24 de agosto de 2012

Noam Chomsky - Propaganda e consciência popular


CHOMSKY, Noam. Propaganda e consciência popular. Bauru: EDUSC, 2003.

Noam Chomsky. A simples menção de seu nome seria suficiente para tirar qualquer conservador estadunidense bem informado do sério, por conta de seu ativismo político e as críticas extremamente contundentes à política de seu país, seja interna ou externa. Sendo um dos maiores intelectuais da atualidade, professor do Massachussets Institute of Technology, sua presença em palestras e requerimentos de entrevistas por parte de outras pessoas são diversos. Algumas entrevistas feitas durante sua carreira já foram compiladas em obras de grande valia sobre os efeitos da propaganda e sua utilidade por parte do governo ou mesmo de interesses particulares de empresas e corporações. O livro em questão, Propaganda e consciência popular, faz parte dessa coleção de entrevistas compiladas; neste caso, por David Barsamian.

A miríade de assuntos abordados nas sete entrevistas contidas neste livro é vasta o bastante para que alguma resenha abarque todos eles sem se tornar desnecessariamente extensa. Contudo, a maior parte das entrevistas – e, consequentemente, do livro – trata de temas que circundam o título. Chomsky critica duramente a propaganda, seja ela oficial ou mesmo por parte de uma mídia pouco informada, ou pouco interessada em informar. Além do mais, em diversos pontos, Chomsky aponta desigualdades no sistema, incoerência de programas governamentais, intervencionismo estadunidense em outras partes do mundo, a necessidade do apoio popular para a manutenção de uma guerra (e mesmo a entrada de um país nela), entre outros.

No capítulo 1, “A vitória dos ativistas”, o cerne da discussão está na opinião de Chomsky sobre o fato de que as pessoas deveriam buscar fazer as perguntas óbvias – ou seja, buscar sua “criança interior”. Sendo a criança naturalmente curiosa e desejosa de saber e buscar suas próprias conclusões, tal atitude contestadora deveria se manter com o passar do tempo, mas as pessoas seriam condicionadas a ouvir mais e participar menos; o público mantendo a postura de espectador, e não participante, por esta postura ser adequada a “homens responsáveis”.

No capítulo 2, “Estados Unidos para o resto do mundo: saiam do caminho”, Chomsky e Barsamian discutem o intervencionismo estadunidense agressivo e como o país ignora quaisquer tratados, conclusões da ONU e afins para atingir seus interesses. Discute o terrorismo dos EUA em outros países, mascarado de contraterrorismo preventivo (a entrevista é de 1º de fevereiro de 1998, anos antes dos atentados ao World Trade Center) e de como o país não é internacionalmente acusado por tais crimes, tampouco sofre quaisquer sansões, por conta de seu poderio bélico. Mais do que os atos em si, incomoda ao autor a postura acintosa dos EUA em rejeitar quaisquer impedimentos a suas ações militares. Já no capítulo “Por razões de estado”, a crítica é muito mais abrangente, passando desde o já citado intervencionismo até questões como a privatização, a ausência de acesso à saúde pública gratuita, o uso da tortura em Israel contra muçulmanos, entre outros tópicos polêmicos.

Nos capítulos 4 e 5, questões diferentes são abordadas, novamente permeando o título da obra. No capítulo 4, “Timor Leste à beira do abismo”, Chomsky discute, principalmente, o violento regime ditatorial de Suharto na Indonésia, focando na violência com a qual seu governo tratou a questão do separatismo da região do Timor Leste, sempre com o conhecimento e apoio dos Estados Unidos. No quinto capítulo, é discutido o encontro da Organização Mundial do Comércio, sendo esta entrevista feira em 23 de fevereiro de 2000. A discussão se deu, principalmente, por conta da presença massiva de muitos ativistas no evento em questão, aproveitando o mote para se discutir a consciência popular e o ativismo.

O capítulo 6 é o mais extenso e mais amplo, chamado “Libertando a mente das ortodoxias”. A extensão do capítulo e a quantidade de temas discutidos é vasta para resumir, mas basicamente, fala sobre a falsa propaganda de guerra, como por exemplo, as “intervenções humanitárias”, que nunca são o que dizem ser, e a resistência diante de eufemismos que objetivam mascarar ou diminuir o impacto do que, de fato, ocorre. O último capítulo chama-se “Solidariedade”, e discute o sistema educacional atual como um meio de se desenvolver um senso de competitividade, onde um deve superar o outro, ao invés de desenvolver um senso de bem comum, onde objetivos em comum devem ser atingidos por todos de forma cooperativa.

Embora a troca de assuntos seja, por vezes, brusca e possa confundir, o livro é uma leitura certamente muito importante quanto a conhecer a forma como a propaganda, principalmente a serviço dos governos e grandes corporações, pode ser muito nociva, além de discorrer muitas vezes sobre o intervencionismo, principalmente dos Estados Unidos ou apoiado por ele, por conta de seus interesses. É uma leitura simples e que não requer um grande conhecimento teórico prévio, já que as questões são tratadas de forma muito clara, podendo ser compreendidas, em sua maior parte, por praticamente qualquer tipo de leitor. Altamente recomendado.

Preço médio: R$ 57,80

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21 de agosto de 2012

Erasmo de Rotterdam - Elogio da loucura


Esta resenha foi escrita por Gustavo Henrique de Siqueira

ERASMO, Desidério. Elogio da Loucura. Porto Alegre: Ed. L&PM. Tradução de Paulo Neves, 2005.
                                                  
            O contexto que compreende a transição da Idade Média para a Moderna trouxe consigo uma série de movimentos que influenciaram e reforçaram a tendência que levaria mentes como a de Lutero a pensar a Reforma – como fora acusado Erasmo, nosso personagem em questão, pela Igreja Católica no ano de 1542, seis anos após a sua morte – além de abrir caminho em meio à soberania cristã já enfraquecida em relação à anterior “Idade das Trevas”, para o pensamento humanista, que, em linhas gerais, consiste em valorizar o antro ao invés do teocentrismo, como fez o amigo pessoal do autor deste presente Elogio, Thomas Morus.

            Como sugere o título, a obra trata de um auto-elogio onde Erasmo assume a voz da loucura e passa a desconstruir a sociedade para explicar os mecanismos onde o excesso ou a folie(1) se faz presente e como esse sentimento está vinculado em qualquer ocasião do cotidiano.

            Desidério Erasmo ou Erasmo de Rotterdan é filho bastardo de um padre com a filha de um médico. Formado teólogo, mostrou-se com uma clara “rebeldia” logo após abandonar a formação clerical e adotar a razão e, como já foi dito, o humanismo como guia em seus escritos. Sua ligação à Igreja serviu para conduzir suas críticas de forma a acusar as contradições que os costumes e procedimentos católicos levavam consigo através de seus dogmas.

