30 de dezembro de 2010

Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil

Esta resenha foi escrita por Fábio Antonio Costa

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil; organização de Ricardo Benzaquem de Araújo; Lilia Moritz Schwarcz. Edição revisada. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. Capa dura.

Lançada em comemoração aos 70 anos da primeira edição de Raízes do Brasil, está obra é dividida em duas partes, a primeira com o texto de Raízes do Brasil, próximo ao meio um acervo de fotos de Sérgio Buarque de Holanda e na segunda metade artigos de estudiosos no autor e sua obra.

Nos dois prefácios iniciais do livro[1] Holanda fala das mudanças que ele introduz na segunda edição (como a mudança do título Semeador e Ladrilhador) e no segundo prefácio as mudanças como o índice onomástico e o debate com Cassiano Ricardo. No primeiro capítulo do livro (Fronteiras da Europa) inicia-se com um estudo profundo do reino português e suas peculiares características, como um “território-ponte” descarregado do europeísmo de outras nações. Algumas características particulares são destacadas como próprias dos dois reinos ibéricos. Conceitos como a Cultura da Personalidade, as divisões entre as classes sociais menos rígidas como em outras partes, o conceito ócio/negócio, as precárias idéias de solidariedade e do conceito de cultura, que segundo Holanda só absorve outras que lhe convém, são apresentadas como algumas das várias características dos povos espanhóis e portugueses.

No capitulo 2 (Trabalho e Cultura) são discutidos dois aspectos do Brasil colonial; a valorização da figura do aventureiro (vinculada a idéia do português colonizador) e o oposto a figura do trabalhador. A partir do imaginário existente em Portugal, onde o trabalho não era bem visto na sociedade, como o próprio trabalho agrícola pouco valorizado na terra de El-rei pelas poucas almas lá presentes, ao contrário do Brasil, onde a maioria se constituía de negros e escravos. O capítulo finaliza com a influência holandesa no Recife (batizada de Nova Holanda) e a dificuldade dos Batavos de se adaptarem ao novo clima e habitantes.

Idéia próxima do capítulo anterior, neste (Herança Cultural) Holanda centraliza acerca das heranças adquiridas do Brasil por Portugal. Destarte, o destaque é a dicotomia cidade/campo, com a cidade (pobre) sendo apenas um anexo das atividades do campo (rico), destacando assim o poder do senhor rural. A escravidão no Império tinha um importante papel como fonte econômica do império. O fim do tráfico negreiro em 1850 obriga a mudança na economia brasileira por vias do capitalismo em sua modernização, como na construção da primeira estrada de ferro no Brasil (Mauá-Fragoso).

A separação entre Portugueses e Espanhóis é o tema central do quarto capítulo (O Semeador e o Ladrilhador). Aos Espanhóis (ladrilhadores) sobre as ordens do exclusivismo castelhano existia a ideia de uma linha reta (que ordenaria o mundo conquistado) e mais rígida que seus vizinhos da península. Em Portugal desde sua chegada a América, aproveitando-se da população indígena existente no litoral fazia pouco tempo e de baixa variação lingüística, os lusos em geral apenas partiam de um centro para construírem suas casas conforme o capricho dos moradores, assim como as mudanças costumeiras no reino Português. As bandeiras, a partir dos conceitos anteriores forneceram a silhueta posterior do Brasil.

A cordialidade dos Brasileiros é à base do capítulo 5 (Homem Cordial), nele Holanda discorre acerca das características dos Brasileiros, como a inhaeza no trato, hospitalidade, generosidade, apego aos diminutivos etc. Nos relatos posteriores do capítulo, como do estrangeiro da Filadélfia, em que os Brasileiros têm que serem amigos para negociar ou o interesse maior nos festejos que mesmo nos cultos reforçam a ideia do homem cordial.

O capítulo seguinte (Novos Tempos) alude sobre os rumos do Brasil naquela época. O título de doutor trazia “imunidade” e poder ao seu proprietário. Os positivistas considerados por Holanda “como uma raça que deu certo no Brasil” e a mudança da Monarquia para a República vinda de cima e na famosa descrição de Aristides Lobo enfatizam a ideia.

Um paralelo de idéias com o capítulo anterior é o tema do último capítulo de Raízes do Brasil (Nossa Revolução) com destaque ao Império Brasileiro. Com o fim da escravidão no Brasil acarretam-se outras mudanças, como a troca do engenho pela usina e uma maior democracia a partir do café, centros urbanos desestabilizando o arcaico sistema ultramarino e nossa curiosa participação na Guerra do Paraguai, mas por força que motivação dos participantes.

Na segunda parte do livro iniciam-se as homenagens acerca dos 70 anos de Raízes do Brasil, começando por fotos da vida de Holanda desde sua infância até próximo ao seu falecimento.

