2 de setembro de 2010

Paul Veyne - Como se escreve a história


VEYNE, Paul. Como se escreve a históriaa se escreve a hist; Foucault revoluciona a história. 4ª ed., Brasília: Editora UNB, 2008.
História, por si só, é um termo que suscita definições simplistas. Enquanto os menos instruídos ou menos interessados professam que história é nada mais, nada menos, que o passado, muitos historiadores costumam defini-la como o entendimento do passado para se compreender o presente e, consequentemente, abrir perspectivas para o futuro. Contudo, definir a história, seja com a palavra “passado” quanto com frases seria reduzir algo tão importante a meras sínteses pouco elucidativas. Por esse motivo, faz-se necessário o estudo mais aprofundado da história. Uma das obras clássicas a tratar o assunto é Como se escreve a história, de Paul Veyne. O francês, especialista em Império Romano, escrevera a obra em meados de 1968, e até nossos dias ela se mostra uma obra certeira no que concerne a suscitar discussões.

Nesse livro, Veyne não se propõe a tratar assuntos comuns aos historiadores como a nouvelle histoire ou o positivismo. Nele, o autor imerge mais profundamente no tema, esmiuçando-o. Dividindo o livro em três partes, Veyne separa “O objeto de estudo”, “A compreensão” e “O progresso da história”. Discorre, inicialmente, sobre a história como narrativa verídica, discutindo sobre eventos humanos ou não, e as armadilhas da hierarquização da história. Esta hierarquização – mas não apenas ela – causa lacunas, que são características da história em si; noção por vezes incoerente, nem sempre factual e sem dimensões absolutas, como os próprios subtítulos do capítulo 2, “Tudo é histórico, logo, a história não existe”.

O título, isoladamente, é um tanto desconfortável. Porém, o autor sabe exatamente sobre o que está tratando. Veyne expõe que a história é uma construção; as informações a serem historicizadas são recortadas por aquele responsável pelo relato. Assim, o historiador se torna o construtor de uma trama. A trama, da forma como é tecida, faz com que a história siga um ou outro viés, o que mostra que uma construção diferente de trama traria resultados distintos, baseados em relações de valores – estes relativos.
Durante boa parte do livro, o autor se propõe a um extenso debate sobre a discussão “História é ou não é uma ciência”. Expondo seus argumentos, Veyne discorda que a história seja, de fato, uma ciência, pela ausência de leis; critica o empirismo lógico e afirma que a história nunca será científica. Entre outras discussões, classifica o termo sociologia como uma concepção demasiadamente estreita da história. Não critica o sociólogo em questão, mas afirma que a sociologia ou é uma filosofia política, uma história das civilizações contemporâneas ou um gênero literário atrativo. Paul Veyne trata desse assunto no item As três sociologias.

Aproximadamente dez anos depois de escrever a obra em questão, Veyne escreveu um ensaio chamado Foucault revoluciona a história. O ensaio é anexado ao livro; porém, sua linguagem é deveras intrincada, sendo recomendada apenas a leitores mais experientes.

Com exceção desse apêndice a respeito de Michel Foucault, a obra de Veyne poderia ser lida tranquilamente por qualquer entusiasta da história. É uma obra ideal para se iniciar qualquer debate a respeito de historiografia e cuja leitura é de suma importância para qualquer historiador, ainda que possa causar discordâncias.

Preço médio: R$ 36,00

17 de junho de 2010

Geraldo Pieroni - Banidos


PIERONI, Geraldo. Banidos: a Inquisição e a lista dos cristãos-novos condenados a viver no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
São diversos os trabalhos, tanto de historiadores brasileiros como estrangeiros, que tratam sobre os cristãos-novos. Entre alguns dos mais conhecidos, estão Anita Novinsky, José Gonçalves Salvador e Eduardo de Oliveira França. Geraldo Pieroni adentra o hall dos historiadores que tratam sobre o tema com seu livro Banidos: a Inquisição e a lista dos cristãos-novos condenados a viver no Brasil. Usando os autores anteriormente citados como referência, além de se valer de diversas fontes primárias – a maioria consultada em Portugal –, Pieroni constrói uma pequena obra que trata, principalmente, da pena de degredo.
O cristão-novo, por definição, é o judeu convertido ao catolicismo. Esta conversão é geralmente imposta, sob ameaças diversas. Em Portugal, mais precisamente em outubro de 1497, os todos os judeus são obrigados a converterem-se ao catolicismo. Por conta da imposição, grande parte dos judeus se mostrava católico em público, mas mantinha suas práticas religiosas oriundas da sua religião. Os seguidores da dita “Lei de Moisés”, ao serem desmascarados, eram julgados pela Inquisição, sendo a punição mais comum o uso do “sambenito” (uma espécie de colete que servia para que todos reconhecessem o crime do acusado) e o degredo para alguma das colônias. Pieroni trata principalmente da pena de degredo para o Brasil.

