6 de outubro de 2011
Maria Bernadete Ramos Flores - Os espanhóis conquistam a Ilha de Santa Catarina
3 de outubro de 2011
Matthew Restall - Sete mitos da conquista espanhola
Quando a história dos povos ditos “pré-colombianos” não é totalmente ignorada por escolas ou até mesmo o ensino superior, geralmente ela é permeada de pontos pacíficos. Trabalha-se, por exemplo, com o pressuposto que os espanhóis foram confundidos com deuses pelos astecas e que a ingenuidade nativa contribuiu para sua ruína. Superestima-se a potencialidade do uso da pólvora e dos cavalos, além de vermos os espanhóis como um grupo de bravos soldados da coroa castelhana que, comandados por líderes excepcionais e visionários, conseguiram sobrepujar os nativos.
27 de março de 2011
Peter Burke - Hibridismo cultural
LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR:
Testemunha ocular
A escola dos Annales
8 de fevereiro de 2011
Maria Izilda de Santos Matos - Âncora de Emoções

1 de janeiro de 2011
Miranda Twiss - Os mais perversos da história

Os personagens são apresentados de forma cronológica, começando por dois imperadores romanos: Calígula e Nero. Explorando a megalomania e as extravagâncias de ambos, Miranda Twiss apresenta alguns dos acontecimentos mais bizarros relacionados a essas figuras. O mesmo se repetirá no decorrer do livro.
Em seguida, a autora passa por Átila, o Huno, ressaltando o medo que o “flagelo de Deus” impunha aos seus inimigos, e passando para o Rei João, da Inglaterra. Adiante, Twiss fala sobre Tomás de Torquemada, o inquisidor mais implacável da história da Inquisição Espanhola, e passa a tratar posteriormente sobre Vlad Tepes, o empalador, príncipe da Valáquia, na atual Romênia e inspirador de Drácula, um dos mais famosos personagens da literatura em todos os tempos.
Indo para a conquista das Américas, a autora fala sobre Francisco Pizarro, conquistador dos Incas, relatando sua luta contra Atahualpa, um dos dois governantes do então dividido império e algumas das atrocidades dos espanhóis no continente. Em seguida, três governantes são tratados: Maria Tudor e a eliminação de centenas de protestantes, Ivã IV, também conhecido como Ivã, o Terrível e Elizabeth, condessa de Bathory, que entre outros epítetos, é também chamada de “condessa sanguinária”, possivelmente responsável, segundo muitos relatos, por mais de seiscentas mortes, pessoalmente ou com ajuda de seus capangas.
A seguir, dois capítulos dedicados à Rússia/União Soviética: Raspútin e Joseph Stalin. O primeiro, um monge cercado de mistério que influenciara o czar e sua esposa ao ponto de manipular o governo russo; o segundo, o oportunista ditador soviético responsável talvez pelo maior número de mortes já creditadas a um governante, ao menos recentemente.
Em seguida, é apresentado o mais conhecido de todos: Adolf Hitler. Sem fugir do período da Segunda Guerra Mundial, temos Ilse Koch, a “cadela de Buschenwald”, responsável pela tortura e morte de um grande número de prisioneiros neste campo de concentração, onde ordenava a retirada de suas peles para a confecção de abajures e outro itens. Por fim, Miranda trata sobre Pol Pot, um dos maiores genocidas do século XX e a desgraça social, econômica e cultural que este trouxe ao Camboja, e Idi Amin, o megalomaníaco ditador ugandense.
Para cada um dos indivíduos, Miranda Twiss trabalhou com uma média de três a cinco livros. Nenhuma fonte primária foi utilizada; Twiss limitou-se a fazer uma revisão bibliográfica de cada um dos personagens trabalhados. Fica claro que em cada um dos casos, o que a autora se propôs a fazer foi um artigo, baseado em alguns livros, fazendo uma história descritiva de cada um. Não há nenhuma grande problematização nos capítulos, mas felizmente a autora se preocupa em apontar que alguns relatos e conhecimentos acerca do indivíduo se misturam com lendas e relatos fantasiosos sobre seus feitos. Por fim, vale citar que alguns dos méritos destes personagens como governantes foram ressaltados, o que em nenhum momento toma destaque ou serve de justificativa para suas atitudes.