Antonio Candido (O Significado de Raízes do Brasil, 1967) compara a obra Raízes do Brasil com dois outros clássicos; Casa Grande & Senzala (Gilberto Freyre) e Formação do Brasil Contemporâneo (Caio Prado Jr.), atribuindo um caráter de maior importância ao escravo na primeira obra e marxista na segunda, disserta também como a direita Brasileira rejeita as obras nos primeiros momentos e finaliza com a ideia do contraste de impedir o dogmatismo, algo típico de Raízes do Brasil. Em 1986, Candido reescreve após Raízes de o Brasil completar 50 anos e enfatiza seu caráter popular. Alexandre Eulálio (Antes de tudo um escritor, 1986) faz uma leitura bibliográfica de Holanda, e destaca sua estadia na Alemanha, a faculdade Direito que Holanda cursou no Rio de Janeiro e a produção do texto Corpo e Alma do Brasil, que originou Raízes do Brasil. Evaldo Cabral de Mello traz importantes considerações como a influência da teoria da América, Weber, a sociologia alemã expressas em Raízes do Brasil e a obra Visão do Paraíso ser a pioneira da história das mentalidades no Brasil. Boliar Lamounier (Sérgio Buarque de Holanda e os grilhões do passado, 2006) enfoca a teoria culturalista de Raízes do Brasil, a clareza dos diagnósticos e entre outros, a flexibilidade do Portugal medieval, origem possível de um Brasil flexível. Antonio Arnoni Prado (No roteiro de Raízes, 2006) elucida a critica do Holanda aos modernistas e a visão do novo que Raízes do Brasil proporcionam ao leitor. Pedro Meira Monteiro (Buscando a América, 2006) centraliza-se na temporada alemã de Holanda. Robert Wegner (Um ensaio entre o passado e o futuro, 2006) disserta sobre a relação de Holanda e Gilberto Freyre, as aulas de Friedrich Meineche que Holanda assistiu e seu curso de Direito após a publicação de Raízes do Brasil. Uma das partes mais polêmicas do livro está na carta de Cassiano Ricardo (Variações do Homem Cordial, 1948), nela Ricardo disserta o conceito de Homem Cordial de Holanda profundamente, como a própria critica a este conceito e as mudanças feitas pelo próprio Holanda em Raízes do Brasil original, a ideia do Brasileiro conciliador e a inexistência do racismo no Brasil. Holanda no mesmo ano produz uma resposta (Carta a Cassiano Ricardo, 1948) em que chama de “interessantes” as considerações a Ricardo, faz uma discussão de bondade, refuta das fontes confusas de Ricardo e afirma que os Brasileiros não são piores ou melhores que qualquer outro povo. Rui Ribeiro Couto (El Hombre Cordiale, 1931) é a referência de Holanda do conceito de cordialismo, que segundo Couto é a contribuição latino-americana ao mundo da aventura Celtibérica. Corpo e Alma do Brasil, de 1935, é publicada na integra e a obra finaliza com uma detalhada cronologia de Holanda por Maria Amélia Buarque de Holanda ( produzida em 1979) e das muitas informações destacam-se a infância de Holanda na rua Higienópolis, suas andanças aos cinemas no centro de São Paulo, a amizade com Oswald e Mário de Andrade, sua vida movimentada nos bares e seu retorno ao Brasil da Alemanha em 1930.

Preço médio: R$ 30,00

[1] O primeiro de 1947 e o segundo de 1945 respectivamente

16 de dezembro de 2010

Hernando Calvo Ospina - O terrorismo de Estado na Colômbia


OSPINA, Hernando Calvo. O terrorismo de Estado na Colômbia. Florianópolis: Insular, 2010.

Lançado no Brasil após longas polêmicas, por ter seu lançamento vetado na Editora da UFSC e sendo lançado pela Editora Insular meses depois, o livro O Terrorismo de Estado na Colômbia é uma obra de vital importância para se entender a conjuntura política deste país, e abre os olhos para entender diversas outras questões contemporâneas, como por exemplo, suas relações conturbadas com a vizinha Venezuela.

Hernando Calvo Ospina é um jornalista colombiano, refugiado político na França. Atualmente trabalha no jornal Le Monde Diplomatique, e não pode voltar a seu país, por conta das ameaças de morte que recebeu.

O livro trata dos primórdios da criação do estado colombiano, desde a luta de Símon Bolívar pela criação da “Gran Colômbia”, um estado que abarcaria várias das atuais nações da atual América Latina. E mostra que Bolívar estava certo quando, em 1828, afirmou que os Estados Unidos estavam fadados a trazer a miséria à America Latina. Foi de grande interesse das oligarquias colombianas, durante muito tempo, a interferência estadunidense no país, pois esta se mostrava vantajosa aos seus negócios.

O estado colombiano, segundo Ospina, possui uma espécie de “ditadura perfeita”, onde o terrorismo de estado atua. Nele, a democracia se mostra apenas teórica, pois movimentos sociais, sindicais e estudantis são reprimidos violentamente, geralmente com a eliminação de seus líderes. Diz-se, na Colômbia, que é mais fácil montar uma guerrilha do que um sindicato, pois os líderes dos movimentos costumam ser assassinados no dia seguinte. Toda a violência, diga-se de passagem, é apoiada pela Igreja Católica. Em relação a isso, o livro é bastante didático quanto ao surgimento das guerrilhas, pontuadas como necessárias para a sobrevivência daqueles que ousam resistir ao violento estado colombiano e suas imposições. Entre 1946 e 1958, estima-se que mais de trezentos mil liberais gaitanistas teriam sido assassinados. Inspirados em Jorge Eliécer Gaitán, um político anti-imperialista e populista que fora assassinado antes que pudesse se eleger, causando a ira de milhares, senão milhões de colombianos. Entre estes grupos guerrilheiros, nascia posteriormente, na década de 1960, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, mais conhecidas como FARC.

Podemos dizer que uma das principais contribuições do livro está nas diversas demonstrações da interferência estadunidense na América Latina desde o século XIX. A Agência Central de Inteligência (CIA), como já comprovado por documentos e relatos no decorrer dos anos, foi responsável pela inserção da Ideologia de Segurança Nacional na América Latina, resultando nas ditaduras que oprimiram suas nações. No entanto, a Colômbia mostrou-se um caso diferenciado; tamanha era a repressão estatal e o controle dos militares sob o povo que, mesmo a doutrina da Segurança Nacional fazendo parte da realidade colombiana, não houve a necessidade de um golpe militar, haja vista que os militares já possuíam enorme poder.

O governo, impossibilitado de agir a bel-prazer por conta de pressão internacional, viu como alternativa para seus problemas a criação de grupos paramilitares. O livro é enfático quanto ao apoio estatal aos grupos – embora o Estado convenientemente negue qualquer filiação a esses grupos e se diga perseguidor dos mesmos – e sobre o apoio que os paramilitares recebem de latifundiários, narcotraficantes, etc. Explicita também que o governo possui relações íntimas com os traficantes de cocaína no país; não é a toa que o agora ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, possuía relações com Pablo Escobar, narcotraficante conhecido mundialmente. Os exemplos dessa relação são diversos.

Ospina mostra um Estado que oprime o povo, limita sua liberdade, é subserviente à influência estadunidense, aplica a ideologia de Segurança Nacional, buscando inimigos internos, geralmente inexistentes, manipula eleições para beneficiar os liberais e conservadores (nomenclaturas diferentes que não mudavam o fato de ambas agirem da mesma forma), tortura dissidentes, mata povoados inteiros por questões de interesse político e econômico, elimina políticos populistas e anti-imperialistas que eventualmente tenham apoio da população ou tentem reformas; tudo com a ajuda dos Estados Unidos da América, que desde muito tempo tenta impor sua vontade aos países que julga inferiores como a soberana.