O livro se divide em quatro partes principais. A primeira trata do tema em questão, dividia em capítulos. A segunda parte é uma extensa lista de condenados ao degredo no Brasil, retirada de processos da época. A terceira parte é uma lista de sobrenomes – geralmente portugueses – que comumente eram usados por cristãos-novos, aonde constam vários sobrenomes comuns a nós brasileiros. Dentro das possibilidades, o autor tenta tratar suas origens. Por fim, o livro encerra com uma cronologia da Inquisição, partindo da expulsão dos judeus de Castela e Aragão em 1492 até a extinção do tribunal em seu molde antigo, em 1821.

Banidos
é um livro que discorre exclusivamente sobre a questão do degredo no Brasil. Num caso de busca por temas adjacentes, como a atuação da Inquisição em nossas terras, outros autores apresentam trabalhos com melhores resultados. Talvez seu principal mérito é a forma resumida com a qual o tema é apresentado, ideal para iniciantes que queiram entender o funcionamento da pena do degredo. Contudo, para leitores mais experientes no assunto ou que tenham contato com as obras dos autores citados no início desta resenha, Banidos torna-se um livro muito restrito, e talvez pouco relevante. Pesa a seu favor a presença dos processos apresentados pelo autor na segunda parte do livro e pela lista de sobrenomes. Indicado apenas a quem busca compreender a questão do degredo.
Preço médio: R$ 30,00

12 de junho de 2010

Heinrich Kramer e James Sprenger - O martelo das feiticeiras


KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras. 20ª ed. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 2009.

Estudado por historiadores, antropólogos e até mesmo psiquiatras, o Malleus Maleficarum configura-se como uma obra que, embora seja vista por muitos como praticamente uma aberração, é fundamental para entender o pensamento do início da Idade Moderna em relação às praticas mágicas, demonologia e até mesmo nuances do comportamento humano. Diferentes análises podem ser feitas acerca deste livro.
É irônico, tanto quanto trágico, que este polêmico livro, que é uma das páginas mais sangrentas e terríveis do cristianismo e que é tido como um estandarte da intolerância e fanatismo religioso, tenha sido escrito durante o esplendor do Renascimento. Escrito pelos dominicanos James Sprenger e Heinrich Kramer, o Malleus Maleficarum se tornou mais do que um simples livro; tornou-se a bíblia do inquisidor, seu livro de cabeceira, ao lado de obras como o infame Directorum Inquisitorum, escrito pelo também dominicano Nicolau Eymerich em 1376 e revisto por Francisco de La Peña em 1578. Vale citar que este serviu de grande inspiração para o Martelo das Feiticeiras. Algumas semelhanças são visíveis, e Francisco de La Peña lamenta que autores como Sprenger não tenham feito referência ao manual de Eymerich.

Diferentes óticas são lançadas ao Malleus Maleficarum até os dias atuais. Certamente, as questões mais abordadas em relação ao livro são a misoginia visível dos autores – ao ponto da obra ser considerada por muitos, e como escrito atrás da edição resenhada, como “o mais importante livro jamais escrito sobre o feminismo” – e o levante de questões acerca de uma histeria coletiva; hipótese esta levantada por autores do mundo todo em relação à caça às bruxas na Europa moderna.

Levantar os motivos que fizeram com que a caça às bruxas atingisse os níveis de violência assustadores, principalmente entre o fim do século XVI e a segunda metade do século XVII, faria esta análise tomar outros rumos. Criticamente, os objetivos são outros.

Como manual, é necessário dizer que fora muito bem montado. Independente de argumentos como os que afirmam que Jesus “veio ao mundo e sofreu por nós, deu-nos, a nós homens, esse privilégio”, quando afirmam que os homens não se entregam à lascívia, estando salvos de copular com demônios, a quantidade de questões abordadas é impressionante. Os autores discorrem acerca de diversos detalhes, e em certos momentos parece que nenhum ponto fora esquecido, não dando margem à contestações. Inclusive, os autores refutam algumas das contestações que na época eram feitas aos argumentos dos inquisidores, como por exemplo ao citar os que afirmam “não existir bruxaria no mundo, salvo na imaginação dos homens, os quais, pela sua ignorância das causas ocultas que ainda ninguém compreende, atribuem certos efeitos naturais à bruxaria.” Interessante perceber que esta crítica, feita muitas vezes em diversas épocas, já eram presentes mesmo no período em que a caça às bruxas era prolífica.