É um livro de leitura muito simples, rápida e instigante. É uma leitura agradável para entusiastas em história, ideal para despertar interesse em assuntos relativos aos indivíduos tratados (como suas políticas, as teorias que guiaram seus ideais, etc), mas seu conteúdo, por si só, pode ser considerado pobre academicamente. Os livros indicados na bibliografia para cada caso, embora todos em inglês, são mais recomendados a quem se interessar e tiver condições de lê-los.
30 de dezembro de 2010
Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil

Esta resenha foi escrita por Fábio Antonio Costa
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil; organização de Ricardo Benzaquem de Araújo; Lilia Moritz Schwarcz. Edição revisada. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. Capa dura.
Lançada em comemoração aos 70 anos da primeira edição de Raízes do Brasil, está obra é dividida em duas partes, a primeira com o texto de Raízes do Brasil, próximo ao meio um acervo de fotos de Sérgio Buarque de Holanda e na segunda metade artigos de estudiosos no autor e sua obra.
Nos dois prefácios iniciais do livro[1] Holanda fala das mudanças que ele introduz na segunda edição (como a mudança do título Semeador e Ladrilhador) e no segundo prefácio as mudanças como o índice onomástico e o debate com Cassiano Ricardo. No primeiro capítulo do livro (Fronteiras da Europa) inicia-se com um estudo profundo do reino português e suas peculiares características, como um “território-ponte” descarregado do europeísmo de outras nações. Algumas características particulares são destacadas como próprias dos dois reinos ibéricos. Conceitos como a Cultura da Personalidade, as divisões entre as classes sociais menos rígidas como em outras partes, o conceito ócio/negócio, as precárias idéias de solidariedade e do conceito de cultura, que segundo Holanda só absorve outras que lhe convém, são apresentadas como algumas das várias características dos povos espanhóis e portugueses.
No capitulo 2 (Trabalho e Cultura) são discutidos dois aspectos do Brasil colonial; a valorização da figura do aventureiro (vinculada a idéia do português colonizador) e o oposto a figura do trabalhador. A partir do imaginário existente em Portugal, onde o trabalho não era bem visto na sociedade, como o próprio trabalho agrícola pouco valorizado na terra de El-rei pelas poucas almas lá presentes, ao contrário do Brasil, onde a maioria se constituía de negros e escravos. O capítulo finaliza com a influência holandesa no Recife (batizada de Nova Holanda) e a dificuldade dos Batavos de se adaptarem ao novo clima e habitantes.
Idéia próxima do capítulo anterior, neste (Herança Cultural) Holanda centraliza acerca das heranças adquiridas do Brasil por Portugal. Destarte, o destaque é a dicotomia cidade/campo, com a cidade (pobre) sendo apenas um anexo das atividades do campo (rico), destacando assim o poder do senhor rural. A escravidão no Império tinha um importante papel como fonte econômica do império. O fim do tráfico negreiro em 1850 obriga a mudança na economia brasileira por vias do capitalismo em sua modernização, como na construção da primeira estrada de ferro no Brasil (Mauá-Fragoso).
A separação entre Portugueses e Espanhóis é o tema central do quarto capítulo (O Semeador e o Ladrilhador). Aos Espanhóis (ladrilhadores) sobre as ordens do exclusivismo castelhano existia a ideia de uma linha reta (que ordenaria o mundo conquistado) e mais rígida que seus vizinhos da península. Em Portugal desde sua chegada a América, aproveitando-se da população indígena existente no litoral fazia pouco tempo e de baixa variação lingüística, os lusos em geral apenas partiam de um centro para construírem suas casas conforme o capricho dos moradores, assim como as mudanças costumeiras no reino Português. As bandeiras, a partir dos conceitos anteriores forneceram a silhueta posterior do Brasil.
A cordialidade dos Brasileiros é à base do capítulo 5 (Homem Cordial), nele Holanda discorre acerca das características dos Brasileiros, como a inhaeza no trato, hospitalidade, generosidade, apego aos diminutivos etc. Nos relatos posteriores do capítulo, como do estrangeiro da Filadélfia, em que os Brasileiros têm que serem amigos para negociar ou o interesse maior nos festejos que mesmo nos cultos reforçam a ideia do homem cordial.