O livro possui uma linguagem fácil, mas a quantidade de informações dadas, a repetição de algumas questões, a pouca problematização – levamos em conta que o livro foi escrito por um jornalista, que possui uma metodologia diferente dos historiadores – e a eventualidade de uma não-familiaridade com a história da Colômbia por parte do leitor pode tornar a leitura do livro maçante, caso o mesmo não possua grande interesse no assunto. Altamente recomendado para quem se interessa pela história da América Latina e por aqueles que se interessam em estudar os impactos do imperialismo estadunidense no mundo, já que estuda uma caso bem específico. Entretanto, possivelmente não agradaria a leitores casuais.

Preço médio: R$ 45,00

15 de dezembro de 2010

Edward P. Thompson - A formação da classe operária Inglesa

Esta resenha foi escrita por Fabio Antônio Costa, pós-graduando da PUC-SP.

THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987.

INTRODUÇÃO

Nesta resenha, estou abordando um tema que me é de grande importância e que aos poucos tenho introduzido, qual seja, o movimento sindical. Neste livro, pude aprofundar e confirmar como é importante compreender a participação de grupos específicos de nossas sociedades como a classe operária Inglesa. Tirar do silêncio vozes obscurecidas, essas, portanto tão pouco valorizadas pelos meios de comunicação, mas tão profundamente elucidadas em vozes como a do historiador Edward Thompson, são alguns dos nortes deste presente estudo.

SOBRE O AUTOR

Edward Palmer Thompson (1924-1993), natural de Oxford, Inglaterra, foi um ativo Historiador com envolvimento prático e teórico de cinco décadas no cenário britânico e mundial. Autor de vários livros e com destaque para sua obra máxima “A Formação da Classe Operária Inglesa”. Thompson, contemporâneo de outros historiadores do chamado “Marxismo Inglês” como Eric Hobsbawn, Rodney Hilton e Christopher Hill tiveram papel marcante no Partido Comunista Inglês. Thompson teve também atuação no Movimento Popular da Inglaterra na época da Segunda Grande Guerra (1939-1945), tendo também participado diretamente nessa guerra. Abandonou o Partido Comunista em 1956, participou da construção de ferrovias na Iugoslávia, ministrou aulas para operários e na década de 1980 atuou como pacifista antinuclear e em seus derradeiros anos de vida, atuou em universidades nos Estados Unidos e Inglaterra.

A experiência acumulada de sua participação agitada nestes eventos pode ser sentida em suas obras, como a sua costumeira preocupação nas causas populares, assim como em sua própria conduta pessoal.

A FORMAÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA INGLESA

O livro de Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade é o primeiro tomo da série que apresenta mais dois volumes; A Maldição de Adão e A Força dos Trabalhadores. No Brasil a primeira edição do primeiro tomo é de 1987 e foi lançada pela aclamada editora Paz e Terra, respeitada pelo seu leque de livros acadêmicos.

Traduzido a partir do original The Making of the English Working Class de 1963, Thompson destacou como um livro que não tinha como alvo principal o universo acadêmico, e sim para pessoas comuns, como os operários que ele lecionava nos anos de 1960.

Destarte, neste primeiro tomo (Árvore da Liberdade), que é dividido em cinco partes, o autor no prefácio faz um esclarecimento acerca da categoria de classe operária, especialmente a Inglesa com as suas características que a diferenciam de outras como a Escocesa. Enfatiza que a classe operária Inglesa não é “coisa” e sim “relação” e com herança de sua própria história, também é destacado uma utilidade acerca de sua obra; qual seja resgatar os excluídos (até então) da História, como o tecelão de malhas ou o artesão utópico.

No primeiro capítulo desta obra (Número Ilimitado de Trabalhadores), o Historiador Inglês aprofunda sobre as origens do movimento operário Inglês, como a SLC[1] que segundo seus estudos é a primeira organização política operária da Inglaterra. Anteriormente, existiam algumas formas de organização desde a Guerra Americana[2], Mas seu papel mais destacado vem da influência dos Jacobinos da Revolução Francesa[3]. A alta dos preços dos produtos, os castigos dado aos traidores (p. 17) e a falta de status dos soldados são outros pontos levantados por Thompson que acastelam a formação dos operários Ingleses.

No segundo capítulo (O Cristão e o Demônio) é debatida a influência de algumas religiões protestantes. São religiões que encontram espaço entre homens humildes e que reúne segundo relatos até oitenta mil participantes. É destacado o Puritanismo influenciado pelos “ideais Iluministas”, que segundo Thompson, tem a capacidade de “positivar” os operários na luta maquineista comum entre o demônio com o mundo real. O Metodismo tem também um importante grau de penetração na massa operária, sendo influenciada e influenciadora da “democracia, disciplina, doutrina e emotividade” (p. 38).

No tocante ao terceiro capítulo (As Fortalezas de Satanás), destaca-se o papel dos motins e das turbas, e desta última o estudo é mais aprofundado. A turba, que entre outros conceitualizações, tem a sua função frente ao movimento operário mais vinculado ao pagamento de seus soldos que mesmo aos sentimentos de reivindicação. Com a entrada efetiva da Revolução Industrial na sociedade Inglesa, sua população é cada vez mais explorada e “ofendida”, e uma dessas ofensas pode ser compreendida na ideologia da “maior ofensa da propriedade privada é não ter propriedade”. Nas décadas de 1760 e 1770 na Inglaterra Industrial, o povo Londrino organiza-se melhor, como nos relatos de turbas que controlavam os preços dos produtos de modo mais “pacífico”.

No quarto capítulo (O Inglês Livre de Nascimento), Thompson enfatiza sobre as origens dos Ingleses, e um profundo questionamento acerca das diferenças de vida dos Monarcas e Aristocratas perante o sofrido povo Inglês, sendo este último considerado o produtor de 99% da riqueza, e o primeiro o “grupo parasitário”. O texto Direitos do Homem tem destaque por Thompson, nele fica evidenciado os efeitos da Revolução Francesa. Pouco percebido a função dos Monarcas pelo povo antes circulação do texto Direitos do Homem, estas diferenças ficam, portanto, mais nítidas devido ao caráter humanista deste famoso texto. A própria ideia de motim, originária do tempo da Revolução Gloriosa (1688), faz referência à origem Inglesa, assim como a criação de uniões de organizações de natureza sindical (Trade Unions) ser uma tendência presente desde 1720 na Inglaterra (Coggiola, p. 47).

