18 de janeiro de 2013

René Rémond - O século XX


RÉMOND, René. O século XX: de 1914 aos nossos dias. 12ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

Sendo a última parte da coleção Introdução à história de nosso tempo, O século XX é exatamente que se propõe a ser. Uma introdução à história do século XX, ou ao menos parte dele; assim como Hobsbawn e tantos outros, Rémond sugere aceitar a ideia de que o século XX se inicia, efetivamente, com a Primeira Guerra Mundial, primeiro capítulo desta obra. O livro em questão foi lançado em 1974, em meio à Guerra Fria (apesar do seu período de maior tensão já ter passado), perto do fim da Guerra do Vietnã (mal é citada) e, por compreender um período de cerca de sessenta anos, acaba dando muito destaque aos dois conflitos mundiais.

René Rémond é mais conhecido por seus trabalhos sobre história política, e tal preferência é explícita neste trabalho. Sua principal característica, explícita em todos os capítulos, é o fato de Rémond optar por trabalhar sobre causas e consequências dos eventos que se dispõe a relatar. Os complexos meandros que precedem as duas grandes guerras são mais dissertados dos que os próprios conflitos – o capítulo dedicado à Segunda Guerra tem apenas cinco páginas – e suas consequências idem.

Os capítulos que fogem um pouco – ainda que não totalmente – das duas guerras (considerando que capítulos como “A  crise nas democracias liberais” estão totalmente ligados a elas – são dedicados ao comunismo na União Soviética e a questões relativas a outros recortes geográficos, abarcando períodos anteriores e posteriores aos dois conflitos. Temos um capítulo dedicado ao mundo comunista, à descolonização (focando na África), o despertar da Ásia (leia-se Japão, China e Índia), o despertar do mundo Árabe e a ascensão econômica da Europa nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial; tal recuperação deveu-se ao fato de sua economia estar totalmente devastada no após-guerra e os Estados Unidos se tornarem a maior potência mundial, em conflito majoritariamente ideológico com a União Soviética, que para alguns países europeus era considerada uma ameaça, tanto militar quanto politicamente.

No mesmo capítulo, Rémond se justifica sobre ter optado por, no decorrer do livro, relatar os eventos escolhidos do século XX pautando-se pela história da Europa, ou da intervenção européia em outros países. O autor afirma que não julga ser a história européia a única que merece ser estudada ou que os demais povos não têm história – um paradigma há muito ultrapassado por qualquer historiador minimamente sério. Sua opção dá-se, segundo Rémond, porque da Europa partiram as tentativas de unificação do mundo, exploradores, descobridores e foi a grande exportadora de ideias e homens. Ignoremos aqui o fato de Rémond ser filho da historiografia francesa. Uma postura assumidamente eurocêntrica, ainda que não comprometa a validade da obra.

A conclusão do livro se dedica a pensar em fatores que poderiam ser motivo de união ou fragmentação do mundo, inferindo esperanças de maior união, não apenas politicamente, mas linguística e culturalmente, mas ao mesmo tempo apresentando obstáculos habituais.

A obra de Rémond é uma introdução excelente para diversos dos temas que trata, mas ao mesmo tempo, corre risco de ser interpretada como determinista. O apego que o autor tem pelo eixo “causas e consequências” é extremo, e ele segue uma análise cronológica de eventos que, confluídos, contribuíram para o panorama que culminou nos eventos aventados – as grandes guerras, revolução russa, revoluções no Oriente Médio, etc.

Ainda assim, mais do que compreender eventos cujo panorama político foi determinante, compreendemos a importância das diferentes ideologias na formação do mundo contemporâneo. Além disso, é possível compreender como os conflitos do século XX e a ampliação do acesso à informação fizeram com que os povos desenvolvessem consciência sobre o pertencimento a um mundo complexo, porém, bem delimitado, não aquele mundo abstratamente gigantesco e desconhecido de outrora; dessa forma, as distâncias oriundas do desconhecimento do outro, aos poucos, se dissipam, embora por vezes elas ressurjam.

Uma excelente leitura introdutória para compreender não apenas os cerca de sessenta anos que o livro trata, mas também para compreender elementos posteriores. Contudo, outras leituras mais abrangentes que aprofundem as questões do livro, e mesmo de recortes geográficos que o livro deixa em segundo plano ou ignora, são necessárias.

Preço médio: R$ 20,00

LEIA TAMBÉM, COM CAPÍTULO DO MESMO AUTOR:
Questões sobre a história do presente

15 de janeiro de 2013

Noam Chomsky - Ambições imperiais


CHOMSKY, Noam. Ambições imperiais: o mundo pós 11/9. Rio de Janeiro. Ediouro, 2006.

Ambições imperiais, coletânea de entrevistas concedidas a David Barsamian, segue a mesma linha de outros livros de Chomsky baseado em entrevistas, onde as perguntas são não apenas pertinentes, mas determinantes para o rumo da conversa, sempre dialogando com as possibilidades que a memória do entrevistado apresenta. Chomsky mostra-se um verdadeiro prodígio da memória, recordando de detalhes sobre diversos eventos em diferentes épocas e lugares.

O livro em questão pode ser considerado, cronologicamente, uma sequência de Propaganda e consciência popular, sendo a primeira entrevista datada de 22 de março de 2003, e tem  como principal eixo algo que já estava em pauta no livro anterior: o intervencionismo dos Estados Unidos no resto do mundo e suas principais razões, o que explica o título da obra. O autor afirma que, antes do desenrolar das ações da política externa dos EUA após o 11/9, chamar a potência de império era algo de caráter pejorativo. Após os atentados e a invasão do Afeganistão e do Iraque, o comportamento imperialista dos EUA ficou explícito o bastante para que o termo não soasse como um simples ataque, mas se tornasse uma classificação adequada sobre o que ocorre desde então, ainda que já o fosse em contextos anteriores.

Chomsky aponta o clima de insegurança constante que a população dos Estados Unidos, o que justifica como a propaganda – muitas vezes apoiada em argumentos ridículos para qualquer pessoa instruída, crítica e atenta – é tão efetiva em fazer com que sua população passe a apoiar os ataques terroristas perpetrados pelo país. Estes, cobertos de eufemismo, são chamados de “ataques preventivos”, entre outros termos, por se tratarem de atitudes da grande potência bélica mundial. As mesmas atitudes tomadas pelos EUA, quando tomadas por outros países, são chamadas, no mínimo, de terrorismo.

O autor disserta sobre o fato de que sociedades democráticas são o campo fértil que a propaganda precisa, pois um governo autoritário com controle efetivo de seu pais precisa menos de propaganda (o que não quer dizer que não precise) do que um país democrático que precisa convencer sua população a validar suas intenções e atitudes. No capítulo “linguagem colateral”, este e outros assuntos são tratados, mediante um histórico da propaganda e da “engenharia social” nos Estados Unidos.

Vale citar que outros eventos, como a Guerra da Coréia, Vietnã e outros conflitos são contemplados pelo livro, e Chomsky faz questão de pontuar os motivos para cada uma, que nada têm a ver com a manutenção da democracia, mas sim, controle de territórios estratégicos e supressão de exemplos incômodos. Em diversos casos, ao invés da invasão, os EUA se resumem a apoiar golpes de estado, colocando nos governos dos locais líderes corruptos e violentos. Pouco importa que os estados em questão se tornem ditaduras cruéis, muito longe de qualquer coisa que possamos chamar de democracia: o que importa é que os  governantes desses países andem na linha. Também está longe de ser democrática a atuação dos EUA nas Organização das Nações Unidas, já que o poder de veto que o país possuí não apenas trabalha, integralmente, em seu favor, mas também bloqueia soluções diplomáticas para conflitos que são levados adiante por questões de interesse político e econômico.