            Em meio aos grandes empreendimentos marítimos que o Velho Mundo empregava, sobretudo na África, e na data da composição dessa obra (1508) em que os europeus já sentiam o gosto do descobrimento sob uma luz do conhecimento de rotas pelo Atlântico, o autor discorre sobre uma classe que não prova do acesso aos estudos e vive na “loucura” – tratada neste Elogio como a própria “felicidade” – como neste exemplo citado do poeta Sófocles: “A vida mais agradável é a que transcorre sem nenhuma espécie de sabedoria” (ERASMO, 1508: Pg. 20), dando margem à sua crítica ao estoicismo, a teologia escolástica e seus doutores. Aqui se trata de uma formulação sobre a realidade contraditória que Erasmo expõe com a intenção de marginalizar a pequena classe de sábios presentes na sociedade renascentista. Essa classificação é afirmada pela pequena parcela que em nome da fé e da Igreja, estipula os preceitos filosóficos do “certo” e do “errado”, herdados do imaginário medieval. Não quer dizer, necessariamente, que o notório escritor holandês quis pintar uma “sociedade feliz” sob a voz da Loucura para mostrar como a ignorância é pura e simplesmente benquista no aspecto do pensamento popular. Pelo contrário, o impacto que a “falta de sabedoria” causa na sociedade é bem tratado pelo autor na sua reflexão sobre as desordens entre as pessoas, o desdém pela realidade, a extrema valorização pessoal de suas atividades e como essa crença se move no sentido da ilusão.

            Pode-se destacar, também, a forma como Erasmo decifra a organização social. Trazendo aqui mais uma vez à tona o título (folie), o autor aponta na estrutura funcionalista desta sociedade onde as garras da loucura traçam o seu império, de que maneira se estabelece o padrão, e como este dita o seu ritmo. A incompreensão cultural é um exemplo do que Erasmo aponta como deficiente na sociedade: “pois, quanto mais uma coisa é contrária ao bom senso, mais ela atrai admiradores” (ERASMO, 1508: Pg. 67). Aqui neste caso, ele se refere aos autores das belas-artes, que precisam da aceitação pública de suas obras pra conseguir sobreviver e o autor faz uma considerável menção a essa “banalização” da cultura, sugerindo o preceito de que invocar o talento artístico é exigir demais da compreensão popular.

            O grande ponto da obra revela-se na segunda metade do Elogio. Erasmo assume sua crítica direcionada aos grandes poderes vigentes na sociedade renascentista, tais como o papado, os bispos, o principado e os monges. Destaque para o eruditismo eclesiástico do autor que busca na Bíblia os fundamentos e passagens que lhe convém para sua descrição crítica. Mas não se trata aqui de uma crítica desenfreada. Erasmo tem a minúcia de respeitar os preceitos divinos, atingindo somente seus atores religiosos. Como no exemplo em que fala na obra sobre uma suposta prestação de contas dos monges para Jesus:

“Mas Jesus Cristo [...] dirá: ‘Que nova espécie de judeus é essa? [...] Não foi a hábitos, orações, abstinências, dietas contínuas que prometi outrora o reino de meu Pai, mas ao exercício de todos os deveres da caridade [...]. Não reconheço essa gente que se gaba de suas boas obras e quer parecer mais santa que eu. Que vão procurar outro paraíso diferente do meu, que o peçam àqueles cujas vãs tradições preferiram seguir em vez de minha lei!’ Quando ouvirem essa sentença e virem que são preteridos por marujos e carroceiros, com que cara imaginais que se olharão uns aos outros? Mas até lá eles continuam gozando da felicidade proporcionada pelas doces esperanças que lhes inspiro” (ERASMO, 1508: Pg. 95,96).

Aqui se nota como a religião está no seu devido patamar e o que é barrado na tolerância do autor é o clero, acusado de reinventar os conceitos da santidade e ser propício ao mal da corrupção. Além disso, os contrapontos observados pelo humanista holandês se estendem não só às pessoas devotas, mas também às mundanas que têm seus princípios fincados no corpo e no materialismo, acusando os fiéis de loucos. Estes, mais preocupados na elevação da alma, por sua vez, associam o mundano à demência. Ou seja, baseado nos pequenos fatos corriqueiros da rotina, Erasmo fundou sua crítica partindo de uma idéia central e incomum para sua época, que é o elogio da loucura.

            O que o dono da pena produz é mais do que jogar com esse assunto novo ou simplesmente brindar o leitor com a exaltação da loucura. O ponto crucial nesta obra imortalizada é como o autor classifica o sistema social, fator determinante para que se decifre um mundo em transformação com a decadência do feudo e a ascensão da burguesia. Falando em atualidade, está presente entre nós este “testemunho” direto de um pensador no florescer da renascença, deixando para nós e para futuras gerações de historiadores e filósofos um recurso indispensável para a compreensão do Mundo Moderno.

Preço médio: R$ 13,00


1    Do título francês Éloge de la folie. Folie = Folia.

3 de agosto de 2012

Leandro Karnal (et al) - História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI


KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2010.

Sendo uma nação causadora de admiração, mas ao mesmo tempo repulsa, pelo resto do mundo, os Estados Unidos possuem uma história intrigante, mitificada e, porque não dizer, intervencionista. É impossível – principalmente por conta deste intervencionismo – discordar da epígrafe da conclusão do presente livro, que afirma: “Para o bem e para o mal, o destino do planeta está associado aos Estados Unidos da América.”

Por conta de seus anseios imperialistas muito claros para qualquer um que se preste a estudar minimamente sua história, os Estados Unidos merecem uma análise particularmente apurada; não é difícil encontrarmos centenas, senão milhares de críticos ao país em questão, ao seu povo ou seu modo de vida – modos, se quisermos ser mais apurados. Contudo, quando se trata de compreender as origens de como funcionam as engrenagens que movem os Estados Unidos, não são muitos os que demonstram algum conhecimento histórico, político, sociológico ou antropológico realmente satisfatório, avesso ao senso comum; tanto os veículos midiáticos que adulam o país quanto os que o criticam ferozmente por vezes procuram menos permitir a compreensão do que doutrinar politicamente. Por conta disso, ressalto que, quanto ao conhecimento da história dos Estados Unidos – ao menos para o público brasileiro – o livro História dos Estados Unidos é um interessante apanhado geral.

O livro é dividido em três partes principais, escritas por diferentes autores. Temos a introdução e a parte um, A formação da nação sob responsabilidade de Leandro Karnal, professor da UNICAMP; a parte dois, Os EUA no século XIX por Luis Estevam Fernandes e Marcus Vinícius de Morais, até então mestres em história; por fim, o canadense Sean Purdy, professor da USP escreve a última parte, O século americano.

O início, destinado à colonização inglesa no litoral leste da América do Norte, faz um interessante trabalho não apenas no que tange a informar, mas também em problematizar algumas questões. Ganha destaque a problematização de um senso-comum ainda existente de que o sucesso dos Estados Unidos, em contraste com o suposto “fracasso brasileiro” se daria pelas diferentes formas de colonização, pois nos EUA, ela teria sido de povoamento e no Brasil, de exploração. Leando Karnal demonstra facilmente o quanto esta ideia não tem fundamentos sólidos para se manter de pé. Ademais, o autor faz um bom trabalho, inclusive discutindo questões contemporâneas sobre a visão que outros povos têm dos Estados Unidos e vice-versa, mas a meu ver, em alguns momentos demonstrou estar em sintonia com trabalhos mais tradicionais e, infelizmente, ainda contaminados por muitos dos mitos de elevação nacional do século XIX sobre a revolução.

