letras, visual e comportamento. Como o autor pontua, o heavy metal não é monolítico (p. 3-4).

Walser apresenta, na segunda categoria, o heavy metal – mais precisamente suas mensagens líricas e musicais – como discurso. De certa forma, este conceito não está tão distante das ideias de Douglas Kellner a respeito do rap como um ‘fórum cultural’, onde são discutidas perspectivas, pontos de vista e questões em geral sobre o contexto social daqueles que produzem o conteúdo em questão. Relacionando esse discurso à análise musical – algo indispensável para qualquer estudioso sério que se preze a ter música como fonte de estudo –, Walser  pontua que, ao analisar as músicas, muitos pretensos estudiosos avaliam apenas a parte lírica das obras, o que empobrece – e mais comumente inviabiliza – uma análise satisfatória da música como objeto de análise acadêmica.

Nesse sentido, apresentar o heavy metal como discurso significa mostrá-lo como portador de significados que vão além da letra e abraçam uma série de elementos e práticas. Seu valor, do ponto de vista de uma história social da cultura reside no fato de que estes objetos estão intrinsecamente ligados ao contexto social no qual são produzidos.

Em seguida, Walser dedica um capítulo a avaliar as estreitas relações entre a virtuose da ‘música clássica’ e a virtuose dos grandes guitarristas do heavy metal, demonstrando como, além de outras óbvias influências musicais como o blues, o heavy metal deve muito de sua identidade estética à música clássica; algo que, longe de ser negado, costuma ser ressaltado por fãs e críticos musicais favoráveis ao gênero como elemento de distinção e prestígio.

Para desenvolver sua argumentação, Walser analisa (temos aí a parte do livro onde a parte de musicologia mais aparece) músicas em particular de grandes guitarristas: Richie Blackmore e a música Highway Star, do Deep Purple (banda onde o guitarrista esteve presente durante sua formação mais aclamada); Eddie Van Halen e sua Eruption, relacionando algumas das técnicas que Eddie utiliza com Vivaldi; Randy Rhoads, guitarrista do início da carreira solo de Ozzy Osbourne, outro guitarrista de formação clássica (por parte de seus pais músicos), que mesmo morto prematuramente em um acidente, ainda é muito influente para os amantes do instrumento; Yngwie Malmsteen, guitarrista sueco que trouxe uma verdadeira revolução na forma como alguns guitarristas tocavam guitarra, se aproximando tanto de elementos clássicos que passou a ser constantemente comparado ao virtuoso violinista Niccolo Paganini.

No capítulo quatro a parte musical perde um pouco do destaque para as questões de gênero que envolvem o heavy metal. Walser demonstra como ocorre a exclusão das mulheres da cena musical do estilo, dá demonstrações de como certas bandas, em algumas músicas, se vitimizam diante do feminino (como no citado caso da música The Kiss of Death, da banda Dokken, relacionada ao HIV e colocando genericamente as mulheres como perigosas no que concerne à infecção) e, por fim, avalia os elementos românticos e a cena do glam rock dos anos 1980 em geral, incluindo os elementos andróginos presentes naquele contexto.

No último capítulo, talvez o mais interessante do ponto de vista social, Walser discute os ataques que a música – especialmente o heavy metal – receberam durante os anos 1980 e as tentativas de censura, principalmente do PMRC, órgão formado pelas esposas de influentes senadores dos Estados Unidos, religiosas em uma cruzada para censurar todos os produtos da indústria cultural que atacassem a moral e os pilares do puritanismo religioso. Walser derruba todos os principais argumentos do órgão com maestria.

No mesmo capítulo, Walser apresenta uma discussão sobre a presença do misticismo no heavy metal, fazendo uma discussão cujas conclusões se assemelham muito ao que Douglas Kellner discutiu em A cultura da mídia a respeito de filmes como Poltergeist, onde os elementos místicos ou de terror são representações de temores sociais reais, apresentados de forma fantasiada de modo a serem menos assustadores e impactantes, como uma espécie de escapismo lúdico carregado de significados identificáveis a respeito de uma situação social real.

Ainda neste capítulo, Walser apresenta os estudos de Danny Sugerman sobre o sucesso do álbum Appetite for Destruction, do Guns ‘N’ Roses, como resultado de suas representações cruas e de fácil identificação com classes oprimidas; suas músicas bateriam de frente com a realidade das ruas de Los Angeles (como representantes de um panorama muito maior) e de seus excluídos; drogados, prostitutas e outros indivíduos considerados indesejáveis. Sugerman chega a relacionar as perspectivas da banda aos escritos de Marx e Engels.

Apesar de, infelizmente, não possuir tradução para a língua portuguesa, arrisco a dizer que este é um dos melhores livros acadêmicos sobre o heavy metal com o qual já tive contato. Ele não se pretende como obra de apresentação da história do gênero (algo que, no que concerne ao heavy metal, tem permanecido no escopo dos jornalistas), mas as discussões que Walser traz à tona são importantíssimas para qualquer debate que se pretenda sério sobre o estilo. O autor derruba preconceitos, apresenta argumentos muito sólidos ao defender seus pontos de vista e acaba nos apresentando uma obra obrigatória para quem anseia estudar o heavy metal a sério, livre de preconceitos, ‘achismos’ e deduções sem embasamento.

Preço médio: $ 17.00 (valor médio no site Amazon.com, em dólares)

18 de janeiro de 2013

René Rémond - O século XX


RÉMOND, René. O século XX: de 1914 aos nossos dias. 12ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

Sendo a última parte da coleção Introdução à história de nosso tempo, O século XX é exatamente que se propõe a ser. Uma introdução à história do século XX, ou ao menos parte dele; assim como Hobsbawn e tantos outros, Rémond sugere aceitar a ideia de que o século XX se inicia, efetivamente, com a Primeira Guerra Mundial, primeiro capítulo desta obra. O livro em questão foi lançado em 1974, em meio à Guerra Fria (apesar do seu período de maior tensão já ter passado), perto do fim da Guerra do Vietnã (mal é citada) e, por compreender um período de cerca de sessenta anos, acaba dando muito destaque aos dois conflitos mundiais.

René Rémond é mais conhecido por seus trabalhos sobre história política, e tal preferência é explícita neste trabalho. Sua principal característica, explícita em todos os capítulos, é o fato de Rémond optar por trabalhar sobre causas e consequências dos eventos que se dispõe a relatar. Os complexos meandros que precedem as duas grandes guerras são mais dissertados dos que os próprios conflitos – o capítulo dedicado à Segunda Guerra tem apenas cinco páginas – e suas consequências idem.