Além destas questões, Chomsky afirma que a “guerra de agressão” ao Iraque se deu pela mudança de postura de Saddam Hussein em relação aos Estados Unidos. Anos antes, ainda que fosse um ditador homicida, Hussein era apoiado pela potência ocidental, até que seu comportamento passou a incomodar. Iniciaram-se sansões econômicas que arruinaram a economia do país, mas foi a partir da propaganda pós 11/9, que fez com que pelo menos metade da população dos EUA acreditasse que o Iraque e Saddam Hussein teriam relação direta com os ataques que a invasão, de fato, começou, visando a abertura do país para o capital estrangeiro e o controle do petróleo. Não se trata apenas de ter as reservas de petróleo, mas também controlar a distribuição dele para o resto do mundo a partir de sua produção do Oriente Médio. Não basta possuir os recursos; controlar sua distribuição afeta as demais economias dependentes deles.

Chomsky, como é tradição, responde a questões determinantes sobre o que se pode fazer para bater de frente com esse panorama, aparentemente imutável. O autor vê a mobilização popular constante, não apenas protestos pontuais, como a solução para tais questões, algo que o autor já afirma há muito tempo. Não se trata de uma solução a curto ou mesmo médio prazo – tais soluções não existem nesse caso. Trata-se de uma mudança gradativa que se apresenta como tarefa árdua, mas é possível.

Ambições imperiais é altamente recomendável. Sua leitura é fácil e instigante, e apresenta os argumentos e eventos de forma muito clara, objetiva. Para quem se interessa pela conjuntura internacional de início do século, envolvendo os Estados Unidos e sua violência mascarada de “democracia”, além do histórico de tais questões, o livro é indispensável.

Preço médio: R$ 40,00

13 de janeiro de 2013

Noam Chomsky - O que o Tio Sam realmente quer


CHOMSKY, Noam. O que o Tio Sam realmente quer. Brasília. Editora Universidade de Brasília, 1999.

A obra aqui analisada, O que o Tio Sam realmente quer, não difere drasticamente de outras obras do autor, sejam seus textos ou entrevistas concedidas. Porém, ainda que seja um livro que dá seguimento a análises anteriores sobre política, economia e sociedade de eventos recentes da história mundial – principalmente no que concerne aos Estados Unidos –, é uma obra muito direta, disposta a analisar aspectos pontuais e cuja linha de raciocínio é muito coesa. Arriscaria dizer que este é um dos melhores livros para aqueles que não conhecem Chomsky e suas sagazes críticas políticas e sociais, principalmente aos Estados Unidos.

Logo de cara, Chomsky inicia seu texto explicitando os objetivos da política externa dos Estados Unidos, desenvolvida sobre a insegurança constante e argumentos descabidos sobre proteção do território, tomando a Segunda Guerra Mundial como divisor de águas por ser após o conflito que tais políticas se intensificaram com força, mais precisamente por conta da dita “Guerra Fria”. Um período onde cerca de 50% da riqueza mundial estava sob controle dos Estados Unidos, além dos dois lados do oceano, um controle sem precedentes na história mundial, segundo o autor.

Nesse mesmo contexto percebe-se a necessidade de se intensificar a pressão sobre a União Soviética a fim de minar o país e controlar a sucessão do governo soviético. Chomsky defende no decorrer de todo o livro que o principal objetivo dos Estados Unidos em derrubar os soviéticos, atacar regiões supostamente inexpressivas como o Laos, Vietnã do Sul, Nicarágua e outros não se dá apenas por localização estratégia ou recursos – por vezes nenhum desses elementos faz parte da equação. O grande objetivo por trás dessas ações é a supressão de exemplos: na maior parte desses locais, governos realmente democráticos – ao contrário do governo dos EUA – desenvolviam-se de forma vigorosa, sob aval popular e, por vezes, com caráter nacionalista, fechado à intervenção do capital externo. Tais exemplos, se bem sucedidos, poderiam influenciar outros países, ou mesmo camadas populares nos EUA, o que seria inadmissível.

Eis o motivo pelo qual Chomsky defende que os Estados Unidos, se não conseguiram atingir todos os objetivos com a Guerra do Vietnã, pelo menos saíram vitoriosos. O país foi destruído, milhares de camponeses foram mortos, os efeitos do Agente Laranja e outras armas químicas e biológicas são sentidos até hoje e, principalmente, a economia do país foi arrasada, fazendo com que um desenvolvimento adequado nos moldes anteriores a Guerra seja uma realidade pouco plausível, pelo menos nas próximas décadas.

O livro foi lançado na década de 1990, portanto, não inclui debates a respeito da postura dos Estados Unidos a partir dos atentados ao World Trade Center. Contudo, é muito claro para o leitor que as atitudes de perfil imperialista dos EUA estão longe de serem inéditas, e a forma como elas são desenvolvidas não mudou em sua essência: interferência direta na política de países onde há movimentação considerada subversiva (sentimos isso na pele com a ditadura militar, citada no livro como responsável  pelo estado de miséria em que o Brasil se encontrava ao fim do regime), invasão de inimigos indefesos, pressão para a abertura do país para o capital estrangeiro, morte de civis, crimes de guerra entre diversos outros abusos; estes, aliás, não são poupados neste livro, que cita com detalhes a violência de grupos paramilitares na América Latina, como os Contra e o Batalhão Atlacatl. Chomsky mostra também como ditadores brutais (Somoza, Saddam Hussein, Suharto) são apoiados na tomada do poder em seus países por parte dos EUA e cuja permanência é apoiada, desde que atendam aos interesses da grande potência bélica mundial.

Como de praxe, Chomsky apresenta suas ideias de como devemos lidar com esse tipo de situação; em outras palavras, o que fazer. Embora ele fale, principalmente, ao leitor dos Estados Unidos, seus exemplos são universais. O fato de tais ideias se repetirem em diferentes trabalhos mostra a obstinação do autor nesse sentido. Conforme seus livros são lançados percebemos que os tópicos com os quais Chomsky trabalha fazem parte de uma longa estrutura de política expansionista, seja no sentido de expansão territorial ou de influência. Como dito anteriormente, trata-se de um dos melhores livros para ser apresentado a Noam Chomsky.


Preço médio: R$ 18,00

LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR:
Ambições imperiais
Propaganda e consciência popular

4 de janeiro de 2013

Agnès Chauveau, Philippe Tétart: Questões para a história do presente


CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões para a história do presente. Bauru: EDUSC, 1999.

História imediata, história do presente, história contemporânea; independente da forma como encaramos a história de eventos muito recentes e como a classificamos, por muito tempo tal história se mostrou – e talvez possamos dizer que ainda se mostra – espinhosa e carregada de problemas. Academicamente, nos círculos historiográficos, há quem torça o nariz para o estudo do presente, classificando como trabalho de sociólogos, cientistas políticos, entre outros; os acontecimentos não teriam a maturação e o distanciamento necessários ao historiador para que pudesse fazer uma análise mais apurada, com acesso ao desenrolar dos eventos, com a melhor definição do papel dos eventos na conjuntura de média e longa duração e supostamente mais distante de influencias ideológicas do momento. Trabalhos como o conciso Questões para a história do presente adicionam reflexões indispensáveis a esta discussão, demonstrando que mesmo carregadas de problemas, a história do tempo presente deve ser encarada.
            