O livro é dividido em três partes. A primeira parte, intitulada “Das Três Condições Necessárias para a Bruxaria: O Diabo, a Bruxa e a Permissão de Deus Todo-Poderoso”. Entre suas principais questões, estão os argumentos que validam como certo o pecado de não se crer em bruxaria, criticam a lascívia feminina e sua fácil corrupção, além de exaltar a permissão de Deus para as práticas das bruxas. A segunda parte é intitulada “Dos Métodos Pelos Quais se Infligem os Malefícios e de que Modo Podem Ser Curados”. Nela, são tratadas questões acerca dos maléficos, de como são feitos os pactos com o demônio e das formas de se proteger ou curar dos supracitados malefícios. A terceira parte trata das questões judiciais, tanto do tribunal eclesiástico quanto do civil. Prescreve como devem ser executados os processos, a leitura de sentenças, o uso da tortura e as condenações. Tudo prescrito de forma detalhada e minuciosa.

Como manual, é impossível dizer que tenha sido um livro escrito com negligência. Obviamente, se excluirmos a separação da conjuntura da época com a atual, veremos um sem-número de absurdos, afirmações descabidas e uma miríade de superstições no mínimo risíveis. Contudo, ao voltarmos nossos olhos mais uma vez para a época em questão, quando esses absurdos eram na realidade crenças bem definidas, percebemos que a cristandade, salvo determinadas contestações isoladas, via a caça às bruxas não como uma perseguição paranóica misógina; o trabalho do Santo Ofício era, acima de tudo, de vital importância para a sobrevivência do cristianismo diante das atribulações e dos incessantes esforços do demônio em minar os servos de Deus. Um trabalho de retidão, cujo sangue derramado não era a marca de uma perseguição cruel, mas sim, a mostra da piedade divina, onde dor e purgação dos pecados andavam lado a lado, validadas por bulas de diferentes papas.

O trabalho, por sua crueldade, foi contestado em diversas ocasiões. Não à toa, Michelet em seu A Feiticeira critica por diversas vezes a obra, se referindo á Sprenger como “idiota” [1]. Epíteto este deferido aos dominicanos em geral.

Em resumo, é um livro de fundamental importância para qualquer historiador que pretenda estudar sobre o Santo Ofício, a demonização do feminino ou mesmo sobre as ditas “paranóias sociais” nas mais diferentes épocas. Essencial para se compreender – ou ao menos para tentar fazê-lo – a mentalidade dos inquisidores; entender o motivo da crueldade ser vista como piedade pelo Tribunal do Santo Ofício.

[1] MICHELET, Jules. A feiticeira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p. 156.

Preço médio: R$ 60,00.

27 de março de 2010

Carlo Ginzburg - História noturna


GINZBURG, Carlo. História noturna: decifrando o sabá. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
Sendo a extensão de um artigo escrito para a revista Annales e, por que não dizer, uma continuação em maiores proporções do livro Os andarilhos do bem, História noturna é seguramente uma das obras mais impressionantes de Carlo Ginzburg. Mais conhecido por obras como O queijo e os vermes – que foi escrito através de fontes encontradas na pesquisa sobre os benandanti, tema do primeiro livro citado – e Mitos, emblemas, sinais, Ginzburg conseguiu com esta obra uma síntese interessante de análise antropológica, recortes geográficos bem organizados e, sem se prender a “achismos”, trabalha bem com as fontes que possui.

O livro pode surpreender ao leitor desavisado. Embora possua o subtítulo “decifrando o sabá”, o livro discorre pouco sobre o tema. A maior parte do tempo, o autor está preocupado em descobrir as origens dos elementos que, convergidos, criaram os estereótipos da suposta reunião de bruxas. Em seu início, Ginzburg discute acerca de autores que já trataram o tema, apontando problemas e reducionismos em suas análises. Ao seguir, começa a lentamente entrar no tema.
O livro está longe de responder perguntas de forma definitiva. Se observarmos bem, percebemos que na verdade o que o autor faz é expor novas dúvidas, mas apresentando indícios muito fortes que não apenas justificam seu levantamento, mas apresentam hipóteses embasando suas suposições. Entretanto, está longe de ser um livro em que o assunto não chega a lugar algum. A análise de aspectos culturais, de diversas civilizações, lugares e épocas distintas, que se convergem e denotam extratos culturais de tempos muito remotos – possivelmente eurásicos, afirma o autor – é de tal forma coerente que a maioria das suposições feitas por Ginzburg nos parecem fazer muito sentido.