Os capítulos que fogem um pouco – ainda que não totalmente – das duas guerras (considerando que capítulos como “A  crise nas democracias liberais” estão totalmente ligados a elas – são dedicados ao comunismo na União Soviética e a questões relativas a outros recortes geográficos, abarcando períodos anteriores e posteriores aos dois conflitos. Temos um capítulo dedicado ao mundo comunista, à descolonização (focando na África), o despertar da Ásia (leia-se Japão, China e Índia), o despertar do mundo Árabe e a ascensão econômica da Europa nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial; tal recuperação deveu-se ao fato de sua economia estar totalmente devastada no após-guerra e os Estados Unidos se tornarem a maior potência mundial, em conflito majoritariamente ideológico com a União Soviética, que para alguns países europeus era considerada uma ameaça, tanto militar quanto politicamente.

No mesmo capítulo, Rémond se justifica sobre ter optado por, no decorrer do livro, relatar os eventos escolhidos do século XX pautando-se pela história da Europa, ou da intervenção européia em outros países. O autor afirma que não julga ser a história européia a única que merece ser estudada ou que os demais povos não têm história – um paradigma há muito ultrapassado por qualquer historiador minimamente sério. Sua opção dá-se, segundo Rémond, porque da Europa partiram as tentativas de unificação do mundo, exploradores, descobridores e foi a grande exportadora de ideias e homens. Ignoremos aqui o fato de Rémond ser filho da historiografia francesa. Uma postura assumidamente eurocêntrica, ainda que não comprometa a validade da obra.

A conclusão do livro se dedica a pensar em fatores que poderiam ser motivo de união ou fragmentação do mundo, inferindo esperanças de maior união, não apenas politicamente, mas linguística e culturalmente, mas ao mesmo tempo apresentando obstáculos habituais.

A obra de Rémond é uma introdução excelente para diversos dos temas que trata, mas ao mesmo tempo, corre risco de ser interpretada como determinista. O apego que o autor tem pelo eixo “causas e consequências” é extremo, e ele segue uma análise cronológica de eventos que, confluídos, contribuíram para o panorama que culminou nos eventos aventados – as grandes guerras, revolução russa, revoluções no Oriente Médio, etc.

Ainda assim, mais do que compreender eventos cujo panorama político foi determinante, compreendemos a importância das diferentes ideologias na formação do mundo contemporâneo. Além disso, é possível compreender como os conflitos do século XX e a ampliação do acesso à informação fizeram com que os povos desenvolvessem consciência sobre o pertencimento a um mundo complexo, porém, bem delimitado, não aquele mundo abstratamente gigantesco e desconhecido de outrora; dessa forma, as distâncias oriundas do desconhecimento do outro, aos poucos, se dissipam, embora por vezes elas ressurjam.

Uma excelente leitura introdutória para compreender não apenas os cerca de sessenta anos que o livro trata, mas também para compreender elementos posteriores. Contudo, outras leituras mais abrangentes que aprofundem as questões do livro, e mesmo de recortes geográficos que o livro deixa em segundo plano ou ignora, são necessárias.

Preço médio: R$ 20,00

LEIA TAMBÉM, COM CAPÍTULO DO MESMO AUTOR:
Questões sobre a história do presente

15 de janeiro de 2013

Noam Chomsky - Ambições imperiais


CHOMSKY, Noam. Ambições imperiais: o mundo pós 11/9. Rio de Janeiro. Ediouro, 2006.

Ambições imperiais, coletânea de entrevistas concedidas a David Barsamian, segue a mesma linha de outros livros de Chomsky baseado em entrevistas, onde as perguntas são não apenas pertinentes, mas determinantes para o rumo da conversa, sempre dialogando com as possibilidades que a memória do entrevistado apresenta. Chomsky mostra-se um verdadeiro prodígio da memória, recordando de detalhes sobre diversos eventos em diferentes épocas e lugares.

O livro em questão pode ser considerado, cronologicamente, uma sequência de Propaganda e consciência popular, sendo a primeira entrevista datada de 22 de março de 2003, e tem  como principal eixo algo que já estava em pauta no livro anterior: o intervencionismo dos Estados Unidos no resto do mundo e suas principais razões, o que explica o título da obra. O autor afirma que, antes do desenrolar das ações da política externa dos EUA após o 11/9, chamar a potência de império era algo de caráter pejorativo. Após os atentados e a invasão do Afeganistão e do Iraque, o comportamento imperialista dos EUA ficou explícito o bastante para que o termo não soasse como um simples ataque, mas se tornasse uma classificação adequada sobre o que ocorre desde então, ainda que já o fosse em contextos anteriores.

Chomsky aponta o clima de insegurança constante que a população dos Estados Unidos, o que justifica como a propaganda – muitas vezes apoiada em argumentos ridículos para qualquer pessoa instruída, crítica e atenta – é tão efetiva em fazer com que sua população passe a apoiar os ataques terroristas perpetrados pelo país. Estes, cobertos de eufemismo, são chamados de “ataques preventivos”, entre outros termos, por se tratarem de atitudes da grande potência bélica mundial. As mesmas atitudes tomadas pelos EUA, quando tomadas por outros países, são chamadas, no mínimo, de terrorismo.

O autor disserta sobre o fato de que sociedades democráticas são o campo fértil que a propaganda precisa, pois um governo autoritário com controle efetivo de seu pais precisa menos de propaganda (o que não quer dizer que não precise) do que um país democrático que precisa convencer sua população a validar suas intenções e atitudes. No capítulo “linguagem colateral”, este e outros assuntos são tratados, mediante um histórico da propaganda e da “engenharia social” nos Estados Unidos.

Vale citar que outros eventos, como a Guerra da Coréia, Vietnã e outros conflitos são contemplados pelo livro, e Chomsky faz questão de pontuar os motivos para cada uma, que nada têm a ver com a manutenção da democracia, mas sim, controle de territórios estratégicos e supressão de exemplos incômodos. Em diversos casos, ao invés da invasão, os EUA se resumem a apoiar golpes de estado, colocando nos governos dos locais líderes corruptos e violentos. Pouco importa que os estados em questão se tornem ditaduras cruéis, muito longe de qualquer coisa que possamos chamar de democracia: o que importa é que os  governantes desses países andem na linha. Também está longe de ser democrática a atuação dos EUA nas Organização das Nações Unidas, já que o poder de veto que o país possuí não apenas trabalha, integralmente, em seu favor, mas também bloqueia soluções diplomáticas para conflitos que são levados adiante por questões de interesse político e econômico.