Um outro ponto a ser levado em consideração é a discussão sobre a nacionalidade: é pontuado que o termo “estadunidense” possui uma conotação nacionalista por parte dos países que não se sentem contemplados quando os EUA se classificam como “Americanos”. Um sentimento justo, que por si só já é suficiente para tornar questionável a adoção do termo “americano”. Não se trata apenas de uma barreira linguística – pela enorme dificuldade de se encontrar um termo equivalente a estadunidense na língua inglesa –, mas também cultural, e nesse sentido já muito solidificada tanto nos EUA como para boa parte da população mundial, bombardeada pela indústria do entretenimento estadunidense.

As duas partes posteriores, no entanto, adotam posturas mais críticas, principalmente a última parte. Nela, o intervencionismo estadunidense constante no século XX em várias partes do mundo, os males da propaganda mentirosa, a participação dos EUA na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã, entre outras coisas, são levantados durante todo o tempo e mostram-se a melhor parte do livro, ainda que bastante resumida.

Ademais, vale dizer que o livro é ricamente ilustrado (nem todas as imagens em qualidade razoável, mas nada que comprometa o conteúdo) e sua leitura é muito tranquila, sem causar grande desgaste ou dificuldade de compreensão pela inserção de termos mais complicados. É uma leitura extremamente acessível.

Para qualquer um que se interesse em se aprofundar na história dos Estados Unidos – tema recomendado e que se mantém relevante, principalmente no que tange à política externa –, este livro é um ótimo começo, principalmente se for complementado por obras que foquem em aspectos mais específicos (algumas, inclusive, já resenhadas neste blog).

Preço médio: R$ 39,90

26 de março de 2012

Claude Fohlen - O Faroeste


FOHLEN, Claude. O faroeste. São Paulo: Companhia das Letras; Círculo do Livro, 1989.

            Tendo sido um tema largamente explorado pela literatura, cinema e mesmo música, o Far West, ou faroeste – como é chamado no Brasil – é um vasto território que nem sempre fora o mesmo em extensão. Uma no man’s land que, apesar de seus mistérios, era também repleta de promessas, onde milhares de colonos tentaram a sorte, principalmente a partir da segunda metade do século XIX. Muito do que se sabe – tendo embasamento verídico ou não – chega às mãos da maioria do grande público principalmente através das representações do cinema, desde os clássicos de John Wayne aos icônicos Spagethi Westerns de Sergio Leone e outros, mas muito do conhecimento sobre o período permanece obscuro para esse mesmo público, que recebe nestas produções cinematográficas dezenas de estereótipos fetichistas, desde jogadores e prostitutas a cowboys destemidos portando suas Peacemakers (Colt .45) e fazendo justiça a seu modo. Para o preenchimento de várias destas lacunas, a presente obra, O faroeste, é uma obra de extrema competência.
            Claude Fohlen, então professor de história dos Estados Unidos na Sorbonne na época em que este livro foi lançado (1974, no original), trouxe em uma obra propositalmente generalista, uma compilação de assuntos pertinentes à expansão dos Estados Unidos rumo ao Oeste. O período conhecido como Faroeste possui um recorte geográfico e temporal bem específico, segundo o autor: tem como fronteira com o leste o vale do Mississipi, e tem como recorte temporal os trinta anos entre 1860 e 1890, por vezes transitando antes e depois desse período.
            A obra, parte da coleção A vida cotidiana, tem uma divisão muito clara de temas no decorrer de seus capítulos; assume-se como uma obra introdutória à vastidão de temas cujo aprofundamento é pouco neste caso. Apesar disso, sua fácil leitura e didatismo dão a impressão de que a obra é muito mais completa do que o próprio autor a julga.
            De início, Fohlen discute seu recorte geográfico. Planícies áridas, ventos bravios e vegetação escassa marcam boa parte deste território, onde as variações de temperatura são consideráveis e acidentes imprevisíveis, como nuvens de gafanhotos e tempestades de areia devastam tudo o que encontram pelo caminho. Tais condições, associadas à dificuldade de se chegar a tais territórios – suprimida a partir das construções das grandes ferrovias – fez dessa vasta região um local de baixa densidade demográfica, a despeito das inúmeras propagandas no leste sobre as possibilidades que o oeste oferecia; este considerado uma espécie de Eldorado, teve o seu povoamento não apenas batalhado por agentes imobiliários, mas também facilitado pelo governo. Como resultado, um sem-número de imigrantes foi despejado no Velho Oeste, ávido por povoamento, através das estradas de ferro.
            Conforme dito anteriormente, os temas no livro são bem divididos. Ao fim da introdução, Fohlen começa debatendo o trajeto até o Oeste e o trânsito na região, tanto através de diligências quanto a partir da criação das principais estradas de ferro, como a Union Pacific, Southern Pacific, Northern Pacific, entre outras. Na sequência, o autor parte para análises mais focadas no cotidiano, dedicando os capítulos seguintes aos mineiros, colonos, cowboys e índios, propondo-se a desmistificar muito da imagem consolidada destes indivíduos pelo cinema e outras vias de entretenimento.
            A violência nas cidades – e mesmo a concepção destas cidades – também são abordadas. Claude Fohlen defende a tese de que o Oeste era, de fato, um lugar onde a violência tinha lugar, e onde as disputas entre Desperados e Vigilantes era constante. Linchamentos e enforcamentos eram – no quanto for possível afirmar – corriqueiros e, na mentalidade dos colonos, mesmo necessários. Uma forma de justiça palpável e ao alcance, alívio em um mundo de incertezas onde qualquer indivíduo poderia carregar um revólver no coldre. A vida e a morte, trabalhadas no capítulo VII, fazem um paralelo com tais temas. Fohlen adentra no campo do privado, discutindo a habitação, a alimentação e a saúde, já que pouco se sabe de concreto a respeito. A fé, as crenças destes indivíduos, o ensino, o lazer, muitas são as questões do cotidiano que o autor traz a tona, e a despeito do caráter generalista que a obra possui, o trabalho é muito bem executado.
            Independente de abordar aspectos gerais do Far West, sem, no entanto, se aprofundar nos meandros de nenhum deles pela proposta da obra, o livro é altamente recomendado a qualquer entusiasta do período, não apenas a historiadores. Pessoalmente, não é de meu conhecimento uma vasta bibliografia sobre o período traduzida para o português; logo, este livro é possivelmente a melhor porta de entrada ao tema para o leitor de língua portuguesa. Os livros da coleção “A vida cotidiana” estão há muito esgotados no Brasil, mas ainda é possível encontrá-los em sebos. A reedição de tais obras seria de suma importância para o contato dos historiadores brasileiros com temas diversos, tendo como escopo questões relativas ao cotidiano de diversos períodos e recortes geográficos.
            Para todos que possuem interesse no “faroeste” ou se interessem pela história dos Estados Unidos, este livro é leitura obrigatória.