Lançado na primeira metade da década de 1990, o livro é um produto de sua época – ainda que tal afirmação seja óbvia –, e por se tratar de uma obra da historiografia francesa, está carregado de exemplos de trabalhos franceses, além de citar exemplos que são mais próximos a suas realidades, como a repetição da Guerra da Argélia como exemplo de história recente, contribuindo, principalmente, no papel da memória na história do presente (discutido mais profundamente no capítulo de Robert Frank, “Questões para as fontes do presente”). Além do mais, ele carrega a influência da queda do regime soviético e o fim da guerra fria em alguns de seus capítulos.

Após uma bem estruturada introdução dos organizadores do livro cujo título dá nome à obra, discutindo diversas questões sobre história do tempo presente – como a necessidade do distanciamento para com as fontes, ou mesmo o fato de a história do presente partir, em partes, de uma demanda social pós anos 1950 –, os capítulos se desvelam em diferentes temas, propostos por Chauveau e Tétard. O primeiro, escrito por Jean-Pierre Rioux discute a própria possibilidade de se fazer uma história do presente, diante da condensação das informações midiatizadas. O mesmo autor escreve um capítulo posterior, discutindo a relação da história com o jornalismo, e mostra-se muito crítico aos historiadores e acadêmicos que rejeitam a história do tempo presente, sob argumentos já citados aqui.

René Remónd permanece no campo do político, o qual lhe rendeu alguns de seus mais conceituados trabalhos, dissertando sobre a suposta volta da história política. Um conceito de “volta” que não deixa de ser problemático, por dar a entender o retorno de concepções historiográficas ultrapassadas, como se nada houvesse sido alterado nesse retorno. Rémond admite, não sem razão, que o político também pode ser um objeto de conhecimento científico, além de explicação de outros fatores além de si mesmo. Vale dizer que, corretamente, Rémond encaixa o político numa história de longa duração; compreendê-lo apenas por contingências é uma tarefa não apenas muito difícil, como também metodologicamente errônea.
      
Já Jean-Jacques Becker dedica seu capítulo a discutir o marxismo e o comunismo na história do presente; ou pelo menos essa seria a proposta. Becker traça um histórico sobre as dificuldades dos estudos sobre o comunismo (lembremos o contexto em que o livro foi escrito) e relega o marxismo a dois parágrafos ao fim do capítulo; apesar disso, faz uma sagaz observação ao afirmar que as análises de Marx, embora ainda relevantes para aspectos específicos da história do século XIX e XX, são comumente

simplificadas, adotadas de modo mecânico e em muitos casos inconsciente, além de terem um papel de “esterilização do trabalho histórico, pretendendo submeter toda a análise das sociedades humanas praticamente a um único tipo de explicação e negando, ou melhor, rejeitando o pano de fundo das explicações da evolução das sociedades e do comportamento dos homens que são, por exemplo, o espiritual, a ideia nacional...[1]

Jean-François Sirinelli dedica seu capítulo a uma reflexão importante e cuja atualidade não esmorece: a influência da ideologia nos trabalhos historiográficos, e como este problema pode ter maior peso em trabalhos de história recente, onde por vezes a ideologia na qual um historiador – ou qualquer outro estudioso – podem estar inserido, conscientemente ou não, não é identificada; ou seja, ao contrário de trabalhos sobre uma história mais distante, onde as ideologias presentes no contexto são mais facilmente identificadas e distanciáveis. Na sequência, Jacques Le Goff posiciona-se como um medievalista diante do presente, e aproveita o espaço para reforçar a importância de se relacionar o passado distante do presente – adotando, para o capítulo, a cronologia “oficial” de Idade Média, apesar de citar seu conhecido conceito de Idade Média permanente até o século XIX no plano material.

Voltamos ao já citado Robert Frank, responsável pela discussão sobre as fontes do tempo presente, discutindo metodologicamente as vantagens e desvantagens do uso de fontes orais, escritas e a relação da memória com a história. Embora tais discussões sejam encontradas em diversas obras de forma mais aprofundada, Frank consegue condensar as ideias principais e levantar, também, os principais problemas em cada caso, além das obrigações do historiador diante de tais dificuldades. Ao fim, o também citado capítulo de Jean-Pierre Rioux sobre a relação da história e do jornalismo e a conclusão, por parte de Serge Bernstein e Pierre Milza; esta condensa as ideias do livro em poucas colocações, retomando a influência de Braudel que permeia todos os capítulos a respeito da necessidade do historiador situar os fatos e as contingências na média e longa duração para que se possa compreender mais satisfatoriamente os motivos, sentidos, relevância e, talvez, consequências desses acontecimentos contemporâneos pontuais.

Como característica negativa, a edição/impressão analisada contém um número excessivo de erros de digitação, que demonstra um aparente desleixo com o trabalho de revisão; de qualquer modo, é algo que pode ter sido corrigido em impressões mais recentes e não compromete em nada o entendimento da obra.
           
Trata-se de um trabalho muito conciso e em alguns momentos pode parecer mesmo datado, mas é impossível negar sua qualidade. Considero este livro uma leitura obrigatória para qualquer historiador da história recente, ou mesmo imediata, pois mesmo que outras obras abordem, em separado, os temas deste livro com mais aprofundamento, Questões para a história do tempo presente as condensam de forma clara, objetiva e prática.

Preço médio: R$ 20,00



[1] BECKER, Jean-Jacques. “Marxismo e comunismo na história recente”. In: CHAUVEAU, Agnès; TÉTART, Philippe. Questões para a história do tempo presente. Bauru: EDUSC, 1999, p. 72.

3 de setembro de 2012

Bernard Lewis - Os assassinos


LEWIS, Bernard. Os assassinos: os primórdios do terrorismo no islã. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. 

A “Seita dos assassinos” é um tema que atrai a curiosidade de alguns historiadores e mesmo entusiastas, tendo ainda mais apelo na cultura pop após o lançamento do jogo eletrônico Assassin’s Creed, da empresa de origem francesa Ubisoft. Nele, o jogador controla o personagem Altaïr ibn-La'Ahad
, pertencente a ordem dos assassinos. O jogo em questão fez grande sucesso e abriu um precedente para o interesse por parte de algumas pessoas no que teria dado origem ao jogo, no que tange a seu fundo de cunho histórico. Talvez a melhor obra de iniciação ao tema seja o livro em questão, escrito por Bernard Lewis, que no Brasil leva o subtítulo de “os primórdios do terrorismo no islã”. 

Após resumir a história da seita dos assassinos, dissertando acerca dos melhores trabalhos a respeito do tema com o passar dos séculos, Lewis se preocupa em situar o leitor na complexa história do Islamismo posterior à morte de Maomé, de forma sucinta, mas suficiente. Para a compreensão do todo, algo que é vital para o entendimento da seita é a separação entre os xiitas e os sunitas, sendo o primeiro grupo formado inicialmente pelos descontentes com a sucessão de Maomé por Abu Bacr, um conhecido converso, defendendo a sucessão por parte de Ali, sobrinho e genro do profeta. Este ascendeu ao poder em  656, mas foi assassinado em 661. Após isto, o grupo dos Xi’a começou a adquirir um caráter cada vez mais messiânico, permitindo que, cada vez mais, política e religião se mesclassem, em uma região onde essa associação tinha lugar comum.