Além destas questões, Chomsky afirma que a “guerra de agressão” ao Iraque se deu pela mudança de postura de Saddam Hussein em relação aos Estados Unidos. Anos antes, ainda que fosse um ditador homicida, Hussein era apoiado pela potência ocidental, até que seu comportamento passou a incomodar. Iniciaram-se sansões econômicas que arruinaram a economia do país, mas foi a partir da propaganda pós 11/9, que fez com que pelo menos metade da população dos EUA acreditasse que o Iraque e Saddam Hussein teriam relação direta com os ataques que a invasão, de fato, começou, visando a abertura do país para o capital estrangeiro e o controle do petróleo. Não se trata apenas de ter as reservas de petróleo, mas também controlar a distribuição dele para o resto do mundo a partir de sua produção do Oriente Médio. Não basta possuir os recursos; controlar sua distribuição afeta as demais economias dependentes deles.

Chomsky, como é tradição, responde a questões determinantes sobre o que se pode fazer para bater de frente com esse panorama, aparentemente imutável. O autor vê a mobilização popular constante, não apenas protestos pontuais, como a solução para tais questões, algo que o autor já afirma há muito tempo. Não se trata de uma solução a curto ou mesmo médio prazo – tais soluções não existem nesse caso. Trata-se de uma mudança gradativa que se apresenta como tarefa árdua, mas é possível.

Ambições imperiais é altamente recomendável. Sua leitura é fácil e instigante, e apresenta os argumentos e eventos de forma muito clara, objetiva. Para quem se interessa pela conjuntura internacional de início do século, envolvendo os Estados Unidos e sua violência mascarada de “democracia”, além do histórico de tais questões, o livro é indispensável.

Preço médio: R$ 40,00

13 de janeiro de 2013

Noam Chomsky - O que o Tio Sam realmente quer


CHOMSKY, Noam. O que o Tio Sam realmente quer. Brasília. Editora Universidade de Brasília, 1999.

A obra aqui analisada, O que o Tio Sam realmente quer, não difere drasticamente de outras obras do autor, sejam seus textos ou entrevistas concedidas. Porém, ainda que seja um livro que dá seguimento a análises anteriores sobre política, economia e sociedade de eventos recentes da história mundial – principalmente no que concerne aos Estados Unidos –, é uma obra muito direta, disposta a analisar aspectos pontuais e cuja linha de raciocínio é muito coesa. Arriscaria dizer que este é um dos melhores livros para aqueles que não conhecem Chomsky e suas sagazes críticas políticas e sociais, principalmente aos Estados Unidos.

Logo de cara, Chomsky inicia seu texto explicitando os objetivos da política externa dos Estados Unidos, desenvolvida sobre a insegurança constante e argumentos descabidos sobre proteção do território, tomando a Segunda Guerra Mundial como divisor de águas por ser após o conflito que tais políticas se intensificaram com força, mais precisamente por conta da dita “Guerra Fria”. Um período onde cerca de 50% da riqueza mundial estava sob controle dos Estados Unidos, além dos dois lados do oceano, um controle sem precedentes na história mundial, segundo o autor.

Nesse mesmo contexto percebe-se a necessidade de se intensificar a pressão sobre a União Soviética a fim de minar o país e controlar a sucessão do governo soviético. Chomsky defende no decorrer de todo o livro que o principal objetivo dos Estados Unidos em derrubar os soviéticos, atacar regiões supostamente inexpressivas como o Laos, Vietnã do Sul, Nicarágua e outros não se dá apenas por localização estratégia ou recursos – por vezes nenhum desses elementos faz parte da equação. O grande objetivo por trás dessas ações é a supressão de exemplos: na maior parte desses locais, governos realmente democráticos – ao contrário do governo dos EUA – desenvolviam-se de forma vigorosa, sob aval popular e, por vezes, com caráter nacionalista, fechado à intervenção do capital externo. Tais exemplos, se bem sucedidos, poderiam influenciar outros países, ou mesmo camadas populares nos EUA, o que seria inadmissível.

Eis o motivo pelo qual Chomsky defende que os Estados Unidos, se não conseguiram atingir todos os objetivos com a Guerra do Vietnã, pelo menos saíram vitoriosos. O país foi destruído, milhares de camponeses foram mortos, os efeitos do Agente Laranja e outras armas químicas e biológicas são sentidos até hoje e, principalmente, a economia do país foi arrasada, fazendo com que um desenvolvimento adequado nos moldes anteriores a Guerra seja uma realidade pouco plausível, pelo menos nas próximas décadas.

O livro foi lançado na década de 1990, portanto, não inclui debates a respeito da postura dos Estados Unidos a partir dos atentados ao World Trade Center. Contudo, é muito claro para o leitor que as atitudes de perfil imperialista dos EUA estão longe de serem inéditas, e a forma como elas são desenvolvidas não mudou em sua essência: interferência direta na política de países onde há movimentação considerada subversiva (sentimos isso na pele com a ditadura militar, citada no livro como responsável  pelo estado de miséria em que o Brasil se encontrava ao fim do regime), invasão de inimigos indefesos, pressão para a abertura do país para o capital estrangeiro, morte de civis, crimes de guerra entre diversos outros abusos; estes, aliás, não são poupados neste livro, que cita com detalhes a violência de grupos paramilitares na América Latina, como os Contra e o Batalhão Atlacatl. Chomsky mostra também como ditadores brutais (Somoza, Saddam Hussein, Suharto) são apoiados na tomada do poder em seus países por parte dos EUA e cuja permanência é apoiada, desde que atendam aos interesses da grande potência bélica mundial.

Como de praxe, Chomsky apresenta suas ideias de como devemos lidar com esse tipo de situação; em outras palavras, o que fazer. Embora ele fale, principalmente, ao leitor dos Estados Unidos, seus exemplos são universais. O fato de tais ideias se repetirem em diferentes trabalhos mostra a obstinação do autor nesse sentido. Conforme seus livros são lançados percebemos que os tópicos com os quais Chomsky trabalha fazem parte de uma longa estrutura de política expansionista, seja no sentido de expansão territorial ou de influência. Como dito anteriormente, trata-se de um dos melhores livros para ser apresentado a Noam Chomsky.


Preço médio: R$ 18,00

LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR:
Ambições imperiais
Propaganda e consciência popular

4 de janeiro de 2013

Agnès Chauveau, Philippe Tétart: Questões para a história do presente


CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões para a história do presente. Bauru: EDUSC, 1999.

História imediata, história do presente, história contemporânea; independente da forma como encaramos a história de eventos muito recentes e como a classificamos, por muito tempo tal história se mostrou – e talvez possamos dizer que ainda se mostra – espinhosa e carregada de problemas. Academicamente, nos círculos historiográficos, há quem torça o nariz para o estudo do presente, classificando como trabalho de sociólogos, cientistas políticos, entre outros; os acontecimentos não teriam a maturação e o distanciamento necessários ao historiador para que pudesse fazer uma análise mais apurada, com acesso ao desenrolar dos eventos, com a melhor definição do papel dos eventos na conjuntura de média e longa duração e supostamente mais distante de influencias ideológicas do momento. Trabalhos como o conciso Questões para a história do presente adicionam reflexões indispensáveis a esta discussão, demonstrando que mesmo carregadas de problemas, a história do tempo presente deve ser encarada.
            