O capítulo seguinte (Novos Tempos) alude sobre os rumos do Brasil naquela época. O título de doutor trazia “imunidade” e poder ao seu proprietário. Os positivistas considerados por Holanda “como uma raça que deu certo no Brasil” e a mudança da Monarquia para a República vinda de cima e na famosa descrição de Aristides Lobo enfatizam a ideia.
Um paralelo de idéias com o capítulo anterior é o tema do último capítulo de Raízes do Brasil (Nossa Revolução) com destaque ao Império Brasileiro. Com o fim da escravidão no Brasil acarretam-se outras mudanças, como a troca do engenho pela usina e uma maior democracia a partir do café, centros urbanos desestabilizando o arcaico sistema ultramarino e nossa curiosa participação na Guerra do Paraguai, mas por força que motivação dos participantes.
Na segunda parte do livro iniciam-se as homenagens acerca dos 70 anos de Raízes do Brasil, começando por fotos da vida de Holanda desde sua infância até próximo ao seu falecimento.
Antonio Candido (O Significado de Raízes do Brasil, 1967) compara a obra Raízes do Brasil com dois outros clássicos; Casa Grande & Senzala (Gilberto Freyre) e Formação do Brasil Contemporâneo (Caio Prado Jr.), atribuindo um caráter de maior importância ao escravo na primeira obra e marxista na segunda, disserta também como a direita Brasileira rejeita as obras nos primeiros momentos e finaliza com a ideia do contraste de impedir o dogmatismo, algo típico de Raízes do Brasil. Em 1986, Candido reescreve após Raízes de o Brasil completar 50 anos e enfatiza seu caráter popular. Alexandre Eulálio (Antes de tudo um escritor, 1986) faz uma leitura bibliográfica de Holanda, e destaca sua estadia na Alemanha, a faculdade Direito que Holanda cursou no Rio de Janeiro e a produção do texto Corpo e Alma do Brasil, que originou Raízes do Brasil. Evaldo Cabral de Mello traz importantes considerações como a influência da teoria da América, Weber, a sociologia alemã expressas em Raízes do Brasil e a obra Visão do Paraíso ser a pioneira da história das mentalidades no Brasil. Boliar Lamounier (Sérgio Buarque de Holanda e os grilhões do passado, 2006) enfoca a teoria culturalista de Raízes do Brasil, a clareza dos diagnósticos e entre outros, a flexibilidade do Portugal medieval, origem possível de um Brasil flexível. Antonio Arnoni Prado (No roteiro de Raízes, 2006) elucida a critica do Holanda aos modernistas e a visão do novo que Raízes do Brasil proporcionam ao leitor. Pedro Meira Monteiro (Buscando a América, 2006) centraliza-se na temporada alemã de Holanda. Robert Wegner (Um ensaio entre o passado e o futuro, 2006) disserta sobre a relação de Holanda e Gilberto Freyre, as aulas de Friedrich Meineche que Holanda assistiu e seu curso de Direito após a publicação de Raízes do Brasil. Uma das partes mais polêmicas do livro está na carta de Cassiano Ricardo (Variações do Homem Cordial, 1948), nela Ricardo disserta o conceito de Homem Cordial de Holanda profundamente, como a própria critica a este conceito e as mudanças feitas pelo próprio Holanda em Raízes do Brasil original, a ideia do Brasileiro conciliador e a inexistência do racismo no Brasil. Holanda no mesmo ano produz uma resposta (Carta a Cassiano Ricardo, 1948) em que chama de “interessantes” as considerações a Ricardo, faz uma discussão de bondade, refuta das fontes confusas de Ricardo e afirma que os Brasileiros não são piores ou melhores que qualquer outro povo. Rui Ribeiro Couto (El Hombre Cordiale, 1931) é a referência de Holanda do conceito de cordialismo, que segundo Couto é a contribuição latino-americana ao mundo da aventura Celtibérica. Corpo e Alma do Brasil, de 1935, é publicada na integra e a obra finaliza com uma detalhada cronologia de Holanda por Maria Amélia Buarque de Holanda ( produzida em 1979) e das muitas informações destacam-se a infância de Holanda na rua Higienópolis, suas andanças aos cinemas no centro de São Paulo, a amizade com Oswald e Mário de Andrade, sua vida movimentada nos bares e seu retorno ao Brasil da Alemanha em 1930.