Nesse contexto, a figura do imame – uma espécie de líder espiritual com poderes de cura, portador da verdade e outras características pretensamente divinas – tinha uma importância elevada, e as intensas divergências acerca de direitos de sucessão fizeram com que um grupo de descontentes, seguidores de um possível imame chamado Isma’il fosse o grupo responsável pelo surgimento da seita dos assassinos, conhecidos então, por suas crenças, como ismaelitas. 

Isso explica claramente o motivo de a seita dos assassinos – surgida na Pérsia com ramificações na Síria, por vezes mais conhecidas do que as da Pérsia – ter se ocupado quase que integralmente ao assassínio de outros muçulmanos, principalmente os sunitas. Lendas sobre a seita abundaram, inclusive na Europa, por terem os assassinos tido prováveis ligações com europeus, e até mesmo matando em favor dos estrangeiros.

Como seita e grupo, a principal diferença dos ismaelitas para outras seitas e grupos foi o fato de ela ter sido a primeira a ter uma organização eficiente e duradoura. Segundo praticamente todas as fontes sobre o assunto, os assassinos eram servos fiéis de seu senhor, infiltrando-se no território inimigo, fazendo papel de servo deste até que uma hora propícia se revelasse. Não havia envenenamento, uso de armas de arremesso ou algo do tipo; simplesmente sua adaga bastava. Era recorrente o discurso de que para o assassino era glorioso ser morto, ou mesmo se matar, após cometer o crime. 

A própria palavra “assassino” possui uma origem controversa; sua origem gera desacordos, a despeito de ser comumente associada ao nome original do haxixe – supostamente empregado pelo líder e fundador da seita, Hasã-I Sabá, para em conjunto com jardins, mulheres e demais prazeres, dar uma amostra do paraíso que aguardaria àqueles que morrem pela causa. 

Lewis discorre sobre o sucesso da seita na Pérsia, principalmente a partir do quase impenetrável castelo de Alamut, onde Hasã-I Sabá residia, e onde seus sucessores, em geral, viveram, apesar dos demais castelos nas montanhas que pertenciam à ordem. Depois, parte para os assassinos que migraram para a Síria, afirmando não serem muitas as fontes sobre estes, exceto alguns registros de assassinatos cometidos por estes. Percebe-se que na Síria, território mais hostil e de difícil penetração cultural e religiosa – já que o ismaelismo era, apesar de tudo, uma seita estrangeira – sua inserção foi muito mais difícil, e sua eliminação mais eficaz. A despeito do medo que causavam aos seus adversários e da eficácia com que fizeram valer sua vontade em muitos períodos, os assassinos foram derrubados; pequenas sublevações posteriores faziam eco à seita, mas sem que houvesse uma ligação realmente concisa. 

Desde modo, ainda que possa fazer algum sentido num primeiro momento, a assertiva de que os assassinos foram predecessores dos terroristas modernos é precipitada e soa anacrônica. Bernard Lewis tem um histórico de obras que tratam o Oriente Médio como uma região atrasada, em crise e que, como afirma um dos títulos de sua autoria, deu errado. O subtítulo original a radical sect in islam (uma seita radical no islã), no entanto, soa menos generalista e menos anacrônico do que outros que o livro recebeu pelo mundo – incluindo o subtítulo brasileiro. 

Apesar deste detalhe, o livro merece todos os méritos, por ser uma obra concisa, mas certamente muito relevante. A pouca familiaridade do público brasileiro com nomes de origem árabe e semelhantes pode causar confusão quanto à citação tanto de líderes da seita como outros governantes e personagens de todas essas tramas de poder e resistência, mas nada que um pouco de atenção não possa contornar. Livro obrigatório para todo o iniciante neste tema.

Preço médio: R$ 44,90



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24 de agosto de 2012

Noam Chomsky - Propaganda e consciência popular


CHOMSKY, Noam. Propaganda e consciência popular. Bauru: EDUSC, 2003.

Noam Chomsky. A simples menção de seu nome seria suficiente para tirar qualquer conservador estadunidense bem informado do sério, por conta de seu ativismo político e as críticas extremamente contundentes à política de seu país, seja interna ou externa. Sendo um dos maiores intelectuais da atualidade, professor do Massachussets Institute of Technology, sua presença em palestras e requerimentos de entrevistas por parte de outras pessoas são diversos. Algumas entrevistas feitas durante sua carreira já foram compiladas em obras de grande valia sobre os efeitos da propaganda e sua utilidade por parte do governo ou mesmo de interesses particulares de empresas e corporações. O livro em questão, Propaganda e consciência popular, faz parte dessa coleção de entrevistas compiladas; neste caso, por David Barsamian.

A miríade de assuntos abordados nas sete entrevistas contidas neste livro é vasta o bastante para que alguma resenha abarque todos eles sem se tornar desnecessariamente extensa. Contudo, a maior parte das entrevistas – e, consequentemente, do livro – trata de temas que circundam o título. Chomsky critica duramente a propaganda, seja ela oficial ou mesmo por parte de uma mídia pouco informada, ou pouco interessada em informar. Além do mais, em diversos pontos, Chomsky aponta desigualdades no sistema, incoerência de programas governamentais, intervencionismo estadunidense em outras partes do mundo, a necessidade do apoio popular para a manutenção de uma guerra (e mesmo a entrada de um país nela), entre outros.

No capítulo 1, “A vitória dos ativistas”, o cerne da discussão está na opinião de Chomsky sobre o fato de que as pessoas deveriam buscar fazer as perguntas óbvias – ou seja, buscar sua “criança interior”. Sendo a criança naturalmente curiosa e desejosa de saber e buscar suas próprias conclusões, tal atitude contestadora deveria se manter com o passar do tempo, mas as pessoas seriam condicionadas a ouvir mais e participar menos; o público mantendo a postura de espectador, e não participante, por esta postura ser adequada a “homens responsáveis”.

No capítulo 2, “Estados Unidos para o resto do mundo: saiam do caminho”, Chomsky e Barsamian discutem o intervencionismo estadunidense agressivo e como o país ignora quaisquer tratados, conclusões da ONU e afins para atingir seus interesses. Discute o terrorismo dos EUA em outros países, mascarado de contraterrorismo preventivo (a entrevista é de 1º de fevereiro de 1998, anos antes dos atentados ao World Trade Center) e de como o país não é internacionalmente acusado por tais crimes, tampouco sofre quaisquer sansões, por conta de seu poderio bélico. Mais do que os atos em si, incomoda ao autor a postura acintosa dos EUA em rejeitar quaisquer impedimentos a suas ações militares. Já no capítulo “Por razões de estado”, a crítica é muito mais abrangente, passando desde o já citado intervencionismo até questões como a privatização, a ausência de acesso à saúde pública gratuita, o uso da tortura em Israel contra muçulmanos, entre outros tópicos polêmicos.