Lançado na primeira metade da década de 1990, o livro é um produto de sua época – ainda que tal afirmação seja óbvia –, e por se tratar de uma obra da historiografia francesa, está carregado de exemplos de trabalhos franceses, além de citar exemplos que são mais próximos a suas realidades, como a repetição da Guerra da Argélia como exemplo de história recente, contribuindo, principalmente, no papel da memória na história do presente (discutido mais profundamente no capítulo de Robert Frank, “Questões para as fontes do presente”). Além do mais, ele carrega a influência da queda do regime soviético e o fim da guerra fria em alguns de seus capítulos.

Após uma bem estruturada introdução dos organizadores do livro cujo título dá nome à obra, discutindo diversas questões sobre história do tempo presente – como a necessidade do distanciamento para com as fontes, ou mesmo o fato de a história do presente partir, em partes, de uma demanda social pós anos 1950 –, os capítulos se desvelam em diferentes temas, propostos por Chauveau e Tétard. O primeiro, escrito por Jean-Pierre Rioux discute a própria possibilidade de se fazer uma história do presente, diante da condensação das informações midiatizadas. O mesmo autor escreve um capítulo posterior, discutindo a relação da história com o jornalismo, e mostra-se muito crítico aos historiadores e acadêmicos que rejeitam a história do tempo presente, sob argumentos já citados aqui.

René Remónd permanece no campo do político, o qual lhe rendeu alguns de seus mais conceituados trabalhos, dissertando sobre a suposta volta da história política. Um conceito de “volta” que não deixa de ser problemático, por dar a entender o retorno de concepções historiográficas ultrapassadas, como se nada houvesse sido alterado nesse retorno. Rémond admite, não sem razão, que o político também pode ser um objeto de conhecimento científico, além de explicação de outros fatores além de si mesmo. Vale dizer que, corretamente, Rémond encaixa o político numa história de longa duração; compreendê-lo apenas por contingências é uma tarefa não apenas muito difícil, como também metodologicamente errônea.
      
Já Jean-Jacques Becker dedica seu capítulo a discutir o marxismo e o comunismo na história do presente; ou pelo menos essa seria a proposta. Becker traça um histórico sobre as dificuldades dos estudos sobre o comunismo (lembremos o contexto em que o livro foi escrito) e relega o marxismo a dois parágrafos ao fim do capítulo; apesar disso, faz uma sagaz observação ao afirmar que as análises de Marx, embora ainda relevantes para aspectos específicos da história do século XIX e XX, são comumente

simplificadas, adotadas de modo mecânico e em muitos casos inconsciente, além de terem um papel de “esterilização do trabalho histórico, pretendendo submeter toda a análise das sociedades humanas praticamente a um único tipo de explicação e negando, ou melhor, rejeitando o pano de fundo das explicações da evolução das sociedades e do comportamento dos homens que são, por exemplo, o espiritual, a ideia nacional...[1]

Jean-François Sirinelli dedica seu capítulo a uma reflexão importante e cuja atualidade não esmorece: a influência da ideologia nos trabalhos historiográficos, e como este problema pode ter maior peso em trabalhos de história recente, onde por vezes a ideologia na qual um historiador – ou qualquer outro estudioso – podem estar inserido, conscientemente ou não, não é identificada; ou seja, ao contrário de trabalhos sobre uma história mais distante, onde as ideologias presentes no contexto são mais facilmente identificadas e distanciáveis. Na sequência, Jacques Le Goff posiciona-se como um medievalista diante do presente, e aproveita o espaço para reforçar a importância de se relacionar o passado distante do presente – adotando, para o capítulo, a cronologia “oficial” de Idade Média, apesar de citar seu conhecido conceito de Idade Média permanente até o século XIX no plano material.

Voltamos ao já citado Robert Frank, responsável pela discussão sobre as fontes do tempo presente, discutindo metodologicamente as vantagens e desvantagens do uso de fontes orais, escritas e a relação da memória com a história. Embora tais discussões sejam encontradas em diversas obras de forma mais aprofundada, Frank consegue condensar as ideias principais e levantar, também, os principais problemas em cada caso, além das obrigações do historiador diante de tais dificuldades. Ao fim, o também citado capítulo de Jean-Pierre Rioux sobre a relação da história e do jornalismo e a conclusão, por parte de Serge Bernstein e Pierre Milza; esta condensa as ideias do livro em poucas colocações, retomando a influência de Braudel que permeia todos os capítulos a respeito da necessidade do historiador situar os fatos e as contingências na média e longa duração para que se possa compreender mais satisfatoriamente os motivos, sentidos, relevância e, talvez, consequências desses acontecimentos contemporâneos pontuais.

Como característica negativa, a edição/impressão analisada contém um número excessivo de erros de digitação, que demonstra um aparente desleixo com o trabalho de revisão; de qualquer modo, é algo que pode ter sido corrigido em impressões mais recentes e não compromete em nada o entendimento da obra.
           
Trata-se de um trabalho muito conciso e em alguns momentos pode parecer mesmo datado, mas é impossível negar sua qualidade. Considero este livro uma leitura obrigatória para qualquer historiador da história recente, ou mesmo imediata, pois mesmo que outras obras abordem, em separado, os temas deste livro com mais aprofundamento, Questões para a história do tempo presente as condensam de forma clara, objetiva e prática.

Preço médio: R$ 20,00



[1] BECKER, Jean-Jacques. “Marxismo e comunismo na história recente”. In: CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões para a história do tempo presente. Bauru: EDUSC, 1999, p. 72.

3 de setembro de 2012

Bernard Lewis - Os assassinos


LEWIS, Bernard. Os assassinos: os primórdios do terrorismo no islã. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 

A “Seita dos assassinos” é um tema que atrai a curiosidade de alguns historiadores e mesmo entusiastas, tendo ainda mais apelo na cultura pop após o lançamento do jogo eletrônico Assassin’s Creed, da empresa de origem francesa Ubisoft. Nele, o jogador controla o personagem Altaïr ibn-La'Ahad
, pertencente a ordem dos assassinos. O jogo em questão fez grande sucesso e abriu um precedente para o interesse por parte de algumas pessoas no que teria dado origem ao jogo, no que tange a seu fundo de cunho histórico. Talvez a melhor obra de iniciação ao tema seja o livro em questão, escrito por Bernard Lewis, que no Brasil leva o subtítulo de “os primórdios do terrorismo no islã”. 