Experiente como é, Carlo Ginzburg admite a impossibilidade de certas perguntas virem a ser respondidas. Ainda assim, arrisca-se a apontar suas suposições (sempre se embasando ao máximo). Eis o elemento mais encantador da obra.

Como dito anteriormente, quem busca uma detalhada descrição do sabá neste livro poderá decepcionar-se. Entretanto, se buscar entender alguns dos elementos presentes neste ritual, será contemplado com perspectivas que até então possivelmente não imaginava.
Embora possar soar um tanto complexo para iniciantes no tema, recomendo-a a historiadores que se interessam por mentalidades e àqueles que se familiarizam com a antropologia.
Preço médio: R$ 60,00

3 de fevereiro de 2010

Jacques Soustelle - Os astecas na véspera da conquista espanhola

Esta resenha foi escrita por Juliana Kick

SOUSTELLE, Jacques. Os astecas na véspera da conquista espanhola. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

O livro de Jacques Soustelle é composto por uma introdução, sete capítulos e um apêndice. De leitura fácil e simples, o autor aborda diversos aspectos da vida cotidiana dos astecas de maneira simples e abrangente, sendo de fácil compreensão a um leitor leigo. Ao decorrer de sua obra, o autor mostra como a complexa civilização asteca foi interrompida bruscamente com a conquista espanhola. Em sua análise da civilização asteca, o autor divide a sociedade em uma pirâmide social, onde o imperador estaria no topo do poder, seguido dos dignitários, negociantes, artesãos plebe e escravos. Essa divisão em camadas sociais que aparece principalmente no segundo capítulo "A Sociedade e o estado no início do século XVI", pode ser compreendida, afinal, Soustelle era um importante antropólogo e faz uso da análise do homem como um ser biológico, social e cultural em todo o seu livro.

Soustelle incorpora em sua obra certos anacronismos para esclarecer alguns pontos da civilização asteca. Utiliza títulos nobiliárquicos até então conhecidos somente na Europa para descrever os mexicas. Diferencia os dignitários de plebeus ao considerá-los a aristocracia asteca.

A pesquisa arqueológica é de grande importância na civilização asteca: cerâmicas, utensílios, armas, esculturas foram descobertos em abundância. Os mexicanos queimavam seus mortos e por isso não se possui fonte sobre seus túmulos. Monumentos que resistiram a destruição espanhola foram poucos. Já a documentação escrita é muito rica, os mexicanos eram estudiosos e muito curiosos a respeito de si mesmos e após a conquista grande parte de suas memórias foram traduzidas do nahuatl para a língua espanhola.

Um dos pontos que mais se destacam na obra de Jacques Soustelle é a sua concepção de interrupção da civilização asteca. O autor demonstra grande pesar pela destruição da cultura dos mexicas, umas das mais ricas e importantes que o mundo já conheceu e aborda em algumas passagens a forma cruel e bárbara com que os espanhóis conquistaram os conquistaram.

O foco de seu livro é sem dúvida a vida cotidiana dos astecas. Dedica muitos capítulos expondo o comportamento dos mexicas na vida diária, como comiam, se vestiam, se relacionavam, sua higiene, roupas, acessórios, alimentação, ritos, infância, vida familiar e vários outros aspectos de sua vida. Dedica grande parte sua análise ao homem asteca comum, que trabalhava em obras públicas, em sua parcela terra, pagava impostos, casava seus filhos.

Preço Médio: R$ 36,00

24 de janeiro de 2010

Jacques Soustelle - A civilização Asteca

Esta resenha foi escrita por Juan Filipi Garces

SOUSTELLE, Jacques. A Civilização Asteca. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2002.

América pré-colombiana tem sido o tema que mais demonstro entusiasmo dentro da história, seja pelos Astecas, Maias ou Incas. Esse livro, como o título sugere, descreve as características básicas dos Astecas, sendo assim, não é um livro para pesquisas aprofundadas.

O livro é basicamente um resumo dessa civilização que ocupou boa parte do território mexicano. A divisão dos capítulos é um tanto simplória, classificados por temas específicos, como sociedade, governo e religião. O livro em si não segue uma linha cronológica, com exceção do primeiro capítulo, que redige como sucedeu a origem dessa civilização.