Preço médio: Esgotado (recomendamos uma busca no site Estante Virtual)

LEIA OUTRAS RESENHAS DE LIVROS DA COLEÇÃO A VIDA COTIDIANA:

23 de março de 2012

Piedade sangrenta: a legitimação da tortura na caça às bruxas na Europa

Enquanto tento achar algum tempo para resenhar um livro lido há alguns meses, trago a vocês meu artigo publicado na revista Alétheia, focada em estudos da Antiguidade e Idade Média. O tema do artigo, como o título explicita, é relativo ao uso de tortura nos processos de bruxaria durante o auge da dita "Caça às bruxas". Quais os principais argumentos que permitiam que a tortura fosse socialmente aceita (e por que não dizer desejada) em âmbito geral? Tentei responder a essa questão com este artigo, que foca menos nas execuções e mais nos suplícios antes da morte.

A edição da revista pode ser conferida AQUI. O artigo em questão consta na página 177.

9 de janeiro de 2012

Ray Raphael - Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos


RAPHAEL, Ray. Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos: a verdadeira história da independência norte-americana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Os Estados Unidos é um país onde demonstrações de patriotismo eclodem com alguma frequência, e são exportadas ao redor do globo através do cinema, música e outras formas de comunicação e/ou entretenimento. Tais demonstrações se tornaram ainda mais frequentes após os atentados às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001. Muito desse patriotismo exposto de forma orgulhosa está alicerçado na história da independência do país, repleta de exemplos de atos heróicos, atitudes visionárias e uma força de vontade acima do normal para encarar a nação que era, no período, o maior império do mundo.

Contudo, as diversas histórias a respeito da independência dos Estados Unidos do jugo britânico estão repletas de floreios e distorções que as transformaram em histórias palatáveis ao grande público. É este o assunto desta obra brilhante, escrita por Ray Raphael, Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos. Seu principal objetivo é demonstrar, através de intensa pesquisa documental, que os mitos a respeito da fundação do país são, em sua maior parte, construções oriundas do século XIX, contaminadas pelo romantismo do período. Tal romantismo transformou indivíduos em heróis e visionários, sendo essa construção positivista romântica do heroísmo individual muito mais atrativa e construtora de um sentimento de orgulho do que um processo histórico formado por conjecturas e cujo protagonismo é coletivo.

Os capítulos do livro se dedicam, cada um, a um mito em especial, mas alguns deles têm traços em comum. Temos exemplos de mitos oriundos da transposição de histórias, condensadas em uma única história com os elementos mais agradáveis ou convenientes (o caso de Molly Pitche, do capítulo 2), mitos sobre ações atribuídas a indivíduos cujo protagonismo é elevado sobre o povo (a cavalgada de Paul Revere, Sam Adams, o discurso de Patrick Henry), o maniqueísmo entre os colonos bons e o colonizador mau, o mito da inferioridade material e numérica dos colonos frente ao império britânico, a mitificação de eventos em detrimento de outros (como Valley Forge), o papel dos indígenas e dos negros, entre outros. O que os mitos têm em comum, nesse caso, é que todos eles foram construídos de uma forma simplificada, objetivando despertar sentimentos patrióticos e de cidadania, a partir de exemplos de esforços individuais que, segundo os mitos, foram determinantes para o sucesso da independência; transforma os ancestrais dos estadunidenses em verdadeiros heróis excepcionais, diante de tão árduo desafio. Estas mitificações apresentam uma série de problemas, os quais Raphael aborda de forma didática, simples e objetiva.

Alguns pontos de maior importância devem ser destacados na análise de Raphael sobre os mitos da independência. O autor muitas vezes bate na tecla sobre o protagonismo do povo na revolução. Homens como Thomas Jefferson, ao qual a Declaração da Independência é creditada – sendo algo que veio do indivíduo apenas –, tornam-se símbolos, e neste processo o papel dos homens comuns é deixado em segundo plano. Para aprofundar o exemplo citado, Raphael argumenta que a declaração nem sequer fora a primeira, haja vista que alguns estados já haviam feito as suas, e a maior parte dos elementos dos quais os estadunidenses se orgulham tiveram uma inspiração gigantesca de filósofos europeus, como John Locke. O perigo desse tipo de romantização do processo é que o papel do povo como construtor dos processos históricos é colocado em segundo plano; tal processo, de caráter nacionalista e positivista, mostra o povo como passivo, necessitado de líderes cuja ausência não permitiria que a independência pudesse seguir seu curso. Algo antidemocrático, que ao invés de inspirar o indivíduo a tornar-se agente ativo na sociedade, o condiciona a lideranças que lhes ditem as ações.

O maniqueísmo presente no mito, que romantiza o colono em desvantagem numérica reagindo à brutalidade britânica ou suportando passivamente as intempéries, é também prejudicial. Ao contrário do que se tenta fazer crer, histórias como as do inverno em Valley Forge – onde os soldados teriam resistido resignadamente ao rígido inverno entre 1777 e 1778 – estão repletas de uma imensa complexidade, relegada á segundo plano em detrimento de uma história moralizante de resignação diante não apenas do inimigo estrangeiro, mas da implacabilidade da natureza. Os combatentes, cujas necessidades alimentares e de vestuário eram constantemente negligenciadas pelo governo, se viam diante da necessidade de saques e mesmo da deserção, e lutavam por direitos e melhores condições; tal luta algo que nem de longe deveria ser motivo de vergonha, mas os mitos que apagam tais eventos os tratam como se houvesse, de fato, motivo para se envergonhar.

A obra de Raphael deveria ser lida por todo cidadão dos Estados Unidos. Os mitos fundadores do país estão de tal forma entranhados no cotidiano do país que tal esforço em forma de livro dificilmente teria um grande efeito desestabilizador. Apesar disso, a mensagem que o autor deixa clara por mais de uma oportunidade no decorrer da obra é que as verdades por trás dos mitos não são motivo de vergonha ou tiram o crédito dos colonos e revolucionários do período, muito pelo contrário. Demonstrar a complexidade dos processos que culminaram na independência e o desenrolar deste acontecimento coloca o povo no centro da questão, humaniza os personagens e mostra ao cidadão que a luta coletiva e a democracia, mais do que seguir líderes visionários, parte da coletividade. Como Raphael diz em sua conclusão, “o debate contencioso é mais adequado ao funcionamento de uma sociedade democrática do que a recitação decorada”. Ao invés do apego a exemplos excepcionais e histórias polidas, o autor propõe o debate e a deliberação coletiva das questões pertinentes aos cidadãos tal como era feito no passado.

Para complementar o pensamento, cito ipsis literis o último parágrafo da obra:

Quem controla a narrativa, controla a história. Essa é uma mensagem poderosa. Os que a ignoram permanecerão cegos para a manipulação dos outros, mas os que a aceitarem, como o povo na Revolução Americana, serão capazes de questionar o abuso de autoridade e assumir o controle do seu destino.