O autor finaliza esse primeiro tomo da série com o capítulo (Plantando a Árvore da Liberdade). A ênfase desse capítulo está na relação da Revolução Francesa na Inglaterra Industrial, esta inclinação é sentida nos Jacobinos Ingleses, que se não são originários dos Jacobinos Franceses, tem sua ideologia em seus meios sociais.

As sociedades operárias Inglesas apresentam intensa agitação até 1794, com manifestações girando em torno de duzentas mil pessoas. Desta imensa multidão (p. 144) temos propostas ousadas, como educação política aos trabalhadores e o crescimento da participação da população assalariada nos movimentos. Ademais, de 1794 em diante o movimento operariado é fortemente reprimido pela elite Inglesa, perdendo seu centro nacional (p. 154) tradicionalmente instalado em cidades industriais como Londres, Sheffield e Norwich.

Em 1796, com aproximadamente quatro anos de experiência no movimento operário, a classe amadurece, inclusive “suspeitando da ameaça” dos revolucionários Franceses (conhecidos como o perigo que vem do sul).

Em 1811, é iniciado um novo sindicalismo, que diferente dos outros sindicalismos Europeus, teve a experiência da “contra revolução Inglesa”, que nasce no berço do crescimento da própria Revolução Industrial, e que segundo se afirmava na época, era próprio de um país em que até as “velhinhas deveriam falar de política”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra de Edward Thompson representa um marco e uma importante reflexão acerca da agitada sociedade Inglesa Industrial do final do século 18º.

Um de seus esforços está em conceitualizar às particularidades do movimento operário Inglês, principalmente ao período que vai de 1790 até 1800, concentrada nos velhos centros industriais Ingleses. Muito influenciado pela Revolução Francesa, mas sem perder parte de suas origens Inglesas, como nas indicações da Revolução Gloriosa e nas próprias características Inglesas, o operariado retratado por Thompson busca a compreensão da sociedade vista pelas situações –conflituosas ou não – dos movimentos sindicalistas, e também na particularidade dos grupos em si, como os próprios movimentos, organizados em motins, turbas, associações etc. Não ficando a parte, as próprias fronteiras espaços-temporais que estas sociedades estão submetidas. A política, organização, dificuldades, glórias ou crimes desvelados por Thompson em sua obra máxima representam uma ruptura que segundo o próprio não era até então compreendida, ou baseada em uma historiografia menos ousada. Como diria Thompson, “Afinal de contas, nós mesmos não estamos no final da evolução social”.

BIBLIOGRAFIA

COGGIOLA, Osvaldo. As Classes “Perigosas”. In: HISTÓRIA VIVA, GRANDES TEMAS: IMPÉRIO BRITÂNICO. Nº 16. São Paulo: Duetto. 2008.

HOBSBAWN, Eric John Earnest. A Era das Revoluções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra. 1º reimpressão. 2010. 537 p.

THOMPSON, Edward Palmer. A Formação da Classe Operária Inglesa: A Árvore da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987. 210 p.


[1] Sociedade Londrina de Correspondência.

[2] Também conhecida como Guerra da Secessão, disputada entre 1861 e 1865.

[3] Contemporânea da Revolução Industrial, ela durou de 1789 até 1799.



Preço médio: R$ 35,00

Para contato com o autor:
fabioantoniocosta@hotmail.com

30 de novembro de 2010

Nenhuma nova postagem

Olá

Venho por meio desse post avisar apenas aos leitores deste blog que o motivo da ausência de uma nova resenha depois de ter publicado a última há tanto tempo se deve ao fato de que a faculdade está me matando. Prometo que em breve postarei uma resenha, e assim que o semestre acabar, tentarei colocar as leituras que me interessam em dia. Se vocês soubessem quantos livros aguardam na minha estante para serem lidos mas, por falta de tempo, tenho que deixar de lado...

Até breve.

2 de setembro de 2010

Paul Veyne - Como se escreve a história


VEYNE, Paul. Como se escreve a históriaa se escreve a hist; Foucault revoluciona a história. 4ª ed., Brasília: Editora UNB, 2008.
História, por si só, é um termo que suscita definições simplistas. Enquanto os menos instruídos ou menos interessados professam que história é nada mais, nada menos, que o passado, muitos historiadores costumam defini-la como o entendimento do passado para se compreender o presente e, consequentemente, abrir perspectivas para o futuro. Contudo, definir a história, seja com a palavra “passado” quanto com frases seria reduzir algo tão importante a meras sínteses pouco elucidativas. Por esse motivo, faz-se necessário o estudo mais aprofundado da história. Uma das obras clássicas a tratar o assunto é Como se escreve a história, de Paul Veyne. O francês, especialista em Império Romano, escrevera a obra em meados de 1968, e até nossos dias ela se mostra uma obra certeira no que concerne a suscitar discussões.

Nesse livro, Veyne não se propõe a tratar assuntos comuns aos historiadores como a nouvelle histoire ou o positivismo. Nele, o autor imerge mais profundamente no tema, esmiuçando-o. Dividindo o livro em três partes, Veyne separa “O objeto de estudo”, “A compreensão” e “O progresso da história”. Discorre, inicialmente, sobre a história como narrativa verídica, discutindo sobre eventos humanos ou não, e as armadilhas da hierarquização da história. Esta hierarquização – mas não apenas ela – causa lacunas, que são características da história em si; noção por vezes incoerente, nem sempre factual e sem dimensões absolutas, como os próprios subtítulos do capítulo 2, “Tudo é histórico, logo, a história não existe”.