Nos capítulos 4 e 5, questões diferentes são abordadas, novamente permeando o título da obra. No capítulo 4, “Timor Leste à beira do abismo”, Chomsky discute, principalmente, o violento regime ditatorial de Suharto na Indonésia, focando na violência com a qual seu governo tratou a questão do separatismo da região do Timor Leste, sempre com o conhecimento e apoio dos Estados Unidos. No quinto capítulo, é discutido o encontro da Organização Mundial do Comércio, sendo esta entrevista feira em 23 de fevereiro de 2000. A discussão se deu, principalmente, por conta da presença massiva de muitos ativistas no evento em questão, aproveitando o mote para se discutir a consciência popular e o ativismo.

O capítulo 6 é o mais extenso e mais amplo, chamado “Libertando a mente das ortodoxias”. A extensão do capítulo e a quantidade de temas discutidos é vasta para resumir, mas basicamente, fala sobre a falsa propaganda de guerra, como por exemplo, as “intervenções humanitárias”, que nunca são o que dizem ser, e a resistência diante de eufemismos que objetivam mascarar ou diminuir o impacto do que, de fato, ocorre. O último capítulo chama-se “Solidariedade”, e discute o sistema educacional atual como um meio de se desenvolver um senso de competitividade, onde um deve superar o outro, ao invés de desenvolver um senso de bem comum, onde objetivos em comum devem ser atingidos por todos de forma cooperativa.

Embora a troca de assuntos seja, por vezes, brusca e possa confundir, o livro é uma leitura certamente muito importante quanto a conhecer a forma como a propaganda, principalmente a serviço dos governos e grandes corporações, pode ser muito nociva, além de discorrer muitas vezes sobre o intervencionismo, principalmente dos Estados Unidos ou apoiado por ele, por conta de seus interesses. É uma leitura simples e que não requer um grande conhecimento teórico prévio, já que as questões são tratadas de forma muito clara, podendo ser compreendidas, em sua maior parte, por praticamente qualquer tipo de leitor. Altamente recomendado.

Preço médio: R$ 57,80

LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR:
O que o Tio Sam realmente quer
Ambições imperiais

21 de agosto de 2012

Erasmo de Rotterdam - Elogio da loucura


Esta resenha foi escrita por Gustavo Henrique de Siqueira

ERASMO, Desidério. Elogio da Loucura. Porto Alegre: Ed. L&PM. Tradução de Paulo Neves, 2005.
                                                  
            O contexto que compreende a transição da Idade Média para a Moderna trouxe consigo uma série de movimentos que influenciaram e reforçaram a tendência que levaria mentes como a de Lutero a pensar a Reforma – como fora acusado Erasmo, nosso personagem em questão, pela Igreja Católica no ano de 1542, seis anos após a sua morte – além de abrir caminho em meio à soberania cristã já enfraquecida em relação à anterior “Idade das Trevas”, para o pensamento humanista, que, em linhas gerais, consiste em valorizar o antro ao invés do teocentrismo, como fez o amigo pessoal do autor deste presente Elogio, Thomas Morus.

            Como sugere o título, a obra trata de um auto-elogio onde Erasmo assume a voz da loucura e passa a desconstruir a sociedade para explicar os mecanismos onde o excesso ou a folie(1) se faz presente e como esse sentimento está vinculado em qualquer ocasião do cotidiano.

            Desidério Erasmo ou Erasmo de Rotterdan é filho bastardo de um padre com a filha de um médico. Formado teólogo, mostrou-se com uma clara “rebeldia” logo após abandonar a formação clerical e adotar a razão e, como já foi dito, o humanismo como guia em seus escritos. Sua ligação à Igreja serviu para conduzir suas críticas de forma a acusar as contradições que os costumes e procedimentos católicos levavam consigo através de seus dogmas.

            Em meio aos grandes empreendimentos marítimos que o Velho Mundo empregava, sobretudo na África, e na data da composição dessa obra (1508) em que os europeus já sentiam o gosto do descobrimento sob uma luz do conhecimento de rotas pelo Atlântico, o autor discorre sobre uma classe que não prova do acesso aos estudos e vive na “loucura” – tratada neste Elogio como a própria “felicidade” – como neste exemplo citado do poeta Sófocles: “A vida mais agradável é a que transcorre sem nenhuma espécie de sabedoria” (ERASMO, 1508: Pg. 20), dando margem à sua crítica ao estoicismo, a teologia escolástica e seus doutores. Aqui se trata de uma formulação sobre a realidade contraditória que Erasmo expõe com a intenção de marginalizar a pequena classe de sábios presentes na sociedade renascentista. Essa classificação é afirmada pela pequena parcela que em nome da fé e da Igreja, estipula os preceitos filosóficos do “certo” e do “errado”, herdados do imaginário medieval. Não quer dizer, necessariamente, que o notório escritor holandês quis pintar uma “sociedade feliz” sob a voz da Loucura para mostrar como a ignorância é pura e simplesmente benquista no aspecto do pensamento popular. Pelo contrário, o impacto que a “falta de sabedoria” causa na sociedade é bem tratado pelo autor na sua reflexão sobre as desordens entre as pessoas, o desdém pela realidade, a extrema valorização pessoal de suas atividades e como essa crença se move no sentido da ilusão.

            Pode-se destacar, também, a forma como Erasmo decifra a organização social. Trazendo aqui mais uma vez à tona o título (folie), o autor aponta na estrutura funcionalista desta sociedade onde as garras da loucura traçam o seu império, de que maneira se estabelece o padrão, e como este dita o seu ritmo. A incompreensão cultural é um exemplo do que Erasmo aponta como deficiente na sociedade: “pois, quanto mais uma coisa é contrária ao bom senso, mais ela atrai admiradores” (ERASMO, 1508: Pg. 67). Aqui neste caso, ele se refere aos autores das belas-artes, que precisam da aceitação pública de suas obras pra conseguir sobreviver e o autor faz uma considerável menção a essa “banalização” da cultura, sugerindo o preceito de que invocar o talento artístico é exigir demais da compreensão popular.

            O grande ponto da obra revela-se na segunda metade do Elogio. Erasmo assume sua crítica direcionada aos grandes poderes vigentes na sociedade renascentista, tais como o papado, os bispos, o principado e os monges. Destaque para o eruditismo eclesiástico do autor que busca na Bíblia os fundamentos e passagens que lhe convém para sua descrição crítica. Mas não se trata aqui de uma crítica desenfreada. Erasmo tem a minúcia de respeitar os preceitos divinos, atingindo somente seus atores religiosos. Como no exemplo em que fala na obra sobre uma suposta prestação de contas dos monges para Jesus:

“Mas Jesus Cristo [...] dirá: ‘Que nova espécie de judeus é essa? [...] Não foi a hábitos, orações, abstinências, dietas contínuas que prometi outrora o reino de meu Pai, mas ao exercício de todos os deveres da caridade [...]. Não reconheço essa gente que se gaba de suas boas obras e quer parecer mais santa que eu. Que vão procurar outro paraíso diferente do meu, que o peçam àqueles cujas vãs tradições preferiram seguir em vez de minha lei!’ Quando ouvirem essa sentença e virem que são preteridos por marujos e carroceiros, com que cara imaginais que se olharão uns aos outros? Mas até lá eles continuam gozando da felicidade proporcionada pelas doces esperanças que lhes inspiro” (ERASMO, 1508: Pg. 95,96).