Leitura obrigatória para qualquer historiador e indicado a entusiastas, exceto àqueles que possuem uma aversão absoluta aos Estados Unidos, seja lá por quais razões.

Preço médio: R$ 40,00


Obs: Adquiri o livro por R$ 12,90 na livraria Livros e Livros de Florianópolis (uma das duas filiais dentro da UFSC). Quem tiver acesso às promoções desta livraria, não perca.

7 de janeiro de 2012

Paul Larivaille - A Itália no tempo de Maquiavel


LARIVAILLE, Paul. A Itália no tempo de Maquiavel: Florença e Roma. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

O Renascimento italiano é um tema singular que instiga a curiosidade de muitos, e já foi objeto de estudo de alguns historiadores de renome. Ainda no século XIX, Jacob Burkhardt dedicara um livro ao período na Itália, que veio a ser tornar referência no assunto. Já no século XX, o tema foi tratado à exaustão, e a questão a respeito do recorte geográfico desse dito “renascimento” transpassar ou não as fronteiras dos estados que viriam a formar o que conhecemos hoje por Itália, no século XIX permaneceu. O inglês Peter Burke é outro exemplo de historiador renomado que aborda o tema, tecendo, inclusive, críticas a Burkhardt por conta deste último defender a idéia de um Renascimento localizado – na Itália, como pode-se supor.

A presente obra analisada de autoria de Paul Larivaille, especialista no Renascimento italiano, faz parte de uma coleção intitulada A vida cotidiana, que possui outros livros de grande qualidade, como No tempo dos cavaleiros da Távola Redonda, de Michel Pastoreau e O Faroeste, de Claude Fohlen. Como o título da coleção dá a entender, a obra não se limita a discutir apenas os pontos mais previsíveis do período trabalhado – aproximadamente entre 1420 e 1530 –, como as relações de poder entre as famílias, o papado ou as artes, mas também problematiza as camadas mais pobres e sua participação nessa vida cotidiana, que não pertenceu apenas aos palácios dos príncipes.

Apesar de tal proposição abrangente, era de se esperar que, também por uma questão de facilidade com relação ao acesso às fontes, a obra reservasse grande espaço aos temas mais previsíveis apontados acima. Ganham destaque os diversos jogos de política da Itália do século XV; em vários capítulos a família Médici, principalmente Lourenço, o Magnífico, além da Igreja – principalmente durante o pontificado de Rodrigo Borgia, então Alexandre VI – têm grande destaque na narrativa. A corrupção, não apenas durante o período em que Alexandre VI fora papa, mas também o período anterior e posterior ao seu comando da Igreja, ganha um capítulo próprio, inclusive fazendo alguma relação com a vindoura reforma.

Larivaille não se esquece do importante papel dos mercadores e banqueiros, aos quais um capítulo também é dedicado, assim como aos artistas. Maquiavel, cujo nome estampa o título da obra, também tem um capítulo dedicado a si, que pretende discutir não apenas o senso comum a respeito do personagem, mas também se dedica a discutir o papel do intelectual no contexto que o livro trabalha.

Os últimos dois capítulos, acrescidos da conclusão, voltam seu foco para as classes subalternas, trabalhando a relação entre a plebe e a nobreza, o campo e a cidade, e a discussão a respeito do que é mito e o que é realidade na condição do camponês. Trata, também, do papel dos indivíduos da família na sociedade, e sabiamente desmistifica os ideais de pais de família, mulheres e etc, baseados em documentos mais voltados para deleite de famílias abastadas do que compromissados com a realidade cotidiana, principalmente das classes menos favorecidas socialmente.

Em suma, a obra de Paul Larivaille mostra uma Itália paradoxal; ao mesmo tempo em que mostra a fragilidade das estruturas políticas e militares diante da intervenção de grandes nações vizinhas e à mercê das mesmas, mostra como banqueiros e comerciantes eram proeminentes no comércio europeu, e como, à sua maneira, os estados triunfaram sobre as ameaças externas no desenvolvimento das artes e das letras, que reforçavam uma suposta superioridade local, em contraste com o barbarismo e grosseria dos estrangeiros Um contexto onde a subjugação militar não ultrapassa os limites da cultura e da economia, sendo tanto a primeira quanto a segunda formas de resistência e unidade diante da ameaça externa.

Um livro que não se perde nem em bajulação, nem em detração gratuitas ou exageradas, A Itália no tempo de Maquiavel é uma leitura obrigatória para qualquer historiador que anseie entender melhor a sociedade onde o “Renascimento” tomou forma. Para leitores casuais, o livro pode ser de difícil digestão em sua totalidade, mas a variedade de temas e capítulos fornece uma ampla gama de leituras localizadas que podem despertar interesse.

Preço: Esgotado
(Sugerimos uma busca no site Estante Virtual)

6 de outubro de 2011

Maria Bernadete Ramos Flores - Os espanhóis conquistam a Ilha de Santa Catarina

FLORES, Maria Bernadete Ramos. Os espanhóis conquistam a Ilha de Santa Catarinana: 1777. Florianópolis: Editora da UFSC, 2004.

Utilizando-se de trabalhos já conceituados da historiografia sobre Santa Catarina, além de fontes documentais precisas, a professora do departamento de História da UFSC Maria Bernadete Ramos Flores lançou, em 2004, a obra Os espanhóis conquistam a Ilha de Santa Catarina. O livro em questão faz parte da Coleção Rebento, organizada pela professora  Élio Cantalício Serpa, com outros livros sobre a história de Santa Catarina.

Desde o início, deve-se ter claro que a intenção da autora não foi fazer um trabalho estritamente acadêmico, mas sim, algo que possa atingir um público mais amplo. Sua escrita é de leitura agradável e flui com naturalidade, dialogando com os documentos e dando vida aos personagens das narrativas, todos eles verídicos. A autora, inclusive, discute tal opção ao fim do livro. A escolha do título tem o mesmo objetivo; não existia Espanha como nação unificada em 1777, fora o então reino de Castela que perpetrou a conquista da ilha que viria a se tornar o município de Florianópolis.

Tentando trazer a tona a confluência de motivos e acontecimentos que culminaram na conquista da ilha, Maria Bernadete trabalha com a correspondência e os documentos oficiais da época – as fontes que restaram – para reconstruir, passo a passo, a chegada da frota espanhola. Mostra as lacunas causadas pela demora entre as comunicações e a divergência de informações entre as partes envolvidas. Dizia-se que havia um contingente militar maior do que realmente havia para a defesa da ilha e nas fortalezas construídas para tal fim. A Ilha era um local estratégico importante para ambas as coras – portuguesa e espanhola –, pois tratava-se de um local onde as naus poderiam aportar vindos das capitanias ao norte rumo à Sacramento, Rio da Prata, entre outros. Para os espanhóis, era um local onde as penúrias da travessia do atlântico poderiam ser aliviadas.