Muitos povos são citados, como os Olmecas e Toltecas e os chamados pós-toltecas, e desse ultimo, só alguns são necessários ser citados para o entendimento deste livro. Após uma guerra entre o estado de Texcoco, tendo Tenochtitlán como seu aliado, contra Azcapotzalco, no qual resultou na vitória dos dois estados aliados. A partir de então, formavam a Tríplice aliança, constituída por Tenochtitlán, Texcoco e por uma cidade pertecente a tribo de Azcapotzalco, Tlacopan. A tríplice aliança tornou-se o conhecido império asteca.

A sociedade era formada por algumas classes: povo (cidadãos normais), escravos (normalmente prisioneiros de guerra e usados como sacrifícios), artesãos, negociantes, dignitários e os sarcedotes, sendo que esses dois últimos eram considerados as classes dominantes. A aritmética asteca foi menos desenvolvida em comparação com os Maias, mas não menos importante. A data de nascimento de cada pessoa afirmaria qual profissão ela seguiria.

Assim como muitos povos antigos, faziam tributos aos seus deuses, de acordo com sua capacidade de produção, fauna e flora. Como foi citado antes, muitas vezes utilizavam escravos para sacrifícios humanos, e o guerreiro que conseguisse um número maior de escravos dos povos vizinhos era tratado com um respeito maior aos demais. Homens e mulheres com caráter jovial também eram utilizados para esses tipos de sacrifício.

Embora a arquitetura asteca fosse destruída em 1520, com a chegada dos espanhóis, pode-se ter uma idéia de como se era formada através de pinturas da época. A escultura, música e literatura merecem destaque, sendo basicamente representações religiosas.

O ultimo capítulo do livro conta de forma resumida como sucedeu a conquista desse povo, considerando como um dos fatores principais a sorte que Cortez teve em chegar ao solo mexicano no período em que, segundo a crença da religião asteca, o deus Quetzalcóatl retornaria, além dos equipamentos de guerra.

Muitos historiadores vão ter certo receio ao ler esse livro, pois não apresenta nota de rodapé, embora o autor faça uma lista de bibliografia no final. Acho relevante que o autor cita um manuscrito histórico asteca, o que poderia valorizar o conteúdo apresentado. A bibliografia é pouca, mas valiosa, além do autor respeitado quando trata-se de temas relacionados aos povos da América Latina.

Preço médio: 12,00

19 de janeiro de 2010

Michael Baigent & Richard Leigh - A Inquisição


BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
Dotada de grandes poderes em diversas épocas e de um nome que, por si só, era suficiente para inserir medo às massas, A inquisição fora um braço da Igreja que durante séculos, a ferro e fogo – principalmente este último –, perpetrou intimidações, pressão psicológica, tortura física e execuções. No entanto, devo retificar-me de um erro proposital, pois a Inquisição não “fora” um braço da Igreja. Permanece sendo até os dias atuais. E é sobre este órgão que Michael Baigent e Richard Leigh falam em sua obra, que leva como título o nome mais famoso do Santo Ofício.
O livro abre com a abertura da “Parábola do Grande Inquisidor”, de Feodor Dostoievski, trabalho este embutido no romance “Os Irmãos Karamázovi”, publicado no fim do século XIX na Rússia. Nele, um inquisidor se encontra com um homem que, ao que tudo indica, é Cristo reencarnado. Porém, ao invés de prestar-lhe reverência, lhe prende nas masmorras da inquisição, levando sua função até as últimas consequências. Uma fábula cuja função, no contexto do livro, serve para exemplificar a implacabilidade da instituição.
O tribunal da Inquisição é mais complexo e duradouro do que geralmente se acredita. Repleto de nuances, sua atuação durante os séculos fora até certo ponto padronizada, mas a violência de suas atividades oscilara de acordo com o contexto da época e o local de ação. O livro faz um sensacional trabalho em abordar essas questões. Nele, os autores têm o cuidado de separar, por exemplo, a atuação da Inquisição espanhola, que agia como um braço do estado, da Inquisição que agia sob auspícios papais. Não apenas isso. No decorrer do trabalho, os autores dissertam sobre a ação da Inquisição nas diversas áreas da Europa, no novo mundo, o ataque às supostas bruxas e alguns dos casos mais importantes relativos ao tema, como a cruzada contra os Cátaros, incitada por Inocêncio III e levada a cabo com afinco pelos inquisidores.