Após resumir a história da seita dos assassinos, dissertando acerca dos melhores trabalhos a respeito do tema com o passar dos séculos, Lewis se preocupa em situar o leitor na complexa história do Islamismo posterior à morte de Maomé, de forma sucinta, mas suficiente. Para a compreensão do todo, algo que é vital para o entendimento da seita é a separação entre os xiitas e os sunitas, sendo o primeiro grupo formado inicialmente pelos descontentes com a sucessão de Maomé por Abu Bacr, um conhecido converso, defendendo a sucessão por parte de Ali, sobrinho e genro do profeta. Este ascendeu ao poder em  656, mas foi assassinado em 661. Após isto, o grupo dos Xi’a começou a adquirir um caráter cada vez mais messiânico, permitindo que, cada vez mais, política e religião se mesclassem, em uma região onde essa associação tinha lugar comum.

Nesse contexto, a figura do imame – uma espécie de líder espiritual com poderes de cura, portador da verdade e outras características pretensamente divinas – tinha uma importância elevada, e as intensas divergências acerca de direitos de sucessão fizeram com que um grupo de descontentes, seguidores de um possível imame chamado Isma’il fosse o grupo responsável pelo surgimento da seita dos assassinos, conhecidos então, por suas crenças, como ismaelitas. 

Isso explica claramente o motivo de a seita dos assassinos – surgida na Pérsia com ramificações na Síria, por vezes mais conhecidas do que as da Pérsia – ter se ocupado quase que integralmente ao assassínio de outros muçulmanos, principalmente os sunitas. Lendas sobre a seita abundaram, inclusive na Europa, por terem os assassinos tido prováveis ligações com europeus, e até mesmo matando em favor dos estrangeiros.

Como seita e grupo, a principal diferença dos ismaelitas para outras seitas e grupos foi o fato de ela ter sido a primeira a ter uma organização eficiente e duradoura. Segundo praticamente todas as fontes sobre o assunto, os assassinos eram servos fiéis de seu senhor, infiltrando-se no território inimigo, fazendo papel de servo deste até que uma hora propícia se revelasse. Não havia envenenamento, uso de armas de arremesso ou algo do tipo; simplesmente sua adaga bastava. Era recorrente o discurso de que para o assassino era glorioso ser morto, ou mesmo se matar, após cometer o crime. 

A própria palavra “assassino” possui uma origem controversa; sua origem gera desacordos, a despeito de ser comumente associada ao nome original do haxixe – supostamente empregado pelo líder e fundador da seita, Hasã-I Sabá, para em conjunto com jardins, mulheres e demais prazeres, dar uma amostra do paraíso que aguardaria àqueles que morrem pela causa. 

Lewis discorre sobre o sucesso da seita na Pérsia, principalmente a partir do quase impenetrável castelo de Alamut, onde Hasã-I Sabá residia, e onde seus sucessores, em geral, viveram, apesar dos demais castelos nas montanhas que pertenciam à ordem. Depois, parte para os assassinos que migraram para a Síria, afirmando não serem muitas as fontes sobre estes, exceto alguns registros de assassinatos cometidos por estes. Percebe-se que na Síria, território mais hostil e de difícil penetração cultural e religiosa – já que o ismaelismo era, apesar de tudo, uma seita estrangeira – sua inserção foi muito mais difícil, e sua eliminação mais eficaz. A despeito do medo que causavam aos seus adversários e da eficácia com que fizeram valer sua vontade em muitos períodos, os assassinos foram derrubados; pequenas sublevações posteriores faziam eco à seita, mas sem que houvesse uma ligação realmente concisa. 

Desde modo, ainda que possa fazer algum sentido num primeiro momento, a assertiva de que os assassinos foram predecessores dos terroristas modernos é precipitada e soa anacrônica. Bernard Lewis tem um histórico de obras que tratam o Oriente Médio como uma região atrasada, em crise e que, como afirma um dos títulos de sua autoria, deu errado. O subtítulo original a radical sect in islam (uma seita radical no islã), no entanto, soa menos generalista e menos anacrônico do que outros que o livro recebeu pelo mundo – incluindo o subtítulo brasileiro. 

Apesar deste detalhe, o livro merece todos os méritos, por ser uma obra concisa, mas certamente muito relevante. A pouca familiaridade do público brasileiro com nomes de origem árabe e semelhantes pode causar confusão quanto à citação tanto de líderes da seita como outros governantes e personagens de todas essas tramas de poder e resistência, mas nada que um pouco de atenção não possa contornar. Livro obrigatório para todo o iniciante neste tema.

Preço médio: R$ 44,90



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24 de agosto de 2012

Noam Chomsky - Propaganda e consciência popular


CHOMSKY, Noam. Propaganda e consciência popular. Bauru: EDUSC, 2003.

Noam Chomsky. A simples menção de seu nome seria suficiente para tirar qualquer conservador estadunidense bem informado do sério, por conta de seu ativismo político e as críticas extremamente contundentes à política de seu país, seja interna ou externa. Sendo um dos maiores intelectuais da atualidade, professor do Massachussets Institute of Technology, sua presença em palestras e requerimentos de entrevistas por parte de outras pessoas são diversos. Algumas entrevistas feitas durante sua carreira já foram compiladas em obras de grande valia sobre os efeitos da propaganda e sua utilidade por parte do governo ou mesmo de interesses particulares de empresas e corporações. O livro em questão, Propaganda e consciência popular, faz parte dessa coleção de entrevistas compiladas; neste caso, por David Barsamian.

A miríade de assuntos abordados nas sete entrevistas contidas neste livro é vasta o bastante para que alguma resenha abarque todos eles sem se tornar desnecessariamente extensa. Contudo, a maior parte das entrevistas – e, consequentemente, do livro – trata de temas que circundam o título. Chomsky critica duramente a propaganda, seja ela oficial ou mesmo por parte de uma mídia pouco informada, ou pouco interessada em informar. Além do mais, em diversos pontos, Chomsky aponta desigualdades no sistema, incoerência de programas governamentais, intervencionismo estadunidense em outras partes do mundo, a necessidade do apoio popular para a manutenção de uma guerra (e mesmo a entrada de um país nela), entre outros.

No capítulo 1, “A vitória dos ativistas”, o cerne da discussão está na opinião de Chomsky sobre o fato de que as pessoas deveriam buscar fazer as perguntas óbvias – ou seja, buscar sua “criança interior”. Sendo a criança naturalmente curiosa e desejosa de saber e buscar suas próprias conclusões, tal atitude contestadora deveria se manter com o passar do tempo, mas as pessoas seriam condicionadas a ouvir mais e participar menos; o público mantendo a postura de espectador, e não participante, por esta postura ser adequada a “homens responsáveis”.