Aqui se nota como a religião está no seu devido patamar e o que é barrado na tolerância do autor é o clero, acusado de reinventar os conceitos da santidade e ser propício ao mal da corrupção. Além disso, os contrapontos observados pelo humanista holandês se estendem não só às pessoas devotas, mas também às mundanas que têm seus princípios fincados no corpo e no materialismo, acusando os fiéis de loucos. Estes, mais preocupados na elevação da alma, por sua vez, associam o mundano à demência. Ou seja, baseado nos pequenos fatos corriqueiros da rotina, Erasmo fundou sua crítica partindo de uma idéia central e incomum para sua época, que é o elogio da loucura.

            O que o dono da pena produz é mais do que jogar com esse assunto novo ou simplesmente brindar o leitor com a exaltação da loucura. O ponto crucial nesta obra imortalizada é como o autor classifica o sistema social, fator determinante para que se decifre um mundo em transformação com a decadência do feudo e a ascensão da burguesia. Falando em atualidade, está presente entre nós este “testemunho” direto de um pensador no florescer da renascença, deixando para nós e para futuras gerações de historiadores e filósofos um recurso indispensável para a compreensão do Mundo Moderno.

Preço médio: R$ 13,00


1    Do título francês Éloge de la folie. Folie = Folia.

3 de agosto de 2012

Leandro Karnal (et al) - História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI


KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2010.

Sendo uma nação causadora de admiração, mas ao mesmo tempo repulsa, pelo resto do mundo, os Estados Unidos possuem uma história intrigante, mitificada e, porque não dizer, intervencionista. É impossível – principalmente por conta deste intervencionismo – discordar da epígrafe da conclusão do presente livro, que afirma: “Para o bem e para o mal, o destino do planeta está associado aos Estados Unidos da América.”

Por conta de seus anseios imperialistas muito claros para qualquer um que se preste a estudar minimamente sua história, os Estados Unidos merecem uma análise particularmente apurada; não é difícil encontrarmos centenas, senão milhares de críticos ao país em questão, ao seu povo ou seu modo de vida – modos, se quisermos ser mais apurados. Contudo, quando se trata de compreender as origens de como funcionam as engrenagens que movem os Estados Unidos, não são muitos os que demonstram algum conhecimento histórico, político, sociológico ou antropológico realmente satisfatório, avesso ao senso comum; tanto os veículos midiáticos que adulam o país quanto os que o criticam ferozmente por vezes procuram menos permitir a compreensão do que doutrinar politicamente. Por conta disso, ressalto que, quanto ao conhecimento da história dos Estados Unidos – ao menos para o público brasileiro – o livro História dos Estados Unidos é um interessante apanhado geral.

O livro é dividido em três partes principais, escritas por diferentes autores. Temos a introdução e a parte um, A formação da nação sob responsabilidade de Leandro Karnal, professor da UNICAMP; a parte dois, Os EUA no século XIX por Luis Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais, até então mestres em história; por fim, o canadense Sean Purdy, professor da USP escreve a última parte, O século americano.

O início, destinado à colonização inglesa no litoral leste da América do Norte, faz um interessante trabalho não apenas no que tange a informar, mas também em problematizar algumas questões. Ganha destaque a problematização de um senso-comum ainda existente de que o sucesso dos Estados Unidos, em contraste com o suposto “fracasso brasileiro” se daria pelas diferentes formas de colonização, pois nos EUA, ela teria sido de povoamento e no Brasil, de exploração. Leando Karnal demonstra facilmente o quanto esta ideia não tem fundamentos sólidos para se manter de pé. Ademais, o autor faz um bom trabalho, inclusive discutindo questões contemporâneas sobre a visão que outros povos têm dos Estados Unidos e vice-versa, mas a meu ver, em alguns momentos demonstrou estar em sintonia com trabalhos mais tradicionais e, infelizmente, ainda contaminados por muitos dos mitos de elevação nacional do século XIX sobre a revolução.

Um outro ponto a ser levado em consideração é a discussão sobre a nacionalidade: é pontuado que o termo “estadunidense” possui uma conotação nacionalista por parte dos países que não se sentem contemplados quando os EUA se classificam como “Americanos”. Um sentimento justo, que por si só já é suficiente para tornar questionável a adoção do termo “americano”. Não se trata apenas de uma barreira linguística – pela enorme dificuldade de se encontrar um termo equivalente a estadunidense na língua inglesa –, mas também cultural, e nesse sentido já muito solidificada tanto nos EUA como para boa parte da população mundial, bombardeada pela indústria do entretenimento estadunidense.

As duas partes posteriores, no entanto, adotam posturas mais críticas, principalmente a última parte. Nela, o intervencionismo estadunidense constante no século XX em várias partes do mundo, os males da propaganda mentirosa, a participação dos EUA na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã, entre outras coisas, são levantados durante todo o tempo e mostram-se a melhor parte do livro, ainda que bastante resumida.

Ademais, vale dizer que o livro é ricamente ilustrado (nem todas as imagens em qualidade razoável, mas nada que comprometa o conteúdo) e sua leitura é muito tranquila, sem causar grande desgaste ou dificuldade de compreensão pela inserção de termos mais complicados. É uma leitura extremamente acessível.

Para qualquer um que se interesse em se aprofundar na história dos Estados Unidos – tema recomendado e que se mantém relevante, principalmente no que tange à política externa –, este livro é um ótimo começo, principalmente se for complementado por obras que foquem em aspectos mais específicos (algumas, inclusive, já resenhadas neste blog).

Preço médio: R$ 39,90

26 de março de 2012

Claude Fohlen - O Faroeste


FOHLEN, Claude. O faroeste. São Paulo: Companhia das Letras; Círculo do Livro, 1989.