Preço médio: R$ 30,00
[1] O primeiro de 1947 e o segundo de 1945 respectivamente
16 de dezembro de 2010
Hernando Calvo Ospina - O terrorismo de Estado na Colômbia

Lançado no Brasil após longas polêmicas, por ter seu lançamento vetado na Editora da UFSC e sendo lançado pela Editora Insular meses depois, o livro O Terrorismo de Estado na Colômbia é uma obra de vital importância para se entender a conjuntura política deste país, e abre os olhos para entender diversas outras questões contemporâneas, como por exemplo, suas relações conturbadas com a vizinha Venezuela.
Hernando Calvo Ospina é um jornalista colombiano, refugiado político na França. Atualmente trabalha no jornal Le Monde Diplomatique, e não pode voltar a seu país, por conta das ameaças de morte que recebeu.
O livro trata dos primórdios da criação do estado colombiano, desde a luta de Símon Bolívar pela criação da “Gran Colômbia”, um estado que abarcaria várias das atuais nações da atual América Latina. E mostra que Bolívar estava certo quando, em 1828, afirmou que os Estados Unidos estavam fadados a trazer a miséria à America Latina. Foi de grande interesse das oligarquias colombianas, durante muito tempo, a interferência estadunidense no país, pois esta se mostrava vantajosa aos seus negócios.
O estado colombiano, segundo Ospina, possui uma espécie de “ditadura perfeita”, onde o terrorismo de estado atua. Nele, a democracia se mostra apenas teórica, pois movimentos sociais, sindicais e estudantis são reprimidos violentamente, geralmente com a eliminação de seus líderes. Diz-se, na Colômbia, que é mais fácil montar uma guerrilha do que um sindicato, pois os líderes dos movimentos costumam ser assassinados no dia seguinte. Toda a violência, diga-se de passagem, é apoiada pela Igreja Católica. Em relação a isso, o livro é bastante didático quanto ao surgimento das guerrilhas, pontuadas como necessárias para a sobrevivência daqueles que ousam resistir ao violento estado colombiano e suas imposições. Entre 1946 e 1958, estima-se que mais de trezentos mil liberais gaitanistas teriam sido assassinados. Inspirados em Jorge Eliécer Gaitán, um político anti-imperialista e populista que fora assassinado antes que pudesse se eleger, causando a ira de milhares, senão milhões de colombianos. Entre estes grupos guerrilheiros, nascia posteriormente, na década de 1960, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, mais conhecidas como FARC.
Podemos dizer que uma das principais contribuições do livro está nas diversas demonstrações da interferência estadunidense na América Latina desde o século XIX. A Agência Central de Inteligência (CIA), como já comprovado por documentos e relatos no decorrer dos anos, foi responsável pela inserção da Ideologia de Segurança Nacional na América Latina, resultando nas ditaduras que oprimiram suas nações. No entanto, a Colômbia mostrou-se um caso diferenciado; tamanha era a repressão estatal e o controle dos militares sob o povo que, mesmo a doutrina da Segurança Nacional fazendo parte da realidade colombiana, não houve a necessidade de um golpe militar, haja vista que os militares já possuíam enorme poder.
O governo, impossibilitado de agir a bel-prazer por conta de pressão internacional, viu como alternativa para seus problemas a criação de grupos paramilitares. O livro é enfático quanto ao apoio estatal aos grupos – embora o Estado convenientemente negue qualquer filiação a esses grupos e se diga perseguidor dos mesmos – e sobre o apoio que os paramilitares recebem de latifundiários, narcotraficantes, etc. Explicita também que o governo possui relações íntimas com os traficantes de cocaína no país; não é a toa que o agora ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, possuía relações com Pablo Escobar, narcotraficante conhecido mundialmente. Os exemplos dessa relação são diversos.