No capítulo 2, “Estados Unidos para o resto do mundo: saiam do caminho”, Chomsky e Barsamian discutem o intervencionismo estadunidense agressivo e como o país ignora quaisquer tratados, conclusões da ONU e afins para atingir seus interesses. Discute o terrorismo dos EUA em outros países, mascarado de contraterrorismo preventivo (a entrevista é de 1º de fevereiro de 1998, anos antes dos atentados ao World Trade Center) e de como o país não é internacionalmente acusado por tais crimes, tampouco sofre quaisquer sansões, por conta de seu poderio bélico. Mais do que os atos em si, incomoda ao autor a postura acintosa dos EUA em rejeitar quaisquer impedimentos a suas ações militares. Já no capítulo “Por razões de estado”, a crítica é muito mais abrangente, passando desde o já citado intervencionismo até questões como a privatização, a ausência de acesso à saúde pública gratuita, o uso da tortura em Israel contra muçulmanos, entre outros tópicos polêmicos.

Nos capítulos 4 e 5, questões diferentes são abordadas, novamente permeando o título da obra. No capítulo 4, “Timor Leste à beira do abismo”, Chomsky discute, principalmente, o violento regime ditatorial de Suharto na Indonésia, focando na violência com a qual seu governo tratou a questão do separatismo da região do Timor Leste, sempre com o conhecimento e apoio dos Estados Unidos. No quinto capítulo, é discutido o encontro da Organização Mundial do Comércio, sendo esta entrevista feira em 23 de fevereiro de 2000. A discussão se deu, principalmente, por conta da presença massiva de muitos ativistas no evento em questão, aproveitando o mote para se discutir a consciência popular e o ativismo.

O capítulo 6 é o mais extenso e mais amplo, chamado “Libertando a mente das ortodoxias”. A extensão do capítulo e a quantidade de temas discutidos é vasta para resumir, mas basicamente, fala sobre a falsa propaganda de guerra, como por exemplo, as “intervenções humanitárias”, que nunca são o que dizem ser, e a resistência diante de eufemismos que objetivam mascarar ou diminuir o impacto do que, de fato, ocorre. O último capítulo chama-se “Solidariedade”, e discute o sistema educacional atual como um meio de se desenvolver um senso de competitividade, onde um deve superar o outro, ao invés de desenvolver um senso de bem comum, onde objetivos em comum devem ser atingidos por todos de forma cooperativa.

Embora a troca de assuntos seja, por vezes, brusca e possa confundir, o livro é uma leitura certamente muito importante quanto a conhecer a forma como a propaganda, principalmente a serviço dos governos e grandes corporações, pode ser muito nociva, além de discorrer muitas vezes sobre o intervencionismo, principalmente dos Estados Unidos ou apoiado por ele, por conta de seus interesses. É uma leitura simples e que não requer um grande conhecimento teórico prévio, já que as questões são tratadas de forma muito clara, podendo ser compreendidas, em sua maior parte, por praticamente qualquer tipo de leitor. Altamente recomendado.

Preço médio: R$ 57,80

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Ambições imperiais

21 de agosto de 2012

Erasmo de Rotterdam - Elogio da loucura


Esta resenha foi escrita por Gustavo Henrique de Siqueira

ERASMO, Desidério. Elogio da Loucura. Porto Alegre: Ed. L&PM. Tradução de Paulo Neves, 2005.
                                                  
            O contexto que compreende a transição da Idade Média para a Moderna trouxe consigo uma série de movimentos que influenciaram e reforçaram a tendência que levaria mentes como a de Lutero a pensar a Reforma – como fora acusado Erasmo, nosso personagem em questão, pela Igreja Católica no ano de 1542, seis anos após a sua morte – além de abrir caminho em meio à soberania cristã já enfraquecida em relação à anterior “Idade das Trevas”, para o pensamento humanista, que, em linhas gerais, consiste em valorizar o antro ao invés do teocentrismo, como fez o amigo pessoal do autor deste presente Elogio, Thomas Morus.

            Como sugere o título, a obra trata de um auto-elogio onde Erasmo assume a voz da loucura e passa a desconstruir a sociedade para explicar os mecanismos onde o excesso ou a folie(1) se faz presente e como esse sentimento está vinculado em qualquer ocasião do cotidiano.

            Desidério Erasmo ou Erasmo de Rotterdan é filho bastardo de um padre com a filha de um médico. Formado teólogo, mostrou-se com uma clara “rebeldia” logo após abandonar a formação clerical e adotar a razão e, como já foi dito, o humanismo como guia em seus escritos. Sua ligação à Igreja serviu para conduzir suas críticas de forma a acusar as contradições que os costumes e procedimentos católicos levavam consigo através de seus dogmas.

            Em meio aos grandes empreendimentos marítimos que o Velho Mundo empregava, sobretudo na África, e na data da composição dessa obra (1508) em que os europeus já sentiam o gosto do descobrimento sob uma luz do conhecimento de rotas pelo Atlântico, o autor discorre sobre uma classe que não prova do acesso aos estudos e vive na “loucura” – tratada neste Elogio como a própria “felicidade” – como neste exemplo citado do poeta Sófocles: “A vida mais agradável é a que transcorre sem nenhuma espécie de sabedoria” (ERASMO, 1508: Pg. 20), dando margem à sua crítica ao estoicismo, a teologia escolástica e seus doutores. Aqui se trata de uma formulação sobre a realidade contraditória que Erasmo expõe com a intenção de marginalizar a pequena classe de sábios presentes na sociedade renascentista. Essa classificação é afirmada pela pequena parcela que em nome da fé e da Igreja, estipula os preceitos filosóficos do “certo” e do “errado”, herdados do imaginário medieval. Não quer dizer, necessariamente, que o notório escritor holandês quis pintar uma “sociedade feliz” sob a voz da Loucura para mostrar como a ignorância é pura e simplesmente benquista no aspecto do pensamento popular. Pelo contrário, o impacto que a “falta de sabedoria” causa na sociedade é bem tratado pelo autor na sua reflexão sobre as desordens entre as pessoas, o desdém pela realidade, a extrema valorização pessoal de suas atividades e como essa crença se move no sentido da ilusão.

            Pode-se destacar, também, a forma como Erasmo decifra a organização social. Trazendo aqui mais uma vez à tona o título (folie), o autor aponta na estrutura funcionalista desta sociedade onde as garras da loucura traçam o seu império, de que maneira se estabelece o padrão, e como este dita o seu ritmo. A incompreensão cultural é um exemplo do que Erasmo aponta como deficiente na sociedade: “pois, quanto mais uma coisa é contrária ao bom senso, mais ela atrai admiradores” (ERASMO, 1508: Pg. 67). Aqui neste caso, ele se refere aos autores das belas-artes, que precisam da aceitação pública de suas obras pra conseguir sobreviver e o autor faz uma considerável menção a essa “banalização” da cultura, sugerindo o preceito de que invocar o talento artístico é exigir demais da compreensão popular.