            Tendo sido um tema largamente explorado pela literatura, cinema e mesmo música, o Far West, ou faroeste – como é chamado no Brasil – é um vasto território que nem sempre fora o mesmo em extensão. Uma no man’s land que, apesar de seus mistérios, era também repleta de promessas, onde milhares de colonos tentaram a sorte, principalmente a partir da segunda metade do século XIX. Muito do que se sabe – tendo embasamento verídico ou não – chega às mãos da maioria do grande público principalmente através das representações do cinema, desde os clássicos de John Wayne aos icônicos Spagethi Westerns de Sergio Leone e outros, mas muito do conhecimento sobre o período permanece obscuro para esse mesmo público, que recebe nestas produções cinematográficas dezenas de estereótipos fetichistas, desde jogadores e prostitutas a cowboys destemidos portando suas Peacemakers (Colt .45) e fazendo justiça a seu modo. Para o preenchimento de várias destas lacunas, a presente obra, O faroeste, é uma obra de extrema competência.
            Claude Fohlen, então professor de história dos Estados Unidos na Sorbonne na época em que este livro foi lançado (1974, no original), trouxe em uma obra propositalmente generalista, uma compilação de assuntos pertinentes à expansão dos Estados Unidos rumo ao Oeste. O período conhecido como Faroeste possui um recorte geográfico e temporal bem específico, segundo o autor: tem como fronteira com o leste o vale do Mississipi, e tem como recorte temporal os trinta anos entre 1860 e 1890, por vezes transitando antes e depois desse período.
            A obra, parte da coleção A vida cotidiana, tem uma divisão muito clara de temas no decorrer de seus capítulos; assume-se como uma obra introdutória à vastidão de temas cujo aprofundamento é pouco neste caso. Apesar disso, sua fácil leitura e didatismo dão a impressão de que a obra é muito mais completa do que o próprio autor a julga.
            De início, Fohlen discute seu recorte geográfico. Planícies áridas, ventos bravios e vegetação escassa marcam boa parte deste território, onde as variações de temperatura são consideráveis e acidentes imprevisíveis, como nuvens de gafanhotos e tempestades de areia devastam tudo o que encontram pelo caminho. Tais condições, associadas à dificuldade de se chegar a tais territórios – suprimida a partir das construções das grandes ferrovias – fez dessa vasta região um local de baixa densidade demográfica, a despeito das inúmeras propagandas no leste sobre as possibilidades que o oeste oferecia; este considerado uma espécie de Eldorado, teve o seu povoamento não apenas batalhado por agentes imobiliários, mas também facilitado pelo governo. Como resultado, um sem-número de imigrantes foi despejado no Velho Oeste, ávido por povoamento, através das estradas de ferro.
            Conforme dito anteriormente, os temas no livro são bem divididos. Ao fim da introdução, Fohlen começa debatendo o trajeto até o Oeste e o trânsito na região, tanto através de diligências quanto a partir da criação das principais estradas de ferro, como a Union Pacific, Southern Pacific, Northern Pacific, entre outras. Na sequência, o autor parte para análises mais focadas no cotidiano, dedicando os capítulos seguintes aos mineiros, colonos, cowboys e índios, propondo-se a desmistificar muito da imagem consolidada destes indivíduos pelo cinema e outras vias de entretenimento.
            A violência nas cidades – e mesmo a concepção destas cidades – também são abordadas. Claude Fohlen defende a tese de que o Oeste era, de fato, um lugar onde a violência tinha lugar, e onde as disputas entre Desperados e Vigilantes era constante. Linchamentos e enforcamentos eram – no quanto for possível afirmar – corriqueiros e, na mentalidade dos colonos, mesmo necessários. Uma forma de justiça palpável e ao alcance, alívio em um mundo de incertezas onde qualquer indivíduo poderia carregar um revólver no coldre. A vida e a morte, trabalhadas no capítulo VII, fazem um paralelo com tais temas. Fohlen adentra no campo do privado, discutindo a habitação, a alimentação e a saúde, já que pouco se sabe de concreto a respeito. A fé, as crenças destes indivíduos, o ensino, o lazer, muitas são as questões do cotidiano que o autor traz a tona, e a despeito do caráter generalista que a obra possui, o trabalho é muito bem executado.
            Independente de abordar aspectos gerais do Far West, sem, no entanto, se aprofundar nos meandros de nenhum deles pela proposta da obra, o livro é altamente recomendado a qualquer entusiasta do período, não apenas a historiadores. Pessoalmente, não é de meu conhecimento uma vasta bibliografia sobre o período traduzida para o português; logo, este livro é possivelmente a melhor porta de entrada ao tema para o leitor de língua portuguesa. Os livros da coleção “A vida cotidiana” estão há muito esgotados no Brasil, mas ainda é possível encontrá-los em sebos. A reedição de tais obras seria de suma importância para o contato dos historiadores brasileiros com temas diversos, tendo como escopo questões relativas ao cotidiano de diversos períodos e recortes geográficos.
            Para todos que possuem interesse no “faroeste” ou se interessem pela história dos Estados Unidos, este livro é leitura obrigatória.


Preço médio: Esgotado (recomendamos uma busca no site Estante Virtual)

LEIA OUTRAS RESENHAS DE LIVROS DA COLEÇÃO A VIDA COTIDIANA:

23 de março de 2012

Piedade sangrenta: a legitimação da tortura na caça às bruxas na Europa

Enquanto tento achar algum tempo para resenhar um livro lido há alguns meses, trago a vocês meu artigo publicado na revista Alétheia, focada em estudos da Antiguidade e Idade Média. O tema do artigo, como o título explicita, é relativo ao uso de tortura nos processos de bruxaria durante o auge da dita "Caça às bruxas". Quais os principais argumentos que permitiam que a tortura fosse socialmente aceita (e por que não dizer desejada) em âmbito geral? Tentei responder a essa questão com este artigo, que foca menos nas execuções e mais nos suplícios antes da morte.

A edição da revista pode ser conferida AQUI. O artigo em questão consta na página 177.

9 de janeiro de 2012

Ray Raphael - Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos


RAPHAEL, Ray. Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos: a verdadeira história da independência norte-americana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Os Estados Unidos é um país onde demonstrações de patriotismo eclodem com alguma frequência, e são exportadas ao redor do globo através do cinema, música e outras formas de comunicação e/ou entretenimento. Tais demonstrações se tornaram ainda mais frequentes após os atentados às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Muito desse patriotismo exposto de forma orgulhosa está alicerçado na história da independência do país, repleta de exemplos de atos heróicos, atitudes visionárias e uma força de vontade acima do normal para encarar a nação que era, no período, o maior império do mundo.

Contudo, as diversas histórias a respeito da independência dos Estados Unidos do jugo britânico estão repletas de floreios e distorções que as transformaram em histórias palatáveis ao grande público. É este o assunto desta obra brilhante, escrita por Ray Raphael, Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos. Seu principal objetivo é demonstrar, através de intensa pesquisa documental, que os mitos a respeito da fundação do país são, em sua maior parte, construções oriundas do século XIX, contaminadas pelo romantismo do período. Tal romantismo transformou indivíduos em heróis e visionários, sendo essa construção positivista romântica do heroísmo individual muito mais atrativa e construtora de um sentimento de orgulho do que um processo histórico formado por conjecturas e cujo protagonismo é coletivo.

Os capítulos do livro se dedicam, cada um, a um mito em especial, mas alguns deles têm traços em comum. Temos exemplos de mitos oriundos da transposição de histórias, condensadas em uma única história com os elementos mais agradáveis ou convenientes (o caso de Molly Pitche, do capítulo 2), mitos sobre ações atribuídas a indivíduos cujo protagonismo é elevado sobre o povo (a cavalgada de Paul Revere, Sam Adams, o discurso de Patrick Henry), o maniqueísmo entre os colonos bons e o colonizador mau, o mito da inferioridade material e numérica dos colonos frente ao império britânico, a mitificação de eventos em detrimento de outros (como Valley Forge), o papel dos indígenas e dos negros, entre outros. O que os mitos têm em comum, nesse caso, é que todos eles foram construídos de uma forma simplificada, objetivando despertar sentimentos patrióticos e de cidadania, a partir de exemplos de esforços individuais que, segundo os mitos, foram determinantes para o sucesso da independência; transforma os ancestrais dos estadunidenses em verdadeiros heróis excepcionais, diante de tão árduo desafio. Estas mitificações apresentam uma série de problemas, os quais Raphael aborda de forma didática, simples e objetiva.

Alguns pontos de maior importância devem ser destacados na análise de Raphael sobre os mitos da independência. O autor muitas vezes bate na tecla sobre o protagonismo do povo na revolução. Homens como Thomas Jefferson, ao qual a Declaração da Independência é creditada – sendo algo que veio do indivíduo apenas –, tornam-se símbolos, e neste processo o papel dos homens comuns é deixado em segundo plano. Para aprofundar o exemplo citado, Raphael argumenta que a declaração nem sequer fora a primeira, haja vista que alguns estados já haviam feito as suas, e a maior parte dos elementos dos quais os estadunidenses se orgulham tiveram uma inspiração gigantesca de filósofos europeus, como John Locke. O perigo desse tipo de romantização do processo é que o papel do povo como construtor dos processos históricos é colocado em segundo plano; tal processo, de caráter nacionalista e positivista, mostra o povo como passivo, necessitado de líderes cuja ausência não permitiria que a independência pudesse seguir seu curso. Algo antidemocrático, que ao invés de inspirar o indivíduo a tornar-se agente ativo na sociedade, o condiciona a lideranças que lhes ditem as ações.