Ospina mostra um Estado que oprime o povo, limita sua liberdade, é subserviente à influência estadunidense, aplica a ideologia de Segurança Nacional, buscando inimigos internos, geralmente inexistentes, manipula eleições para beneficiar os liberais e conservadores (nomenclaturas diferentes que não mudavam o fato de ambas agirem da mesma forma), tortura dissidentes, mata povoados inteiros por questões de interesse político e econômico, elimina políticos populistas e anti-imperialistas que eventualmente tenham apoio da população ou tentem reformas; tudo com a ajuda dos Estados Unidos da América, que desde muito tempo tenta impor sua vontade aos países que julga inferiores como a soberana.
O livro possui uma linguagem fácil, mas a quantidade de informações dadas, a repetição de algumas questões, a pouca problematização – levamos em conta que o livro foi escrito por um jornalista, que possui uma metodologia diferente dos historiadores – e a eventualidade de uma não-familiaridade com a história da Colômbia por parte do leitor pode tornar a leitura do livro maçante, caso o mesmo não possua grande interesse no assunto. Altamente recomendado para quem se interessa pela história da América Latina e por aqueles que se interessam em estudar os impactos do imperialismo estadunidense no mundo, já que estuda uma caso bem específico. Entretanto, possivelmente não agradaria a leitores casuais.
Preço médio: R$ 45,00
15 de dezembro de 2010
Edward P. Thompson - A formação da classe operária Inglesa
Esta resenha foi escrita por Fabio Antônio Costa, pós-graduando da PUC-SP.INTRODUÇÃO
Nesta resenha, estou abordando um tema que me é de grande importância e que aos poucos tenho introduzido, qual seja, o movimento sindical. Neste livro, pude aprofundar e confirmar como é importante compreender a participação de grupos específicos de nossas sociedades como a classe operária Inglesa. Tirar do silêncio vozes obscurecidas, essas, portanto tão pouco valorizadas pelos meios de comunicação, mas tão profundamente elucidadas em vozes como a do historiador Edward Thompson, são alguns dos nortes deste presente estudo.
Edward Palmer Thompson (1924-1993), natural de Oxford, Inglaterra, foi um ativo Historiador com envolvimento prático e teórico de cinco décadas no cenário britânico e mundial. Autor de vários livros e com destaque para sua obra máxima “A Formação da Classe Operária Inglesa”. Thompson, contemporâneo de outros historiadores do chamado “Marxismo Inglês” como Eric Hobsbawn, Rodney Hilton e Christopher Hill tiveram papel marcante no Partido Comunista Inglês. Thompson teve também atuação no Movimento Popular da Inglaterra na época da Segunda Grande Guerra (1939-1945), tendo também participado diretamente nessa guerra. Abandonou o Partido Comunista em 1956, participou da construção de ferrovias na Iugoslávia, ministrou aulas para operários e na década de 1980 atuou como pacifista antinuclear e em seus derradeiros anos de vida, atuou em universidades nos Estados Unidos e Inglaterra.
A experiência acumulada de sua participação agitada nestes eventos pode ser sentida em suas obras, como a sua costumeira preocupação nas causas populares, assim como em sua própria conduta pessoal.
A FORMAÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA INGLESA
O livro de Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade é o primeiro tomo da série que apresenta mais dois volumes; A Maldição de Adão e A Força dos Trabalhadores. No Brasil a primeira edição do primeiro tomo é de 1987 e foi lançada pela aclamada editora Paz e Terra, respeitada pelo seu leque de livros acadêmicos.
Traduzido a partir do original The Making of the English Working Class de 1963, Thompson destacou como um livro que não tinha como alvo principal o universo acadêmico, e sim para pessoas comuns, como os operários que ele lecionava nos anos de 1960.
Destarte, neste primeiro tomo (Árvore da Liberdade), que é dividido em cinco partes, o autor no prefácio faz um esclarecimento acerca da categoria de classe operária, especialmente a Inglesa com as suas características que a diferenciam de outras como a Escocesa. Enfatiza que a classe operária Inglesa não é “coisa” e sim “relação” e com herança de sua própria história, também é destacado uma utilidade acerca de sua obra; qual seja resgatar os excluídos (até então) da História, como o tecelão de malhas ou o artesão utópico.