            O grande ponto da obra revela-se na segunda metade do Elogio. Erasmo assume sua crítica direcionada aos grandes poderes vigentes na sociedade renascentista, tais como o papado, os bispos, o principado e os monges. Destaque para o eruditismo eclesiástico do autor que busca na Bíblia os fundamentos e passagens que lhe convém para sua descrição crítica. Mas não se trata aqui de uma crítica desenfreada. Erasmo tem a minúcia de respeitar os preceitos divinos, atingindo somente seus atores religiosos. Como no exemplo em que fala na obra sobre uma suposta prestação de contas dos monges para Jesus:

“Mas Jesus Cristo [...] dirá: ‘Que nova espécie de judeus é essa? [...] Não foi a hábitos, orações, abstinências, dietas contínuas que prometi outrora o reino de meu Pai, mas ao exercício de todos os deveres da caridade [...]. Não reconheço essa gente que se gaba de suas boas obras e quer parecer mais santa que eu. Que vão procurar outro paraíso diferente do meu, que o peçam àqueles cujas vãs tradições preferiram seguir em vez de minha lei!’ Quando ouvirem essa sentença e virem que são preteridos por marujos e carroceiros, com que cara imaginais que se olharão uns aos outros? Mas até lá eles continuam gozando da felicidade proporcionada pelas doces esperanças que lhes inspiro” (ERASMO, 1508: Pg. 95,96).

Aqui se nota como a religião está no seu devido patamar e o que é barrado na tolerância do autor é o clero, acusado de reinventar os conceitos da santidade e ser propício ao mal da corrupção. Além disso, os contrapontos observados pelo humanista holandês se estendem não só às pessoas devotas, mas também às mundanas que têm seus princípios fincados no corpo e no materialismo, acusando os fiéis de loucos. Estes, mais preocupados na elevação da alma, por sua vez, associam o mundano à demência. Ou seja, baseado nos pequenos fatos corriqueiros da rotina, Erasmo fundou sua crítica partindo de uma idéia central e incomum para sua época, que é o elogio da loucura.

            O que o dono da pena produz é mais do que jogar com esse assunto novo ou simplesmente brindar o leitor com a exaltação da loucura. O ponto crucial nesta obra imortalizada é como o autor classifica o sistema social, fator determinante para que se decifre um mundo em transformação com a decadência do feudo e a ascensão da burguesia. Falando em atualidade, está presente entre nós este “testemunho” direto de um pensador no florescer da renascença, deixando para nós e para futuras gerações de historiadores e filósofos um recurso indispensável para a compreensão do Mundo Moderno.

Preço médio: R$ 13,00


1    Do título francês Éloge de la folie. Folie = Folia.

3 de agosto de 2012

Leandro Karnal (et al) - História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI


KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2010.

Sendo uma nação causadora de admiração, mas ao mesmo tempo repulsa, pelo resto do mundo, os Estados Unidos possuem uma história intrigante, mitificada e, porque não dizer, intervencionista. É impossível – principalmente por conta deste intervencionismo – discordar da epígrafe da conclusão do presente livro, que afirma: “Para o bem e para o mal, o destino do planeta está associado aos Estados Unidos da América.”

Por conta de seus anseios imperialistas muito claros para qualquer um que se preste a estudar minimamente sua história, os Estados Unidos merecem uma análise particularmente apurada; não é difícil encontrarmos centenas, senão milhares de críticos ao país em questão, ao seu povo ou seu modo de vida – modos, se quisermos ser mais apurados. Contudo, quando se trata de compreender as origens de como funcionam as engrenagens que movem os Estados Unidos, não são muitos os que demonstram algum conhecimento histórico, político, sociológico ou antropológico realmente satisfatório, avesso ao senso comum; tanto os veículos midiáticos que adulam o país quanto os que o criticam ferozmente por vezes procuram menos permitir a compreensão do que doutrinar politicamente. Por conta disso, ressalto que, quanto ao conhecimento da história dos Estados Unidos – ao menos para o público brasileiro – o livro História dos Estados Unidos é um interessante apanhado geral.

O livro é dividido em três partes principais, escritas por diferentes autores. Temos a introdução e a parte um, A formação da nação sob responsabilidade de Leandro Karnal, professor da UNICAMP; a parte dois, Os EUA no século XIX por Luis Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais, até então mestres em história; por fim, o canadense Sean Purdy, professor da USP escreve a última parte, O século americano.

O início, destinado à colonização inglesa no litoral leste da América do Norte, faz um interessante trabalho não apenas no que tange a informar, mas também em problematizar algumas questões. Ganha destaque a problematização de um senso-comum ainda existente de que o sucesso dos Estados Unidos, em contraste com o suposto “fracasso brasileiro” se daria pelas diferentes formas de colonização, pois nos EUA, ela teria sido de povoamento e no Brasil, de exploração. Leando Karnal demonstra facilmente o quanto esta ideia não tem fundamentos sólidos para se manter de pé. Ademais, o autor faz um bom trabalho, inclusive discutindo questões contemporâneas sobre a visão que outros povos têm dos Estados Unidos e vice-versa, mas a meu ver, em alguns momentos demonstrou estar em sintonia com trabalhos mais tradicionais e, infelizmente, ainda contaminados por muitos dos mitos de elevação nacional do século XIX sobre a revolução.

Um outro ponto a ser levado em consideração é a discussão sobre a nacionalidade: é pontuado que o termo “estadunidense” possui uma conotação nacionalista por parte dos países que não se sentem contemplados quando os EUA se classificam como “Americanos”. Um sentimento justo, que por si só já é suficiente para tornar questionável a adoção do termo “americano”. Não se trata apenas de uma barreira linguística – pela enorme dificuldade de se encontrar um termo equivalente a estadunidense na língua inglesa –, mas também cultural, e nesse sentido já muito solidificada tanto nos EUA como para boa parte da população mundial, bombardeada pela indústria do entretenimento estadunidense.

As duas partes posteriores, no entanto, adotam posturas mais críticas, principalmente a última parte. Nela, o intervencionismo estadunidense constante no século XX em várias partes do mundo, os males da propaganda mentirosa, a participação dos EUA na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã, entre outras coisas, são levantados durante todo o tempo e mostram-se a melhor parte do livro, ainda que bastante resumida.