A conquista ocorreu sem maiores empecilhos. Não houve resistência de um só homem, e as bandeiras de Castela foram hasteadas por todos os cantos. Durante um ano e meio a coroa espanhola teve posse da Ilha, até que um acordo entre Dona Maria I e Dom Carlos III – a primeira sobrinha do segundo – devolvesse a Ilha a Portugal. A autora tenta tratar tanto o período anterior à conquista quanto posterior, abordando aspectos como, por exemplo, o povoamento da Ilha e os relatos sobre seu cotidiano por parte de viajantes.

Dentro de sua proposta, Maria Bernadete obteve êxito com a obra. De fácil leitura, o livro pode ser devorado em questão de horas por qualquer leitor interessado no tema. Traz durante o corpo do texto uma extensa quantidade de transcrições de documentos, que aumentam a sensação de uma narrativa literária, contribuindo para sua apreciação, além de informar detalhadamente a localização dos documentos utilizados na pesquisa. Eis uma página da história de Santa Catarina que a grande maioria de sua população desconhece por completo. Indicado para quem tem interesse na história do estado e na colonização açoriana.
Preço médio: R$ 15,00

3 de outubro de 2011

Matthew Restall - Sete mitos da conquista espanhola

RESTALL, Matthew. Sete mitos da conquista espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.


Quando a história dos povos ditos “pré-colombianos” não é totalmente ignorada por escolas ou até mesmo o ensino superior, geralmente ela é permeada de pontos pacíficos. Trabalha-se, por exemplo, com o pressuposto que os espanhóis foram confundidos com deuses pelos astecas e que a ingenuidade nativa contribuiu para sua ruína. Superestima-se a potencialidade do uso da pólvora e dos cavalos, além de vermos os espanhóis como um grupo de bravos soldados da coroa castelhana que, comandados por líderes excepcionais e visionários, conseguiram sobrepujar os nativos.

Tal perspectiva de superioridade – esta quase encarada como natural – é algo que acompanha histórias nos mais diversos países e nas mais diversas épocas. Tais narrativas estão sempre carregadas de um discurso oriundo daqueles que dominam ou obtém êxito no conflito em questão. E na história da conquista espanhola nas Américas, isso não é diferente.

Eis que Matthew Restall, professor da Pennsylvania State University, especialista em estudos latino-americanos (e como algumas de suas obras deixam claro, no império Maia), traz em sua pesquisa uma obra magistral que, com excelentes argumentos e embasadas em fontes escritas tanto espanholas como nativas, gravuras, relatos de intelectuais, entre outras, derruba muitos dos argumentos até então tomados como válidos no que tange à conquista espanhola. Quando não os derruba, ao menos os esmorece, questionando seu status de verdade absoluta.

Em Sete mitos da conquista espanhola, Restall imerge nas fontes e obras já escritas a respeito do tema para desmistificar tal conquista, separando os “sete mitos” por capítulos. No primeiro, o autor trabalha o mito de que os conquistadores eram homens excepcionais, cujos líderes eram brilhantes estrategistas e verdadeiros visionários. Não apenas isso; mostra, apoiado em argumentos sólidos, que nem mesmo Colombo era o homem excepcional que até hoje é mostrado quando o assunto é o descobrimento das Américas. Não era Colombo um gênio solitário que percebera, ao contrário dos seus contemporâneos, que a Terra era redonda; todos os europeus cultos do período, ou ao menos sua grande maioria, compartilhavam de tal tese. Mostra como o mito do navegador, de nacionalidade ainda não confirmada, foi construído, em parte, através de seus próprios escritos, firmando-se principalmente no mundo anglófono do século XIX.

A seguir, Matthew Restall derruba o mito de um exército organizado por parte da realeza castelhana. Os conquistadores espanhóis nada mais eram que homens – alguns de posses, outros não – que recebiam concessões para o empreendimento nas Américas em busca de uma vida melhor. Não havia sequer exércitos “estatais” no período para que tal hipótese tivesse fundamento, algo que teve início apenas no século XVIII.

O terceiro mito é o do conquistador branco. Sabe-se há muito tempo que os espanhóis tiveram um apoio massivo de nativos americanos na derrocada dos Astecas, por exemplo. Contudo, a importância de tal participação costuma aparecer minimizada nas fontes do período. Mais ainda, Restall traz à tona trabalhos anteriores ao seu e fontes que mostram que os espanhóis tiveram uma valiosíssima ajuda de negros, em sua maior parte escravos. Negros lutaram nessa conquista, sendo sua participação crucial para seu sucesso; mas sua participação caiu no esquecimento, graças ao mito do conquistador europeu branco, que tratava a si mesmo como excepcional para legitimar sua presença nas Américas e justificar as concessões régias.

O mito seguinte é o da falha na comunicação entre europeus e astecas. O autor admite que falhas existiram, e certamente não foram poucas, mas mostra que a aplicabilidade de tal análise é deveras vaga, ao mostrar a miríade de relatos sobre casos em específico, onde em cada relato há alguma mudança, seja ela na descrição dos acontecimentos ou em sua interpretação.

Os dois capítulos seguintes abordam os mitos relativos à desolação nativa e o da superioridade espanhola. Os mitos acerca dessas questões mostram os nativos não apenas como ingênuos e incivilizados, mas brutais; a vida dos servos de tais impérios era curta e miserável, e a conquista trouxe, até certo ponto, benefícios aos “bárbaros” do Novo Mundo. Restall mostra como os nativos foram resistentes à dominação, e o quantose adaptaram à presença espanhola, barganhando e tecendo estratégias de assimilação e sobrevivência; mostra uma perspectiva  completamente diferente da passividade que outros autores, em outras épocas, ressaltaram: a de uma dinâmica entre povos muito diferente da clássica dinâmica entre “conquistadores e conquistados”, “vencedores e perdedores”. Mostra, portanto, que tal conquista nunca foi completa.

Este livro deve ser lido por qualquer historiador, mesmo que tais temas nada tenham a ver com as áreas de interesse do mesmo. Ainda que seja, em parte, uma compilação de trabalhos anteriores, tal obra é de valor inestimável, não apenas ao derrubar mitos da conquista por terra, mas mostrar aos mais desatentos as armadilhas da interpretação de fontes e relatos, do esmero que deve ser dispensado ao trabalhar com relatos, e de como é possível desconstruir discursos arraigados e tomados como verdade absoluta na historiografia. Obrigatório.

Preço médio: R$ 39,90

27 de março de 2011

Peter Burke - Hibridismo cultural

BURKE, Peter. Hibridismo cultural. São Leopoldo; Editora Unisinos, 2008.


Em um mundo onde os termos “globalização” ou “mundialização” nos batem à porta com elevada frequência, questões acerca de encontros culturais, nos mais diversos cantos do globo, são mais do que pertinentes. Neste caso, poucos seriam mais gabaritados a tratarem do assunto do que Peter Burke. Em Hibridismo cultural, Burke trata das questões acerca das trocas culturais, as quais vemos todos os dias mas muitas vezes sequer percebemos.

Na obra em questão, Burke não tenta glorificar o hibridismo cultural, que a intitula, tampouco tenta ser seu detrator. Reservando-se apenas à função de analisar o tema, Burke faz uso de uma miríade de autores, de historiadores a antropólogos, que trabalharam com o tema em outras oportunidades, condensando muitas de suas argumentações. Novamente a admiração de Burke por Gilberto Freyre é escancarada, sendo o brasileiro um dos autores com os quais Burke dialoga em Hibridismo cultural.