O título, isoladamente, é um tanto desconfortável. Porém, o autor sabe exatamente sobre o que está tratando. Veyne expõe que a história é uma construção; as informações a serem historicizadas são recortadas por aquele responsável pelo relato. Assim, o historiador se torna o construtor de uma trama. A trama, da forma como é tecida, faz com que a história siga um ou outro viés, o que mostra que uma construção diferente de trama traria resultados distintos, baseados em relações de valores – estes relativos.
Durante boa parte do livro, o autor se propõe a um extenso debate sobre a discussão “História é ou não é uma ciência”. Expondo seus argumentos, Veyne discorda que a história seja, de fato, uma ciência, pela ausência de leis; critica o empirismo lógico e afirma que a história nunca será científica. Entre outras discussões, classifica o termo sociologia como uma concepção demasiadamente estreita da história. Não critica o sociólogo em questão, mas afirma que a sociologia ou é uma filosofia política, uma história das civilizações contemporâneas ou um gênero literário atrativo. Paul Veyne trata desse assunto no item As três sociologias.

Aproximadamente dez anos depois de escrever a obra em questão, Veyne escreveu um ensaio chamado Foucault revoluciona a história. O ensaio é anexado ao livro; porém, sua linguagem é deveras intrincada, sendo recomendada apenas a leitores mais experientes.

Com exceção desse apêndice a respeito de Michel Foucault, a obra de Veyne poderia ser lida tranquilamente por qualquer entusiasta da história. É uma obra ideal para se iniciar qualquer debate a respeito de historiografia e cuja leitura é de suma importância para qualquer historiador, ainda que possa causar discordâncias.

Preço médio: R$ 36,00

17 de junho de 2010

Geraldo Pieroni - Banidos


PIERONI, Geraldo. Banidos: a Inquisição e a lista dos cristãos-novos condenados a viver no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
São diversos os trabalhos, tanto de historiadores brasileiros como estrangeiros, que tratam sobre os cristãos-novos. Entre alguns dos mais conhecidos, estão Anita Novinsky, José Gonçalves Salvador e Eduardo de Oliveira França. Geraldo Pieroni adentra o hall dos historiadores que tratam sobre o tema com seu livro Banidos: a Inquisição e a lista dos cristãos-novos condenados a viver no Brasil. Usando os autores anteriormente citados como referência, além de se valer de diversas fontes primárias – a maioria consultada em Portugal –, Pieroni constrói uma pequena obra que trata, principalmente, da pena de degredo.
O cristão-novo, por definição, é o judeu convertido ao catolicismo. Esta conversão é geralmente imposta, sob ameaças diversas. Em Portugal, mais precisamente em outubro de 1497, os todos os judeus são obrigados a converterem-se ao catolicismo. Por conta da imposição, grande parte dos judeus se mostrava católico em público, mas mantinha suas práticas religiosas oriundas da sua religião. Os seguidores da dita “Lei de Moisés”, ao serem desmascarados, eram julgados pela Inquisição, sendo a punição mais comum o uso do “sambenito” (uma espécie de colete que servia para que todos reconhecessem o crime do acusado) e o degredo para alguma das colônias. Pieroni trata principalmente da pena de degredo para o Brasil.

O livro se divide em quatro partes principais. A primeira trata do tema em questão, dividia em capítulos. A segunda parte é uma extensa lista de condenados ao degredo no Brasil, retirada de processos da época. A terceira parte é uma lista de sobrenomes – geralmente portugueses – que comumente eram usados por cristãos-novos, aonde constam vários sobrenomes comuns a nós brasileiros. Dentro das possibilidades, o autor tenta tratar suas origens. Por fim, o livro encerra com uma cronologia da Inquisição, partindo da expulsão dos judeus de Castela e Aragão em 1492 até a extinção do tribunal em seu molde antigo, em 1821.

Banidos
é um livro que discorre exclusivamente sobre a questão do degredo no Brasil. Num caso de busca por temas adjacentes, como a atuação da Inquisição em nossas terras, outros autores apresentam trabalhos com melhores resultados. Talvez seu principal mérito é a forma resumida com a qual o tema é apresentado, ideal para iniciantes que queiram entender o funcionamento da pena do degredo. Contudo, para leitores mais experientes no assunto ou que tenham contato com as obras dos autores citados no início desta resenha, Banidos torna-se um livro muito restrito, e talvez pouco relevante. Pesa a seu favor a presença dos processos apresentados pelo autor na segunda parte do livro e pela lista de sobrenomes. Indicado apenas a quem busca compreender a questão do degredo.
Preço médio: R$ 30,00

12 de junho de 2010

Heinrich Kramer e James Sprenger - O martelo das feiticeiras


KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras. 20ª ed. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 2009.

Estudado por historiadores, antropólogos e até mesmo psiquiatras, o Malleus Maleficarum configura-se como uma obra que, embora seja vista por muitos como praticamente uma aberração, é fundamental para entender o pensamento do início da Idade Moderna em relação às praticas mágicas, demonologia e até mesmo nuances do comportamento humano. Diferentes análises podem ser feitas acerca deste livro.
É irônico, tanto quanto trágico, que este polêmico livro, que é uma das páginas mais sangrentas e terríveis do cristianismo e que é tido como um estandarte da intolerância e fanatismo religioso, tenha sido escrito durante o esplendor do Renascimento. Escrito pelos dominicanos James Sprenger e Heinrich Kramer, o Malleus Maleficarum se tornou mais do que um simples livro; tornou-se a bíblia do inquisidor, seu livro de cabeceira, ao lado de obras como o infame Directorum Inquisitorum, escrito pelo também dominicano Nicolau Eymerich em 1376 e revisto por Francisco de La Peña em 1578. Vale citar que este serviu de grande inspiração para o Martelo das Feiticeiras. Algumas semelhanças são visíveis, e Francisco de La Peña lamenta que autores como Sprenger não tenham feito referência ao manual de Eymerich.

Diferentes óticas são lançadas ao Malleus Maleficarum até os dias atuais. Certamente, as questões mais abordadas em relação ao livro são a misoginia visível dos autores – ao ponto da obra ser considerada por muitos, e como escrito atrás da edição resenhada, como “o mais importante livro jamais escrito sobre o feminismo” – e o levante de questões acerca de uma histeria coletiva; hipótese esta levantada por autores do mundo todo em relação à caça às bruxas na Europa moderna.

Levantar os motivos que fizeram com que a caça às bruxas atingisse os níveis de violência assustadores, principalmente entre o fim do século XVI e a segunda metade do século XVII, faria esta análise tomar outros rumos. Criticamente, os objetivos são outros.