Ademais, vale dizer que o livro é ricamente ilustrado (nem todas as imagens em qualidade razoável, mas nada que comprometa o conteúdo) e sua leitura é muito tranquila, sem causar grande desgaste ou dificuldade de compreensão pela inserção de termos mais complicados. É uma leitura extremamente acessível.

Para qualquer um que se interesse em se aprofundar na história dos Estados Unidos – tema recomendado e que se mantém relevante, principalmente no que tange à política externa –, este livro é um ótimo começo, principalmente se for complementado por obras que foquem em aspectos mais específicos (algumas, inclusive, já resenhadas neste blog).

Preço médio: R$ 39,90

26 de março de 2012

Claude Fohlen - O Faroeste


FOHLEN, Claude. O faroeste. São Paulo: Companhia das Letras; Círculo do Livro, 1989.

            Tendo sido um tema largamente explorado pela literatura, cinema e mesmo música, o Far West, ou faroeste – como é chamado no Brasil – é um vasto território que nem sempre fora o mesmo em extensão. Uma no man’s land que, apesar de seus mistérios, era também repleta de promessas, onde milhares de colonos tentaram a sorte, principalmente a partir da segunda metade do século XIX. Muito do que se sabe – tendo embasamento verídico ou não – chega às mãos da maioria do grande público principalmente através das representações do cinema, desde os clássicos de John Wayne aos icônicos Spagethi Westerns de Sergio Leone e outros, mas muito do conhecimento sobre o período permanece obscuro para esse mesmo público, que recebe nestas produções cinematográficas dezenas de estereótipos fetichistas, desde jogadores e prostitutas a cowboys destemidos portando suas Peacemakers (Colt .45) e fazendo justiça a seu modo. Para o preenchimento de várias destas lacunas, a presente obra, O faroeste, é uma obra de extrema competência.
            Claude Fohlen, então professor de história dos Estados Unidos na Sorbonne na época em que este livro foi lançado (1974, no original), trouxe em uma obra propositalmente generalista, uma compilação de assuntos pertinentes à expansão dos Estados Unidos rumo ao Oeste. O período conhecido como Faroeste possui um recorte geográfico e temporal bem específico, segundo o autor: tem como fronteira com o leste o vale do Mississipi, e tem como recorte temporal os trinta anos entre 1860 e 1890, por vezes transitando antes e depois desse período.
            A obra, parte da coleção A vida cotidiana, tem uma divisão muito clara de temas no decorrer de seus capítulos; assume-se como uma obra introdutória à vastidão de temas cujo aprofundamento é pouco neste caso. Apesar disso, sua fácil leitura e didatismo dão a impressão de que a obra é muito mais completa do que o próprio autor a julga.
            De início, Fohlen discute seu recorte geográfico. Planícies áridas, ventos bravios e vegetação escassa marcam boa parte deste território, onde as variações de temperatura são consideráveis e acidentes imprevisíveis, como nuvens de gafanhotos e tempestades de areia devastam tudo o que encontram pelo caminho. Tais condições, associadas à dificuldade de se chegar a tais territórios – suprimida a partir das construções das grandes ferrovias – fez dessa vasta região um local de baixa densidade demográfica, a despeito das inúmeras propagandas no leste sobre as possibilidades que o oeste oferecia; este considerado uma espécie de Eldorado, teve o seu povoamento não apenas batalhado por agentes imobiliários, mas também facilitado pelo governo. Como resultado, um sem-número de imigrantes foi despejado no Velho Oeste, ávido por povoamento, através das estradas de ferro.
            Conforme dito anteriormente, os temas no livro são bem divididos. Ao fim da introdução, Fohlen começa debatendo o trajeto até o Oeste e o trânsito na região, tanto através de diligências quanto a partir da criação das principais estradas de ferro, como a Union Pacific, Southern Pacific, Northern Pacific, entre outras. Na sequência, o autor parte para análises mais focadas no cotidiano, dedicando os capítulos seguintes aos mineiros, colonos, cowboys e índios, propondo-se a desmistificar muito da imagem consolidada destes indivíduos pelo cinema e outras vias de entretenimento.
            A violência nas cidades – e mesmo a concepção destas cidades – também são abordadas. Claude Fohlen defende a tese de que o Oeste era, de fato, um lugar onde a violência tinha lugar, e onde as disputas entre Desperados e Vigilantes era constante. Linchamentos e enforcamentos eram – no quanto for possível afirmar – corriqueiros e, na mentalidade dos colonos, mesmo necessários. Uma forma de justiça palpável e ao alcance, alívio em um mundo de incertezas onde qualquer indivíduo poderia carregar um revólver no coldre. A vida e a morte, trabalhadas no capítulo VII, fazem um paralelo com tais temas. Fohlen adentra no campo do privado, discutindo a habitação, a alimentação e a saúde, já que pouco se sabe de concreto a respeito. A fé, as crenças destes indivíduos, o ensino, o lazer, muitas são as questões do cotidiano que o autor traz a tona, e a despeito do caráter generalista que a obra possui, o trabalho é muito bem executado.
            Independente de abordar aspectos gerais do Far West, sem, no entanto, se aprofundar nos meandros de nenhum deles pela proposta da obra, o livro é altamente recomendado a qualquer entusiasta do período, não apenas a historiadores. Pessoalmente, não é de meu conhecimento uma vasta bibliografia sobre o período traduzida para o português; logo, este livro é possivelmente a melhor porta de entrada ao tema para o leitor de língua portuguesa. Os livros da coleção “A vida cotidiana” estão há muito esgotados no Brasil, mas ainda é possível encontrá-los em sebos. A reedição de tais obras seria de suma importância para o contato dos historiadores brasileiros com temas diversos, tendo como escopo questões relativas ao cotidiano de diversos períodos e recortes geográficos.
            Para todos que possuem interesse no “faroeste” ou se interessem pela história dos Estados Unidos, este livro é leitura obrigatória.


Preço médio: Esgotado (recomendamos uma busca no site Estante Virtual)

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23 de março de 2012

Piedade sangrenta: a legitimação da tortura na caça às bruxas na Europa

Enquanto tento achar algum tempo para resenhar um livro lido há alguns meses, trago a vocês meu artigo publicado na revista Alétheia, focada em estudos da Antiguidade e Idade Média. O tema do artigo, como o título explicita, é relativo ao uso de tortura nos processos de bruxaria durante o auge da dita "Caça às bruxas". Quais os principais argumentos que permitiam que a tortura fosse socialmente aceita (e por que não dizer desejada) em âmbito geral? Tentei responder a essa questão com este artigo, que foca menos nas execuções e mais nos suplícios antes da morte.

A edição da revista pode ser conferida AQUI. O artigo em questão consta na página 177.