No primeiro capítulo desta obra (Número Ilimitado de Trabalhadores), o Historiador Inglês aprofunda sobre as origens do movimento operário Inglês, como a SLC[1] que segundo seus estudos é a primeira organização política operária da Inglaterra. Anteriormente, existiam algumas formas de organização desde a Guerra Americana[2], Mas seu papel mais destacado vem da influência dos Jacobinos da Revolução Francesa[3]. A alta dos preços dos produtos, os castigos dado aos traidores (p. 17) e a falta de status dos soldados são outros pontos levantados por Thompson que acastelam a formação dos operários Ingleses.
No segundo capítulo (O Cristão e o Demônio) é debatida a influência de algumas religiões protestantes. São religiões que encontram espaço entre homens humildes e que reúne segundo relatos até oitenta mil participantes. É destacado o Puritanismo influenciado pelos “ideais Iluministas”, que segundo Thompson, tem a capacidade de “positivar” os operários na luta maquineista comum entre o demônio com o mundo real. O Metodismo tem também um importante grau de penetração na massa operária, sendo influenciada e influenciadora da “democracia, disciplina, doutrina e emotividade” (p. 38).
No tocante ao terceiro capítulo (As Fortalezas de Satanás), destaca-se o papel dos motins e das turbas, e desta última o estudo é mais aprofundado. A turba, que entre outros conceitualizações, tem a sua função frente ao movimento operário mais vinculado ao pagamento de seus soldos que mesmo aos sentimentos de reivindicação. Com a entrada efetiva da Revolução Industrial na sociedade Inglesa, sua população é cada vez mais explorada e “ofendida”, e uma dessas ofensas pode ser compreendida na ideologia da “maior ofensa da propriedade privada é não ter propriedade”. Nas décadas de 1760 e 1770 na Inglaterra Industrial, o povo Londrino organiza-se melhor, como nos relatos de turbas que controlavam os preços dos produtos de modo mais “pacífico”.
No quarto capítulo (O Inglês Livre de Nascimento), Thompson enfatiza sobre as origens dos Ingleses, e um profundo questionamento acerca das diferenças de vida dos Monarcas e Aristocratas perante o sofrido povo Inglês, sendo este último considerado o produtor de 99% da riqueza, e o primeiro o “grupo parasitário”. O texto Direitos do Homem tem destaque por Thompson, nele fica evidenciado os efeitos da Revolução Francesa. Pouco percebido a função dos Monarcas pelo povo antes circulação do texto Direitos do Homem, estas diferenças ficam, portanto, mais nítidas devido ao caráter humanista deste famoso texto. A própria ideia de motim, originária do tempo da Revolução Gloriosa (1688), faz referência à origem Inglesa, assim como a criação de uniões de organizações de natureza sindical (Trade Unions) ser uma tendência presente desde 1720 na Inglaterra (Coggiola, p. 47).
O autor finaliza esse primeiro tomo da série com o capítulo (Plantando a Árvore da Liberdade). A ênfase desse capítulo está na relação da Revolução Francesa na Inglaterra Industrial, esta inclinação é sentida nos Jacobinos Ingleses, que se não são originários dos Jacobinos Franceses, tem sua ideologia em seus meios sociais.
As sociedades operárias Inglesas apresentam intensa agitação até 1794, com manifestações girando em torno de duzentas mil pessoas. Desta imensa multidão (p. 144) temos propostas ousadas, como educação política aos trabalhadores e o crescimento da participação da população assalariada nos movimentos. Ademais, de 1794 em diante o movimento operariado é fortemente reprimido pela elite Inglesa, perdendo seu centro nacional (p. 154) tradicionalmente instalado em cidades industriais como Londres, Sheffield e Norwich.
Em 1796, com aproximadamente quatro anos de experiência no movimento operário, a classe amadurece, inclusive “suspeitando da ameaça” dos revolucionários Franceses (conhecidos como o perigo que vem do sul).
Em 1811, é iniciado um novo sindicalismo, que diferente dos outros sindicalismos Europeus, teve a experiência da “contra revolução Inglesa”, que nasce no berço do crescimento da própria Revolução Industrial, e que segundo se afirmava na época, era próprio de um país em que até as “velhinhas deveriam falar de política”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A obra de Edward Thompson representa um marco e uma importante reflexão acerca da agitada sociedade Inglesa Industrial do final do século 18º.