Como manual, é necessário dizer que fora muito bem montado. Independente de argumentos como os que afirmam que Jesus “veio ao mundo e sofreu por nós, deu-nos, a nós homens, esse privilégio”, quando afirmam que os homens não se entregam à lascívia, estando salvos de copular com demônios, a quantidade de questões abordadas é impressionante. Os autores discorrem acerca de diversos detalhes, e em certos momentos parece que nenhum ponto fora esquecido, não dando margem à contestações. Inclusive, os autores refutam algumas das contestações que na época eram feitas aos argumentos dos inquisidores, como por exemplo ao citar os que afirmam “não existir bruxaria no mundo, salvo na imaginação dos homens, os quais, pela sua ignorância das causas ocultas que ainda ninguém compreende, atribuem certos efeitos naturais à bruxaria.” Interessante perceber que esta crítica, feita muitas vezes em diversas épocas, já eram presentes mesmo no período em que a caça às bruxas era prolífica.

O livro é dividido em três partes. A primeira parte, intitulada “Das Três Condições Necessárias para a Bruxaria: O Diabo, a Bruxa e a Permissão de Deus Todo-Poderoso”. Entre suas principais questões, estão os argumentos que validam como certo o pecado de não se crer em bruxaria, criticam a lascívia feminina e sua fácil corrupção, além de exaltar a permissão de Deus para as práticas das bruxas. A segunda parte é intitulada “Dos Métodos Pelos Quais se Infligem os Malefícios e de que Modo Podem Ser Curados”. Nela, são tratadas questões acerca dos maléficos, de como são feitos os pactos com o demônio e das formas de se proteger ou curar dos supracitados malefícios. A terceira parte trata das questões judiciais, tanto do tribunal eclesiástico quanto do civil. Prescreve como devem ser executados os processos, a leitura de sentenças, o uso da tortura e as condenações. Tudo prescrito de forma detalhada e minuciosa.

Como manual, é impossível dizer que tenha sido um livro escrito com negligência. Obviamente, se excluirmos a separação da conjuntura da época com a atual, veremos um sem-número de absurdos, afirmações descabidas e uma miríade de superstições no mínimo risíveis. Contudo, ao voltarmos nossos olhos mais uma vez para a época em questão, quando esses absurdos eram na realidade crenças bem definidas, percebemos que a cristandade, salvo determinadas contestações isoladas, via a caça às bruxas não como uma perseguição paranóica misógina; o trabalho do Santo Ofício era, acima de tudo, de vital importância para a sobrevivência do cristianismo diante das atribulações e dos incessantes esforços do demônio em minar os servos de Deus. Um trabalho de retidão, cujo sangue derramado não era a marca de uma perseguição cruel, mas sim, a mostra da piedade divina, onde dor e purgação dos pecados andavam lado a lado, validadas por bulas de diferentes papas.

O trabalho, por sua crueldade, foi contestado em diversas ocasiões. Não à toa, Michelet em seu A Feiticeira critica por diversas vezes a obra, se referindo á Sprenger como “idiota” [1]. Epíteto este deferido aos dominicanos em geral.

Em resumo, é um livro de fundamental importância para qualquer historiador que pretenda estudar sobre o Santo Ofício, a demonização do feminino ou mesmo sobre as ditas “paranóias sociais” nas mais diferentes épocas. Essencial para se compreender – ou ao menos para tentar fazê-lo – a mentalidade dos inquisidores; entender o motivo da crueldade ser vista como piedade pelo Tribunal do Santo Ofício.

[1] MICHELET, Jules. A feiticeira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p. 156.

Preço médio: R$ 60,00.

27 de março de 2010

Carlo Ginzburg - História noturna


GINZBURG, Carlo. História noturna: decifrando o sabá. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
Sendo a extensão de um artigo escrito para a revista Annales e, por que não dizer, uma continuação em maiores proporções do livro Os andarilhos do bem, História noturna é seguramente uma das obras mais impressionantes de Carlo Ginzburg. Mais conhecido por obras como O queijo e os vermes – que foi escrito através de fontes encontradas na pesquisa sobre os benandanti, tema do primeiro livro citado – e Mitos, emblemas, sinais, Ginzburg conseguiu com esta obra uma síntese interessante de análise antropológica, recortes geográficos bem organizados e, sem se prender a “achismos”, trabalha bem com as fontes que possui.

O livro pode surpreender ao leitor desavisado. Embora possua o subtítulo “decifrando o sabá”, o livro discorre pouco sobre o tema. A maior parte do tempo, o autor está preocupado em descobrir as origens dos elementos que, convergidos, criaram os estereótipos da suposta reunião de bruxas. Em seu início, Ginzburg discute acerca de autores que já trataram o tema, apontando problemas e reducionismos em suas análises. Ao seguir, começa a lentamente entrar no tema.
O livro está longe de responder perguntas de forma definitiva. Se observarmos bem, percebemos que na verdade o que o autor faz é expor novas dúvidas, mas apresentando indícios muito fortes que não apenas justificam seu levantamento, mas apresentam hipóteses embasando suas suposições. Entretanto, está longe de ser um livro em que o assunto não chega a lugar algum. A análise de aspectos culturais, de diversas civilizações, lugares e épocas distintas, que se convergem e denotam extratos culturais de tempos muito remotos – possivelmente eurásicos, afirma o autor – é de tal forma coerente que a maioria das suposições feitas por Ginzburg nos parecem fazer muito sentido.

Experiente como é, Carlo Ginzburg admite a impossibilidade de certas perguntas virem a ser respondidas. Ainda assim, arrisca-se a apontar suas suposições (sempre se embasando ao máximo). Eis o elemento mais encantador da obra.