Durante o tempo, os “adversários” que a Igreja teve que enfrentar foram diversos. Como se não bastasse a paranoia de caça às bruxas, a Igreja enxergava rivais e inimigos de sua doutrina nos protestantes, nos supostos místicos, na Maçonaria e até mesmo em governantes laicos. A ação do Santo Ofício em cada caso foi diferenciada, mas em todos eles dispensava sutilezas.

No início desta resenha, falava sobre a existência do Santo Ofício nos dias atuais. De fato, ele ainda vive, só que é atualmente conhecido pelo epíteto de “Congregação para a Doutrina da Fé”. Como os autores citam em certo trecho, uma “plástica” para tentar dissolver o desgaste obtido com a má imagem do órgão eclesiástico durante os séculos. O livro, que fora lançado originalmente em 1999, termina falando sobre o período do pontificado de João Paulo II. No entanto, o que mais me chamou a atenção é que um longo capítulo do livro, que leva o atual nome do Santo Ofício, fala sobre o Prefeito da Congregação. Com um certo tom denunciador, os autores apontam diversas incongruências de suas palavras e o caráter supostamente obsoleto de suas afirmações. Pinta-o de forma extremamente conservadora e radical. O interessante é que esse, na época Prefeito da Inquisição, era o Cardeal Ratzinger, que futuramente seria eleito como o Papa Benedito XVI (ou Bento XVI, como normalmente veiculado na mídia).

Eis um livro que recomendo tanto para historiadores quanto para meros entusiastas da disciplina de História. Sua leitura é deveras agradável e em nenhum momento se torna enfadonha. Altamente recomendado.


Preço médio: R$ 63,00

13 de janeiro de 2010

Nigel Cawthorne - A vida sexual dos papas


CAWTHORNE, Nigel. A vida sexual dos papas. São Paulo: Ediouro, 2002.
Escândalos sexuais envolvendo membros do clero católico são de conhecimento comum. Casos de abuso sexual de menores de idade ilustram jornais e revistas do mundo todo. No entanto, se enganam aqueles que acreditam que escândalos deste tipo são recentes. Desde o início da igreja cristã, o alto clero e principalmente os papas entregaram-se aos mais diversos prazeres da carne. Este é justamente o tema desta obra. A vida sexual dos papas aborda, desde o início da Igreja Católica, a conduta sexual de diversos pontífices, e por tabela alguns dos prelados mais próximos a estes.
Nigel Cawthorne é um jornalista inglês, que é conhecido por frases sarcásticas em suas obras e por procurar mostrar sempre um lado menos conhecido das figuras que aborda. Afirma que “todos gostam de sexo” e, portanto, este é um tema recorrente em suas obras.

O livro de Cawthorne não foge à regra, tendo trechos de puro sarcasmo, ressaltando principalmente atos hipócritas de pontífices que tentavam impor o celibato ou normas de conduta sexual, quando eles mesmos entregavam-se aos maiores abusos e orgias. Chocavam seus contemporâneos, apesar da liberdade sexual que muitos (leia-se poderosos) possuíam na época.

Era prática comum que os bispos possuíssem concubinas, por vezes esposas. Muitos papas cobravam uma taxação destes prelados para que estes as mantivessem, arrecadando grandes fortunas. Alguns pontífices tentaram impor o celibato, mas fracassavam ao perceber que isto aumentava drasticamente os casos de sodomia entre os prelados.

O incesto era uma prática comum. Por exemplo, o caso de Rodrigo Bórgia, o papa Alexandre VI: muito se falava sobre o caso incestuoso deste com sua filha Lucrecia Bórgia, e ele estava longe de ser o único. Papas que mantinham relações com irmãs e irmãos, mães, tias, não foram poucos. Simonia, subornos em sínodos, envenenamentos, infanticídios... Práticas que os papas não se faziam de rogados em praticar, se fosse para atingir seus objetivos.

O livro possui uma leitura leve. Sua linguagem não é rebuscada, e não se torna cansativa. O livro é totalmente ilustrado, e sua leitura é mais rápida do que se supõe. Contudo, é necessário criticar alguns pontos importantes, principalmente no que concerne aos aspectos acadêmicos.

O livro não possui uma única referência. Nenhuma nota, por consequência. Você passa todo o tempo sem saber a fonte dos fatos apresentados. Além disso, não usa nenhuma fonte primária, e sua bibliografia não é deveras extensa. No meio acadêmico, talvez não tivesse a maior das aceitações, e muitos historiadores torceriam o nariz para ele. Ainda assim, é uma leitura válida, principalmente para entusiastas e pessoas que levam á ferro e fogo a infalibilidade papal, pela possibilidade de suscitar o debate.