Em sua análise a respeito dos intercâmbios culturais, Burke separa muito bem os pontos a serem tratados individualmente. Após uma elucidativa introdução, o autor prossegue a discussão analisando a priori os objetos. A língua, a música, a iconografia... A miríade de objetos sob os quais um olhar pode ser lançado com o objetivo de se analisar as trocas culturais é vasta, assim como as terminologias a serem usadas por quem os analisa. As variedades de reações causadas por esses contato cultural e algumas das situações que mais permitem as trocas são, também, discutidas pelo autor. Assim como outro autores no passado – como Mikhail Bakhtin e Carlo Ginzburg –, Burke trabalha com a idéia de circularidade cultural. Assim como uma cultura pode ser passada de uma população para outra (apenas um exemplo), um objeto (por exemplo, a iconografia presente nas peças de porcelana, tal qual Burke cita no livro) pode ser associada, modificada pelas particularidades locais, sejam elas semelhantes às particularidades originais ou não, e acabar voltando ao ponto de origem, influenciando a cultura da qual saiu por conta de seus novos atributos, inseridos pela cultura que a recebeu.

Trata-se de um livro pequeno, que pode ser facilmente lido em uma única tarde. Como sempre, os textos de Burke fluem facilmente e todas as argumentações são apresentadas com extrema clareza. É uma excelente obra para qualquer historiador, antropólogo ou sociólogo interessado no assunto, e pode servir de ponto de partida; sua leitura facilita a compreensão dos autores citados no texto, com os supracitados Ginzburg e Bakhtin. Altamente recomendado.

Preço médio: R$ 15,00

LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR:
Testemunha ocular
A escola dos Annales

8 de fevereiro de 2011

Maria Izilda de Santos Matos - Âncora de Emoções

ESTA RESENHA FOI ESCRITA POR FABIO ANTONIO COSTA

MATOS, Maria Izilda de Santos. Âncora de Emoções: Corpos, subjetividades e sensibilidades. São Paulo: EDUSC. 2005.



SOBRE A AUTORA

Maria Izilda Santos de Matos possui uma extensa vida acadêmica, sendo graduada em História pela USP no fim dos anos de 1970, posteriormente seguindo nos cursos de Pós-Graduação na década seguinte, produziu também importantes obras e ministrou várias exposições. Atualmente, leciona para conceituadas faculdades de São Paulo e também em outros estados.

ÂNCORA DE EMOÇÕES
Publicada em 2005 pela editora EDUSC, o livro Âncora de Emoções pode ser dividido em duas partes principais, que segundo a autora, são originárias de outros dois projetos anteriores.
No início da obra, MATOS discorre sobre as inúmeras possibilidades que os Historiadores ou estudiosos da área têm em seu leque de opções, como a aprendizagem proporcionada pela música (p. 30) que pode discorrer acerca da própria cultura e como é o grau de penetração dessa em nossa sociedade, por ela também é apresentado outros recursos, como cinema, teatro ou publicidade, típicos da multidisciplinaridade da História (p. 18).

A “padronização da sociedade” pela burguesia emergente do início da República que se instalava no Brasil, ou mais especificamente o homem visto como o de “padrão universal” (p. 24) são influenciador e influência para alguns discursos, destaca-se aqui o reproduzido pela medicina ou pelas músicas que circulavam nas noites dos anos de 1940/50 na antiga capital do Brasil, que moldavam a visão da sociedade para as mulheres, sempre procurando moldar a imagem da mulher em relação ao homem, em exemplos como a diferença de discurso dos médicos quando homens e mulheres tinham enfermidades semelhantes (p. 33) ou quando a própria é usada para manter a hegemonia masculina. MATOS pontua acerca da finitude das hierarquias, em especial a masculina (p. 25), que ao acontecer fragiliza o movimento que esta sociedade tende a seguir, mas que por outro lado, revelam facetas pouco exploradas, como a invisibilidade da esfera feminina e o “adestramento” do corpo das mulheres em um passado não muito distante.

Impulsionada pela expansão do café principalmente no período que vai de 1890 até 1930, a cidade de São Paulo sofreu uma vertiginosa mudança em sua sociedade, neste aspecto acompanhou mudanças, que se não criadas foram minimamente aceleradas. Neste contexto a Igreja, Estado e Medicina disciplinam a sociedade (p. 58), e como o discurso de definição de papéis, em que cabe ao homem o papel de “provedor” e da mulher o papel da “maternidade”, a Medicina impunha seu discurso, mesmo que de modo não unificado, e muitas vezes, divergente (p. 46).

Nestes discursos médicos baseados no Cientificismo, ao homem ficaria o espaço público, onde ele deveria trabalhar e sustentar a família, e seguindo todas as obrigatoriedades que teria que fazer como não se entregar a ociosidade e mesmo em uma época de grandes agitações como as greves de 1917, ele deveria manter-se em atividade, pois o padrão de masculinidade estava no trabalho (p. 69), o álcool também não era bem visto, pois poderia ferir o papel do “homem-padrão”.

Cabia a mulher uma função mais vinculada a ideia de afazeres domésticos, não sendo bem vistas na sociedade posições contrárias a esta. Sua função reprodutora era o viés de suas atribuições como seu útero e seu ovário “que a definem melhor” (p. 53), a profissão de Amas-de-leite e o fim da vida sexual após a fase fértil da vida eram recomendações da esfera pública “masculina” que nitidamente, alcançavam a esfera privada “feminina”.

Em Copacabana dos anos de 1930 até 1950, em um clima de tensão entre o tradicional e o novo (p. 99), MATOS explora a biografia de quatro importantes artistas do cenário musical brasileiro; Antonio Maria (Recife, 1921-1964), Dolores Duran (Rio de Janeiro, 1930-1959), Lupicínio Rodrigues (Porto Alegre, 1914-1974) e Vicente Celestino (Rio de Janeiro, 1894-1968). Em comum entre estes emblemáticos artistas, é sentida em suas obras a “troca” de experiências e sensações entre o público e os autores (p. 92), face ao glamour da sociedade que a época proporcionava a Copacabana.

Nestes artistas, especialmente Antonio Maria e Dolores Duran, o centro da atenção era o amor, sempre sofrido, difícil e triste (p. 107, 151) e a partir disso, MATOS concluiu que os papéis dos gêneros – masculino e feminino – nesta sociedade eram moldados. A ideia do autoritarismo nas letras (p. 138) e a positivação do masculino frente ao feminino (p. 156) demonstram as obrigações que eram impostas em um dos vários meios de comunicação de massa, às pessoas que participavam dessa sociedade. Sem ausentar, por outro viés, a própria história de vida dos mencionados artistas que acarretam suas personalidades em suas obras.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Âncora de Emoções traz a luz novas formas de investigação, quais sejam, as proporcionadas nesta obra, sendo a partir da contribuição das músicas e os discursos médicos, o entrelaçamento dos discursos da cidade de São Paulo do início do período republicano do Brasil embora temporal e espacialmente distante da cidade do Rio de Janeiro que compreende os anos de 1930 até 1950, e é assumida como no caso das músicas da antiga capital do Brasil.