Como dito anteriormente, quem busca uma detalhada descrição do sabá neste livro poderá decepcionar-se. Entretanto, se buscar entender alguns dos elementos presentes neste ritual, será contemplado com perspectivas que até então possivelmente não imaginava.
Embora possar soar um tanto complexo para iniciantes no tema, recomendo-a a historiadores que se interessam por mentalidades e àqueles que se familiarizam com a antropologia.
Preço médio: R$ 60,00

3 de fevereiro de 2010

Jacques Soustelle - Os astecas na véspera da conquista espanhola

Esta resenha foi escrita por Juliana Kick

SOUSTELLE, Jacques. Os astecas na véspera da conquista espanhola. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

O livro de Jacques Soustelle é composto por uma introdução, sete capítulos e um apêndice. De leitura fácil e simples, o autor aborda diversos aspectos da vida cotidiana dos astecas de maneira simples e abrangente, sendo de fácil compreensão a um leitor leigo. Ao decorrer de sua obra, o autor mostra como a complexa civilização asteca foi interrompida bruscamente com a conquista espanhola. Em sua análise da civilização asteca, o autor divide a sociedade em uma pirâmide social, onde o imperador estaria no topo do poder, seguido dos dignitários, negociantes, artesãos plebe e escravos. Essa divisão em camadas sociais que aparece principalmente no segundo capítulo "A Sociedade e o estado no início do século XVI", pode ser compreendida, afinal, Soustelle era um importante antropólogo e faz uso da análise do homem como um ser biológico, social e cultural em todo o seu livro.

Soustelle incorpora em sua obra certos anacronismos para esclarecer alguns pontos da civilização asteca. Utiliza títulos nobiliárquicos até então conhecidos somente na Europa para descrever os mexicas. Diferencia os dignitários de plebeus ao considerá-los a aristocracia asteca.

A pesquisa arqueológica é de grande importância na civilização asteca: cerâmicas, utensílios, armas, esculturas foram descobertos em abundância. Os mexicanos queimavam seus mortos e por isso não se possui fonte sobre seus túmulos. Monumentos que resistiram a destruição espanhola foram poucos. Já a documentação escrita é muito rica, os mexicanos eram estudiosos e muito curiosos a respeito de si mesmos e após a conquista grande parte de suas memórias foram traduzidas do nahuatl para a língua espanhola.

Um dos pontos que mais se destacam na obra de Jacques Soustelle é a sua concepção de interrupção da civilização asteca. O autor demonstra grande pesar pela destruição da cultura dos mexicas, umas das mais ricas e importantes que o mundo já conheceu e aborda em algumas passagens a forma cruel e bárbara com que os espanhóis conquistaram os conquistaram.

O foco de seu livro é sem dúvida a vida cotidiana dos astecas. Dedica muitos capítulos expondo o comportamento dos mexicas na vida diária, como comiam, se vestiam, se relacionavam, sua higiene, roupas, acessórios, alimentação, ritos, infância, vida familiar e vários outros aspectos de sua vida. Dedica grande parte sua análise ao homem asteca comum, que trabalhava em obras públicas, em sua parcela terra, pagava impostos, casava seus filhos.

Preço Médio: R$ 36,00

24 de janeiro de 2010

Jacques Soustelle - A civilização Asteca

Esta resenha foi escrita por Juan Filipi Garces

SOUSTELLE, Jacques. A Civilização Asteca. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2002.

América pré-colombiana tem sido o tema que mais demonstro entusiasmo dentro da história, seja pelos Astecas, Maias ou Incas. Esse livro, como o título sugere, descreve as características básicas dos Astecas, sendo assim, não é um livro para pesquisas aprofundadas.

O livro é basicamente um resumo dessa civilização que ocupou boa parte do território mexicano. A divisão dos capítulos é um tanto simplória, classificados por temas específicos, como sociedade, governo e religião. O livro em si não segue uma linha cronológica, com exceção do primeiro capítulo, que redige como sucedeu a origem dessa civilização.

Muitos povos são citados, como os Olmecas e Toltecas e os chamados pós-toltecas, e desse ultimo, só alguns são necessários ser citados para o entendimento deste livro. Após uma guerra entre o estado de Texcoco, tendo Tenochtitlán como seu aliado, contra Azcapotzalco, no qual resultou na vitória dos dois estados aliados. A partir de então, formavam a Tríplice aliança, constituída por Tenochtitlán, Texcoco e por uma cidade pertecente a tribo de Azcapotzalco, Tlacopan. A tríplice aliança tornou-se o conhecido império asteca.

A sociedade era formada por algumas classes: povo (cidadãos normais), escravos (normalmente prisioneiros de guerra e usados como sacrifícios), artesãos, negociantes, dignitários e os sarcedotes, sendo que esses dois últimos eram considerados as classes dominantes. A aritmética asteca foi menos desenvolvida em comparação com os Maias, mas não menos importante. A data de nascimento de cada pessoa afirmaria qual profissão ela seguiria.

Assim como muitos povos antigos, faziam tributos aos seus deuses, de acordo com sua capacidade de produção, fauna e flora. Como foi citado antes, muitas vezes utilizavam escravos para sacrifícios humanos, e o guerreiro que conseguisse um número maior de escravos dos povos vizinhos era tratado com um respeito maior aos demais. Homens e mulheres com caráter jovial também eram utilizados para esses tipos de sacrifício.

Embora a arquitetura asteca fosse destruída em 1520, com a chegada dos espanhóis, pode-se ter uma idéia de como se era formada através de pinturas da época. A escultura, música e literatura merecem destaque, sendo basicamente representações religiosas.

O ultimo capítulo do livro conta de forma resumida como sucedeu a conquista desse povo, considerando como um dos fatores principais a sorte que Cortez teve em chegar ao solo mexicano no período em que, segundo a crença da religião asteca, o deus Quetzalcóatl retornaria, além dos equipamentos de guerra.

Muitos historiadores vão ter certo receio ao ler esse livro, pois não apresenta nota de rodapé, embora o autor faça uma lista de bibliografia no final. Acho relevante que o autor cita um manuscrito histórico asteca, o que poderia valorizar o conteúdo apresentado. A bibliografia é pouca, mas valiosa, além do autor respeitado quando trata-se de temas relacionados aos povos da América Latina.