O maniqueísmo presente no mito, que romantiza o colono em desvantagem numérica reagindo à brutalidade britânica ou suportando passivamente as intempéries, é também prejudicial. Ao contrário do que se tenta fazer crer, histórias como as do inverno em Valley Forge – onde os soldados teriam resistido resignadamente ao rígido inverno entre 1777 e 1778 – estão repletas de uma imensa complexidade, relegada á segundo plano em detrimento de uma história moralizante de resignação diante não apenas do inimigo estrangeiro, mas da implacabilidade da natureza. Os combatentes, cujas necessidades alimentares e de vestuário eram constantemente negligenciadas pelo governo, se viam diante da necessidade de saques e mesmo da deserção, e lutavam por direitos e melhores condições; tal luta algo que nem de longe deveria ser motivo de vergonha, mas os mitos que apagam tais eventos os tratam como se houvesse, de fato, motivo para se envergonhar.

A obra de Raphael deveria ser lida por todo cidadão dos Estados Unidos. Os mitos fundadores do país estão de tal forma entranhados no cotidiano do país que tal esforço em forma de livro dificilmente teria um grande efeito desestabilizador. Apesar disso, a mensagem que o autor deixa clara por mais de uma oportunidade no decorrer da obra é que as verdades por trás dos mitos não são motivo de vergonha ou tiram o crédito dos colonos e revolucionários do período, muito pelo contrário. Demonstrar a complexidade dos processos que culminaram na independência e o desenrolar deste acontecimento coloca o povo no centro da questão, humaniza os personagens e mostra ao cidadão que a luta coletiva e a democracia, mais do que seguir líderes visionários, parte da coletividade. Como Raphael diz em sua conclusão, “o debate contencioso é mais adequado ao funcionamento de uma sociedade democrática do que a recitação decorada”. Ao invés do apego a exemplos excepcionais e histórias polidas, o autor propõe o debate e a deliberação coletiva das questões pertinentes aos cidadãos tal como era feito no passado.

Para complementar o pensamento, cito ipsis literis o último parágrafo da obra:

Quem controla a narrativa, controla a história. Essa é uma mensagem poderosa. Os que a ignoram permanecerão cegos para a manipulação dos outros, mas os que a aceitarem, como o povo na Revolução Americana, serão capazes de questionar o abuso de autoridade e assumir o controle do seu destino.

Leitura obrigatória para qualquer historiador e indicado a entusiastas, exceto àqueles que possuem uma aversão absoluta aos Estados Unidos, seja lá por quais razões.

Preço médio: R$ 40,00


Obs: Adquiri o livro por R$ 12,90 na livraria Livros e Livros de Florianópolis (uma das duas filiais dentro da UFSC). Quem tiver acesso às promoções desta livraria, não perca.

7 de janeiro de 2012

Paul Larivaille - A Itália no tempo de Maquiavel


LARIVAILLE, Paul. A Itália no tempo de Maquiavel: Florença e Roma. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

O Renascimento italiano é um tema singular que instiga a curiosidade de muitos, e já foi objeto de estudo de alguns historiadores de renome. Ainda no século XIX, Jacob Burkhardt dedicara um livro ao período na Itália, que veio a ser tornar referência no assunto. Já no século XX, o tema foi tratado à exaustão, e a questão a respeito do recorte geográfico desse dito “renascimento” transpassar ou não as fronteiras dos estados que viriam a formar o que conhecemos hoje por Itália, no século XIX permaneceu. O inglês Peter Burke é outro exemplo de historiador renomado que aborda o tema, tecendo, inclusive, críticas a Burkhardt por conta deste último defender a idéia de um Renascimento localizado – na Itália, como pode-se supor.

A presente obra analisada de autoria de Paul Larivaille, especialista no Renascimento italiano, faz parte de uma coleção intitulada A vida cotidiana, que possui outros livros de grande qualidade, como No tempo dos cavaleiros da Távola Redonda, de Michel Pastoreau e O Faroeste, de Claude Fohlen. Como o título da coleção dá a entender, a obra não se limita a discutir apenas os pontos mais previsíveis do período trabalhado – aproximadamente entre 1420 e 1530 –, como as relações de poder entre as famílias, o papado ou as artes, mas também problematiza as camadas mais pobres e sua participação nessa vida cotidiana, que não pertenceu apenas aos palácios dos príncipes.

Apesar de tal proposição abrangente, era de se esperar que, também por uma questão de facilidade com relação ao acesso às fontes, a obra reservasse grande espaço aos temas mais previsíveis apontados acima. Ganham destaque os diversos jogos de política da Itália do século XV; em vários capítulos a família Médici, principalmente Lourenço, o Magnífico, além da Igreja – principalmente durante o pontificado de Rodrigo Borgia, então Alexandre VI – têm grande destaque na narrativa. A corrupção, não apenas durante o período em que Alexandre VI fora papa, mas também o período anterior e posterior ao seu comando da Igreja, ganha um capítulo próprio, inclusive fazendo alguma relação com a vindoura reforma.

Larivaille não se esquece do importante papel dos mercadores e banqueiros, aos quais um capítulo também é dedicado, assim como aos artistas. Maquiavel, cujo nome estampa o título da obra, também tem um capítulo dedicado a si, que pretende discutir não apenas o senso comum a respeito do personagem, mas também se dedica a discutir o papel do intelectual no contexto que o livro trabalha.

Os últimos dois capítulos, acrescidos da conclusão, voltam seu foco para as classes subalternas, trabalhando a relação entre a plebe e a nobreza, o campo e a cidade, e a discussão a respeito do que é mito e o que é realidade na condição do camponês. Trata, também, do papel dos indivíduos da família na sociedade, e sabiamente desmistifica os ideais de pais de família, mulheres e etc, baseados em documentos mais voltados para deleite de famílias abastadas do que compromissados com a realidade cotidiana, principalmente das classes menos favorecidas socialmente.

Em suma, a obra de Paul Larivaille mostra uma Itália paradoxal; ao mesmo tempo em que mostra a fragilidade das estruturas políticas e militares diante da intervenção de grandes nações vizinhas e à mercê das mesmas, mostra como banqueiros e comerciantes eram proeminentes no comércio europeu, e como, à sua maneira, os estados triunfaram sobre as ameaças externas no desenvolvimento das artes e das letras, que reforçavam uma suposta superioridade local, em contraste com o barbarismo e grosseria dos estrangeiros Um contexto onde a subjugação militar não ultrapassa os limites da cultura e da economia, sendo tanto a primeira quanto a segunda formas de resistência e unidade diante da ameaça externa.

Um livro que não se perde nem em bajulação, nem em detração gratuitas ou exageradas, A Itália no tempo de Maquiavel é uma leitura obrigatória para qualquer historiador que anseie entender melhor a sociedade onde o “Renascimento” tomou forma. Para leitores casuais, o livro pode ser de difícil digestão em sua totalidade, mas a variedade de temas e capítulos fornece uma ampla gama de leituras localizadas que podem despertar interesse.

Preço: Esgotado
(Sugerimos uma busca no site Estante Virtual)