Preço médio: R$ 59,00

26 de dezembro de 2009

Venha a nós o Vosso reino: a legitimação da Corte Medieval através da imagem da Corte Celestial


Olá, meus caros.

Venho através desta postagem divulgar o artigo do qual fui co-autor, publicado na Revista Mirábilia.

Para a confecção desse artigo, contei com a colaboração do Prof. Dr. Jó Klanovicz, especialista em História Ambiental e professor da Universidade Federal de Santa Catarina e do futuro colaborador do blog, Rodrigo Prates de Andrade.

O tema do artigo trata da semelhança entre as cortes medievais com o ideal de cortes celestiais. Nele, tratamos a seguinte questão: a ideia praticamente imposta de vontade divina e semelhança das cortes medievais com a celestial seria uma ferramenta de legitimação, com o intúito da manutenção de uma ordem social vigente? Qual seria a relação entre os Reis e o clero nessa conexão do divino com o terreno?

Espero que aqueles que lerem este artigo o apreciem tanto quanto eu apreciei fazê-lo. Você pode fazer o download do artigo em formato PDF AQUI.

Obrigado. Críticas e comentários serão bem vindos.

24 de dezembro de 2009

Carlo Ginzburg - O queijo e os vermes

Esta resenha foi escrita por Juan Filipi Garces

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição: São Paulo, Companhia das letras, 2006.


A resenha aqui apresentada refere-se à edição de bolso, que por conseqüência, acaba sendo de fácil manuseio e mais acessível em comparação a um livro normal por estar mais em conta em se tratando de questão financeira.

A história começa no século XVI, retratando a vida de Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, um moleiro que foi perseguido pela inquisição por ter uma visão diferente da sua época em relação à igreja. Ele é submetido a uma série de interrogatórios, e neles, vai apresentando suas idéias, e as obras que tomou como ponto de referência. Não levava a Bíblia como idéia universal, e isso contribuiu para os inquisidores o tratarem com um certo receio. O autor mostra diversos livros e artigos no qual Menocchio lera e teria tomado como referencia para suas idéias, embora afirmasse que elas vieram de sua própria cabeça.

Houve uma preocupação entre alguns moradores da aldeia onde morava sobre seu destino. Alertaram-no para não ficar mencionando as suas idéias abertamente, mas foi corajoso o suficiente para não se reprimir perante a inquisição, usando assim, diversos argumentos para defender suas idéias, e uma das principais, foi sobre seu pensamento sobre a singularidade cosmológica, cujo foi a partir daí que Ginzburg teve a idéia do título do livro, na qual afirmava: “No inicio tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo que o queijo é feito do leite, e do qual surge os vermes, e esses foram os anjos”.

Não menos pretensioso, afirmou que conversar com uma árvore era equivalente a se confessar com um padre. Conta também, alguns relatos de padres canibais que sacrificavam pessoas e comiam suas carnes, e se tivesse bom gosto, era uma pessoa livre de pecados, caso contrário, seria uma pessoa impura e deveria ter morrido antes.

A principal característica do autor nesta obra, é contar uma história em que normalmente muitos passariam despercebidos. Por escrever através da metodologia da micro-história, a principal característica do livro e contar a história de alguém ou algo que não teria uma grande importância na sociedade e sua determinada visão. Apresenta uma história descritiva, mas tendo grande preocupação com a literatura. Mostra uma pequena demonstração da cultura oral, que os camponeses normalmente utilizavam. Na época em que a história se passa, poucos tinham a sorte de saberem ler, então a forma de cultura oral era importante, mas com elas, seria difícil decifrar uma informação, ou se conseguisse, deixaria muitas pistas distorcidas. Por esse e outros motivos, Menocchio achava uma ofensa aos pobres as missas serem rezadas em latim. Menocchio tinha um pensamento formado, mas é indiscutível que se não fosse pela lista de livros que lera, ele não teria metade dessas idéias.

Embora Menocchio fosse um moleiro, não teve medo de expor suas idéias e suas contradições, ao contrário de muitas pessoas da época, que não as colocavam por medo da inquisição, preferindo assim, aceitar os dogmas. Em caso de acusações pela inquisição, era preferido ser chamado de louco para não ser condenado por heresia; foi uma das propostas oferecidas para Menocchio, que corajosamente não aceitou. Num determinado trecho do livro, ele foi submetido a uma tortura, obrigando a confessar suas “heresias”. Uma grande análise pode ser feita em relação a essa tortura, mas vou deixar a surpresa para os leitores.