Preço médio: 12,00

19 de janeiro de 2010

Michael Baigent & Richard Leigh - A Inquisição


BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
Dotada de grandes poderes em diversas épocas e de um nome que, por si só, era suficiente para inserir medo às massas, A inquisição fora um braço da Igreja que durante séculos, a ferro e fogo – principalmente este último –, perpetrou intimidações, pressão psicológica, tortura física e execuções. No entanto, devo retificar-me de um erro proposital, pois a Inquisição não “fora” um braço da Igreja. Permanece sendo até os dias atuais. E é sobre este órgão que Michael Baigent e Richard Leigh falam em sua obra, que leva como título o nome mais famoso do Santo Ofício.
O livro abre com a abertura da “Parábola do Grande Inquisidor”, de Feodor Dostoievski, trabalho este embutido no romance “Os Irmãos Karamázovi”, publicado no fim do século XIX na Rússia. Nele, um inquisidor se encontra com um homem que, ao que tudo indica, é Cristo reencarnado. Porém, ao invés de prestar-lhe reverência, lhe prende nas masmorras da inquisição, levando sua função até as últimas consequências. Uma fábula cuja função, no contexto do livro, serve para exemplificar a implacabilidade da instituição.
O tribunal da Inquisição é mais complexo e duradouro do que geralmente se acredita. Repleto de nuances, sua atuação durante os séculos fora até certo ponto padronizada, mas a violência de suas atividades oscilara de acordo com o contexto da época e o local de ação. O livro faz um sensacional trabalho em abordar essas questões. Nele, os autores têm o cuidado de separar, por exemplo, a atuação da Inquisição espanhola, que agia como um braço do estado, da Inquisição que agia sob auspícios papais. Não apenas isso. No decorrer do trabalho, os autores dissertam sobre a ação da Inquisição nas diversas áreas da Europa, no novo mundo, o ataque às supostas bruxas e alguns dos casos mais importantes relativos ao tema, como a cruzada contra os Cátaros, incitada por Inocêncio III e levada a cabo com afinco pelos inquisidores.

Durante o tempo, os “adversários” que a Igreja teve que enfrentar foram diversos. Como se não bastasse a paranoia de caça às bruxas, a Igreja enxergava rivais e inimigos de sua doutrina nos protestantes, nos supostos místicos, na Maçonaria e até mesmo em governantes laicos. A ação do Santo Ofício em cada caso foi diferenciada, mas em todos eles dispensava sutilezas.

No início desta resenha, falava sobre a existência do Santo Ofício nos dias atuais. De fato, ele ainda vive, só que é atualmente conhecido pelo epíteto de “Congregação para a Doutrina da Fé”. Como os autores citam em certo trecho, uma “plástica” para tentar dissolver o desgaste obtido com a má imagem do órgão eclesiástico durante os séculos. O livro, que fora lançado originalmente em 1999, termina falando sobre o período do pontificado de João Paulo II. No entanto, o que mais me chamou a atenção é que um longo capítulo do livro, que leva o atual nome do Santo Ofício, fala sobre o Prefeito da Congregação. Com um certo tom denunciador, os autores apontam diversas incongruências de suas palavras e o caráter supostamente obsoleto de suas afirmações. Pinta-o de forma extremamente conservadora e radical. O interessante é que esse, na época Prefeito da Inquisição, era o Cardeal Ratzinger, que futuramente seria eleito como o Papa Benedito XVI (ou Bento XVI, como normalmente veiculado na mídia).

Eis um livro que recomendo tanto para historiadores quanto para meros entusiastas da disciplina de História. Sua leitura é deveras agradável e em nenhum momento se torna enfadonha. Altamente recomendado.


Preço médio: R$ 63,00

13 de janeiro de 2010

Nigel Cawthorne - A vida sexual dos papas


CAWTHORNE, Nigel. A vida sexual dos papas. São Paulo: Ediouro, 2002.
Escândalos sexuais envolvendo membros do clero católico são de conhecimento comum. Casos de abuso sexual de menores de idade ilustram jornais e revistas do mundo todo. No entanto, se enganam aqueles que acreditam que escândalos deste tipo são recentes. Desde o início da igreja cristã, o alto clero e principalmente os papas entregaram-se aos mais diversos prazeres da carne. Este é justamente o tema desta obra. A vida sexual dos papas aborda, desde o início da Igreja Católica, a conduta sexual de diversos pontífices, e por tabela alguns dos prelados mais próximos a estes.
Nigel Cawthorne é um jornalista inglês, que é conhecido por frases sarcásticas em suas obras e por procurar mostrar sempre um lado menos conhecido das figuras que aborda. Afirma que “todos gostam de sexo” e, portanto, este é um tema recorrente em suas obras.

O livro de Cawthorne não foge à regra, tendo trechos de puro sarcasmo, ressaltando principalmente atos hipócritas de pontífices que tentavam impor o celibato ou normas de conduta sexual, quando eles mesmos entregavam-se aos maiores abusos e orgias. Chocavam seus contemporâneos, apesar da liberdade sexual que muitos (leia-se poderosos) possuíam na época.

Era prática comum que os bispos possuíssem concubinas, por vezes esposas. Muitos papas cobravam uma taxação destes prelados para que estes as mantivessem, arrecadando grandes fortunas. Alguns pontífices tentaram impor o celibato, mas fracassavam ao perceber que isto aumentava drasticamente os casos de sodomia entre os prelados.

O incesto era uma prática comum. Por exemplo, o caso de Rodrigo Bórgia, o papa Alexandre VI: muito se falava sobre o caso incestuoso deste com sua filha Lucrecia Bórgia, e ele estava longe de ser o único. Papas que mantinham relações com irmãs e irmãos, mães, tias, não foram poucos. Simonia, subornos em sínodos, envenenamentos, infanticídios... Práticas que os papas não se faziam de rogados em praticar, se fosse para atingir seus objetivos.

O livro possui uma leitura leve. Sua linguagem não é rebuscada, e não se torna cansativa. O livro é totalmente ilustrado, e sua leitura é mais rápida do que se supõe. Contudo, é necessário criticar alguns pontos importantes, principalmente no que concerne aos aspectos acadêmicos.

O livro não possui uma única referência. Nenhuma nota, por consequência. Você passa todo o tempo sem saber a fonte dos fatos apresentados. Além disso, não usa nenhuma fonte primária, e sua bibliografia não é deveras extensa. No meio acadêmico, talvez não tivesse a maior das aceitações, e muitos historiadores torceriam o nariz para ele. Ainda assim, é uma leitura válida, principalmente para entusiastas e pessoas que levam á ferro e fogo a infalibilidade papal, pela possibilidade de suscitar o debate.

Preço médio: R$ 59,00