Um de seus esforços está em conceitualizar às particularidades do movimento operário Inglês, principalmente ao período que vai de 1790 até 1800, concentrada nos velhos centros industriais Ingleses. Muito influenciado pela Revolução Francesa, mas sem perder parte de suas origens Inglesas, como nas indicações da Revolução Gloriosa e nas próprias características Inglesas, o operariado retratado por Thompson busca a compreensão da sociedade vista pelas situações –conflituosas ou não – dos movimentos sindicalistas, e também na particularidade dos grupos em si, como os próprios movimentos, organizados em motins, turbas, associações etc. Não ficando a parte, as próprias fronteiras espaços-temporais que estas sociedades estão submetidas. A política, organização, dificuldades, glórias ou crimes desvelados por Thompson em sua obra máxima representam uma ruptura que segundo o próprio não era até então compreendida, ou baseada em uma historiografia menos ousada. Como diria Thompson, “Afinal de contas, nós mesmos não estamos no final da evolução social”.
BIBLIOGRAFIA
COGGIOLA, Osvaldo. As Classes “Perigosas”. In: HISTÓRIA VIVA, GRANDES TEMAS: IMPÉRIO BRITÂNICO. Nº 16. São Paulo: Duetto. 2008.
HOBSBAWN, Eric John Earnest. A Era das Revoluções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra. 1º reimpressão. 2010. 537 p.
THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987. 210 p.
30 de novembro de 2010
Nenhuma nova postagem
Venho por meio desse post avisar apenas aos leitores deste blog que o motivo da ausência de uma nova resenha depois de ter publicado a última há tanto tempo se deve ao fato de que a faculdade está me matando. Prometo que em breve postarei uma resenha, e assim que o semestre acabar, tentarei colocar as leituras que me interessam em dia. Se vocês soubessem quantos livros aguardam na minha estante para serem lidos mas, por falta de tempo, tenho que deixar de lado...
2 de setembro de 2010
Paul Veyne - Como se escreve a história

O título, isoladamente, é um tanto desconfortável. Porém, o autor sabe exatamente sobre o que está tratando. Veyne expõe que a história é uma construção; as informações a serem historicizadas são recortadas por aquele responsável pelo relato. Assim, o historiador se torna o construtor de uma trama. A trama, da forma como é tecida, faz com que a história siga um ou outro viés, o que mostra que uma construção diferente de trama traria resultados distintos, baseados em relações de valores – estes relativos.
Aproximadamente dez anos depois de escrever a obra em questão, Veyne escreveu um ensaio chamado Foucault revoluciona a história. O ensaio é anexado ao livro; porém, sua linguagem é deveras intrincada, sendo recomendada apenas a leitores mais experientes.
Com exceção desse apêndice a respeito de Michel Foucault, a obra de Veyne poderia ser lida tranquilamente por qualquer entusiasta da história. É uma obra ideal para se iniciar qualquer debate a respeito de historiografia e cuja leitura é de suma importância para qualquer historiador, ainda que possa causar discordâncias.
Preço médio: R$ 36,00
17 de junho de 2010
Geraldo Pieroni - Banidos

O livro se divide em quatro partes principais. A primeira trata do tema em questão, dividia
Banidos é um livro que discorre exclusivamente sobre a questão do degredo no Brasil. Num caso de busca por temas adjacentes, como a atuação da Inquisição em nossas terras, outros autores apresentam trabalhos com melhores resultados. Talvez seu principal mérito é a forma resumida com a qual o tema é apresentado, ideal para iniciantes que queiram entender o funcionamento da pena do degredo. Contudo, para leitores mais experientes no assunto ou que tenham contato com as obras dos autores citados no início desta resenha, Banidos torna-se um livro muito restrito, e talvez pouco relevante. Pesa a seu favor a presença dos processos apresentados pelo autor na segunda parte do livro e pela lista de sobrenomes. Indicado apenas a quem busca compreender a questão do degredo.
12 de junho de 2010
Heinrich Kramer e James Sprenger - O martelo das feiticeiras