Podemos ainda perceber que Menocchio se interessava muito pelos assuntos religiosos, tanto que ele tomou como referencia a Bíblia e o Alcorão. Expôs uma teoria de que Jesus era apenas um homem comum, e não aquela figura espiritual que o cristianismo colocava. A cada afirmação, Menocchio se encaixava no caráter deísta, idéia que foi forte no iluminismo.

Em diversos países estava ocorrendo revoltas contra as instituições católicas, e a mesma estava com receio do avanço protestante, talvez acusar Menocchio de protestante seria algo proveitoso para a situação, pois mostraria como os protestantes eram hereges de acordo com a doutrina católica.

O queijo e os vermes é um livro que eu recomendo para todos que possuem certa admiração pela história, em especial a micro-história, pois seu autor, Carlo Ginzburg, é um dos pioneiros dessa visão histórica. É um livro que não pode faltar na estante de nenhum historiador.

Preço Médio: R$ 18.90

Colaboradores para o Blog


Salve, leitor.

Venho através desta postagem anunciar que o blog Leitura ObrigaHISTÓRIA deixará de ser um "blog de um homem só". A partir de hoje, ele contará com colaboradores, que enviarão resenhas de livros lidos por estes. Os nomes destes colaboradores serão revelados conforme suas resenhas forem publicadas.

A primeira resenha será postada em instantes.

Obrigado.

22 de outubro de 2009

Jean-Claude Schmitt - O corpo das imagens


SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens: Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2007.

Depois de um hiato de mais de dois meses, eis que finalmente posto uma nova resenha no blog. Esses últimos meses foram atribulados o suficiente para que minha leitura fosse atrasada e interrompida uma miríade de vezes. Sem mais delongas, vamos ao livro.

Todas as imagens têm sua razão de ser. Talvez devamos começar a analisar esta obra á partir deste ponto de vista. A antropologia cristã fora inegavelmente moldada através da iconografia; e nesse caso, quanto mais comum a imagem, mais ela nos revela as tendências da época em que elas foram produzidas. A função deste livro é discorrer sobre a imagem e suas funções durante toda a idade média.


A imagem, do latim imago, exprime um sentido. Pode carregar em si valores simbólicos, e por conta desta característica, acaba se tornando uma eficaz ferramenta de função política, religiosa ou ideológica; funções essas que não se prendem unicamente à imagem medieval. Como imagem, não podemos entender apenas pinturas ou esculturas. Por mais que estas formas de representação sejam o foco de Schmitt, devemos compreender que existem diversos suportes para a representação imagética, independente do que está sendo representado. Um deles, no entanto, é deveras ignorado: a imaginação. Esta se mescla com o real, dando origem a grande parte da iconografia cristã. Não nos esqueçamos que muito do que temos em mente á respeito de escatologias, por exemplo, é oriundo unicamente da imaginação dos responsáveis pelas obras de arte que as representam. Os elementos dessas obras, mediante orientação, brotam da mente dos artistas; ou seja, de sua imaginação.

Durante a Idade Média, as imagens serviam como mediadoras diretas entre o divino e o terreno. A confecção das mesmas era minuciosamente planejada para despertar emoções naqueles que as observavam. Desde o uso de pigmentação dourada para refletir a luz, até as representações de chagas para dar ênfase ao sofrimento de Cristo, por exemplo, muitos eram os artifícios para que as imagens, ou ao menos suas mensagens implícitas, se perpetuassem na imaginação dos que as observavam.

Jean-Claude Schmitt procura levar em conta não somente as imagens e o imaginário cristão medieval. O autor não se esquece de suas funções e seus usos no contexto social da época. Em um mundo em constante transformação, as imagens possuíram uma função deveras importante.

Sejam pinturas, sejam esculturas, sejam os sonhos ou a imaginação, as imagens tiveram um papel fundamental nessa antropologia cristã, em um período aonde ela definiu a maioria dos seus paradigmas.

Para todo historiador que almeja especializar-se em estudos iconográficos ou almejar manter contato com detalhes da história do cristianismo, independente do período, O corpo das imagens é, inegavelmente, uma obra de suma importância. Não nos esqueçamos que até os dias de hoje a iconodulia católica e a iconoclastia protestante – e de outras religiões – suscita conflitos ferrenhos. Entender a origem deste conflito e a argumentação de ambas as partes da contenda é fundamental para impedir julgamentos precipitados e sem embasamento. Uma leitura altamente recomendada.

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