Compreender e chegar-se a tal conclusão nesses novos campos de investigação é uma das importantes contribuições que Maria Izilda Santos de Matos faz em sua obra, pois a discussão de gênero como o discurso do gênero masculino para dominação do gênero feminino presente na ciência médica da cidade de São Paulo alcança e é assumida em algumas mídias décadas depois na cidade do Rio de Janeiro, principalmente Copacabana, considerada a high society da época. Este entrelaçamento, que antigamente não seria possível de se compreender, é em Âncora de Emoções elucidado, pois o mesmo discurso normatizador encontrado em São Paulo é reconstruído no Rio de Janeiro, e quem saísse em ambas às sociedades destes discursos que buscavam separar as funções sociais e do lar para homens e mulheres, portanto uma discussão de gênero estaria fora dos padrões, sendo considerado um “desviado” de sua função original.

O discurso de determinados grupos, como o burguês, religioso, masculino ou cientifico, que são absorvidos por variadas camadas da sociedade, como no caso dos próprios lares que receberem tais discursos ou de cantores como a própria Dolores Duran, que carregava nas letras de suas músicas muito da essência dos discursos médicos de São Paulo das décadas anteriores, são introjetados de tal modo, que os próprios receptores de tais discursos são, em certo ponto, propagadores dos mesmos discursos.

Em suma; um dos objetivos da obra, que é estabelecer a discussão de gênero entre o masculino e o feminino e acerca de duas sociedades diferentes no tempo e espaço, mostra-se muito elucidador, pois, os próprios papéis dos gêneros masculino e feminino que nestas sociedades pelos discursos estavam moldados em funções aparentemente biológicas, obedeciam a interesses que buscavam manter posições de determinados grupos nestas importantes sociedades do Sudeste Brasileiro, sendo de maneira aparentemente vinculada a um padrão mais tradicional, e de certa maneira bem recebido pelos participantes destas sociedades, mas brilhantemente elucidado na obra de Maria Izilda Santos de Matos.

Preço médio: R$ 40,00

1 de janeiro de 2011

Miranda Twiss - Os mais perversos da história

TWISS, Miranda. Os mais perversos da história. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2005.


O mal, independente das implicações e até mesmo das subjetividades da palavra, de acordo com o contexto cultural e outras questões, é algo que curiosamente desperta interesse em muitas pessoas. Os motivos podem ser dos mais diversos; desde o simples aprendizado ao entretenimento ou até mesmo admiração, a maldade dos indivíduos chama a atenção e causa tanto espanto quanto curiosidade. E é justamente essa curiosidade – ou qualquer outro motivo citado ou não citado – que é aguçada pela leitura da presente obra, Os mais perversos da história.

Miranda Twiss, que é formada em história e inglês pelo Goldsmith’s College, da Universidade de Londres, reservou nesse livro espaço para os homens e mulheres que julgou os mais perversos da história. Percebe-se logo de início, ao ler o índice, que a maioria das pessoas citadas foram governantes ou possuíam prestígio político, e não necessariamente cometeram diversos assassinatos pessoalmente. Contudo, foram responsáveis, sejam por ordens diretas ou por suas políticas, pela morte de muitas pessoas. Em alguns casos, nem mesmo um número aproximado de mortes é possível.


Os personagens são apresentados de forma cronológica, começando por dois imperadores romanos: Calígula e Nero. Explorando a megalomania e as extravagâncias de ambos, Miranda Twiss apresenta alguns dos acontecimentos mais bizarros relacionados a essas figuras. O mesmo se repetirá no decorrer do livro.


Em seguida, a autora passa por Átila, o Huno, ressaltando o medo que o “flagelo de Deus” impunha aos seus inimigos, e passando para o Rei João, da Inglaterra. Adiante, Twiss fala sobre Tomás de Torquemada, o inquisidor mais implacável da história da Inquisição Espanhola, e passa a tratar posteriormente sobre Vlad Tepes, o empalador, príncipe da Valáquia, na atual Romênia e inspirador de Drácula, um dos mais famosos personagens da literatura em todos os tempos.


Indo para a conquista das Américas, a autora fala sobre Francisco Pizarro, conquistador dos Incas, relatando sua luta contra Atahualpa, um dos dois governantes do então dividido império e algumas das atrocidades dos espanhóis no continente. Em seguida, três governantes são tratados: Maria Tudor e a eliminação de centenas de protestantes, Ivã IV, também conhecido como Ivã, o Terrível e Elizabeth, condessa de Bathory, que entre outros epítetos, é também chamada de “condessa sanguinária”, possivelmente responsável, segundo muitos relatos, por mais de seiscentas mortes, pessoalmente ou com ajuda de seus capangas.


A seguir, dois capítulos dedicados à Rússia/União Soviética: Raspútin e Joseph Stalin. O primeiro, um monge cercado de mistério que influenciara o czar e sua esposa ao ponto de manipular o governo russo; o segundo, o oportunista ditador soviético responsável talvez pelo maior número de mortes já creditadas a um governante, ao menos recentemente.


Em seguida, é apresentado o mais conhecido de todos: Adolf Hitler. Sem fugir do período da Segunda Guerra Mundial, temos Ilse Koch, a “cadela de Buschenwald”, responsável pela tortura e morte de um grande número de prisioneiros neste campo de concentração, onde ordenava a retirada de suas peles para a confecção de abajures e outro itens. Por fim, Miranda trata sobre Pol Pot, um dos maiores genocidas do século XX e a desgraça social, econômica e cultural que este trouxe ao Camboja, e Idi Amin, o megalomaníaco ditador ugandense.


Para cada um dos indivíduos, Miranda Twiss trabalhou com uma média de três a cinco livros. Nenhuma fonte primária foi utilizada; Twiss limitou-se a fazer uma revisão bibliográfica de cada um dos personagens trabalhados. Fica claro que em cada um dos casos, o que a autora se propôs a fazer foi um artigo, baseado em alguns livros, fazendo uma história descritiva de cada um. Não há nenhuma grande problematização nos capítulos, mas felizmente a autora se preocupa em apontar que alguns relatos e conhecimentos acerca do indivíduo se misturam com lendas e relatos fantasiosos sobre seus feitos. Por fim, vale citar que alguns dos méritos destes personagens como governantes foram ressaltados, o que em nenhum momento toma destaque ou serve de justificativa para suas atitudes.


É um livro de leitura muito simples, rápida e instigante. É uma leitura agradável para entusiastas em história, ideal para despertar interesse em assuntos relativos aos indivíduos tratados (como suas políticas, as teorias que guiaram seus ideais, etc), mas seu conteúdo, por si só, pode ser considerado pobre academicamente. Os livros indicados na bibliografia para cada caso, embora todos em inglês, são mais recomendados a quem se interessar e tiver condições de lê-los.

Preço médio: R$ 45,90.