13 de janeiro de 2010

Nigel Cawthorne - A vida sexual dos papas


CAWTHORNE, Nigel. A vida sexual dos papas. São Paulo: Ediouro, 2002.
Escândalos sexuais envolvendo membros do clero católico são de conhecimento comum. Casos de abuso sexual de menores de idade ilustram jornais e revistas do mundo todo. No entanto, se enganam aqueles que acreditam que escândalos deste tipo são recentes. Desde o início da igreja cristã, o alto clero e principalmente os papas entregaram-se aos mais diversos prazeres da carne. Este é justamente o tema desta obra. A vida sexual dos papas aborda, desde o início da Igreja Católica, a conduta sexual de diversos pontífices, e por tabela alguns dos prelados mais próximos a estes.
Nigel Cawthorne é um jornalista inglês, que é conhecido por frases sarcásticas em suas obras e por procurar mostrar sempre um lado menos conhecido das figuras que aborda. Afirma que “todos gostam de sexo” e, portanto, este é um tema recorrente em suas obras.

O livro de Cawthorne não foge à regra, tendo trechos de puro sarcasmo, ressaltando principalmente atos hipócritas de pontífices que tentavam impor o celibato ou normas de conduta sexual, quando eles mesmos entregavam-se aos maiores abusos e orgias. Chocavam seus contemporâneos, apesar da liberdade sexual que muitos (leia-se poderosos) possuíam na época.

Era prática comum que os bispos possuíssem concubinas, por vezes esposas. Muitos papas cobravam uma taxação destes prelados para que estes as mantivessem, arrecadando grandes fortunas. Alguns pontífices tentaram impor o celibato, mas fracassavam ao perceber que isto aumentava drasticamente os casos de sodomia entre os prelados.

O incesto era uma prática comum. Por exemplo, o caso de Rodrigo Bórgia, o papa Alexandre VI: muito se falava sobre o caso incestuoso deste com sua filha Lucrecia Bórgia, e ele estava longe de ser o único. Papas que mantinham relações com irmãs e irmãos, mães, tias, não foram poucos. Simonia, subornos em sínodos, envenenamentos, infanticídios... Práticas que os papas não se faziam de rogados em praticar, se fosse para atingir seus objetivos.

O livro possui uma leitura leve. Sua linguagem não é rebuscada, e não se torna cansativa. O livro é totalmente ilustrado, e sua leitura é mais rápida do que se supõe. Contudo, é necessário criticar alguns pontos importantes, principalmente no que concerne aos aspectos acadêmicos.

O livro não possui uma única referência. Nenhuma nota, por consequência. Você passa todo o tempo sem saber a fonte dos fatos apresentados. Além disso, não usa nenhuma fonte primária, e sua bibliografia não é deveras extensa. No meio acadêmico, talvez não tivesse a maior das aceitações, e muitos historiadores torceriam o nariz para ele. Ainda assim, é uma leitura válida, principalmente para entusiastas e pessoas que levam á ferro e fogo a infalibilidade papal, pela possibilidade de suscitar o debate.

Preço médio: R$ 59,00

26 de dezembro de 2009

Venha a nós o Vosso reino: a legitimação da Corte Medieval através da imagem da Corte Celestial


Olá, meus caros.

Venho através desta postagem divulgar o artigo do qual fui co-autor, publicado na Revista Mirábilia.

Para a confecção desse artigo, contei com a colaboração do Prof. Dr. Jó Klanovicz, especialista em História Ambiental e professor da Universidade Federal de Santa Catarina e do futuro colaborador do blog, Rodrigo Prates de Andrade.

O tema do artigo trata da semelhança entre as cortes medievais com o ideal de cortes celestiais. Nele, tratamos a seguinte questão: a ideia praticamente imposta de vontade divina e semelhança das cortes medievais com a celestial seria uma ferramenta de legitimação, com o intúito da manutenção de uma ordem social vigente? Qual seria a relação entre os Reis e o clero nessa conexão do divino com o terreno?

Espero que aqueles que lerem este artigo o apreciem tanto quanto eu apreciei fazê-lo. Você pode fazer o download do artigo em formato PDF AQUI.

Obrigado. Críticas e comentários serão bem vindos.

24 de dezembro de 2009

Carlo Ginzburg - O queijo e os vermes

Esta resenha foi escrita por Juan Filipi Garces

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição: São Paulo, Companhia das letras, 2006.


A resenha aqui apresentada refere-se à edição de bolso, que por conseqüência, acaba sendo de fácil manuseio e mais acessível em comparação a um livro normal por estar mais em conta em se tratando de questão financeira.

A história começa no século XVI, retratando a vida de Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, um moleiro que foi perseguido pela inquisição por ter uma visão diferente da sua época em relação à igreja. Ele é submetido a uma série de interrogatórios, e neles, vai apresentando suas idéias, e as obras que tomou como ponto de referência. Não levava a Bíblia como idéia universal, e isso contribuiu para os inquisidores o tratarem com um certo receio. O autor mostra diversos livros e artigos no qual Menocchio lera e teria tomado como referencia para suas idéias, embora afirmasse que elas vieram de sua própria cabeça.

Houve uma preocupação entre alguns moradores da aldeia onde morava sobre seu destino. Alertaram-no para não ficar mencionando as suas idéias abertamente, mas foi corajoso o suficiente para não se reprimir perante a inquisição, usando assim, diversos argumentos para defender suas idéias, e uma das principais, foi sobre seu pensamento sobre a singularidade cosmológica, cujo foi a partir daí que Ginzburg teve a idéia do título do livro, na qual afirmava: “No inicio tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo que o queijo é feito do leite, e do qual surge os vermes, e esses foram os anjos”.

Não menos pretensioso, afirmou que conversar com uma árvore era equivalente a se confessar com um padre. Conta também, alguns relatos de padres canibais que sacrificavam pessoas e comiam suas carnes, e se tivesse bom gosto, era uma pessoa livre de pecados, caso contrário, seria uma pessoa impura e deveria ter morrido antes.

A principal característica do autor nesta obra, é contar uma história em que normalmente muitos passariam despercebidos. Por escrever através da metodologia da micro-história, a principal característica do livro e contar a história de alguém ou algo que não teria uma grande importância na sociedade e sua determinada visão. Apresenta uma história descritiva, mas tendo grande preocupação com a literatura. Mostra uma pequena demonstração da cultura oral, que os camponeses normalmente utilizavam. Na época em que a história se passa, poucos tinham a sorte de saberem ler, então a forma de cultura oral era importante, mas com elas, seria difícil decifrar uma informação, ou se conseguisse, deixaria muitas pistas distorcidas. Por esse e outros motivos, Menocchio achava uma ofensa aos pobres as missas serem rezadas em latim. Menocchio tinha um pensamento formado, mas é indiscutível que se não fosse pela lista de livros que lera, ele não teria metade dessas idéias.

Embora Menocchio fosse um moleiro, não teve medo de expor suas idéias e suas contradições, ao contrário de muitas pessoas da época, que não as colocavam por medo da inquisição, preferindo assim, aceitar os dogmas. Em caso de acusações pela inquisição, era preferido ser chamado de louco para não ser condenado por heresia; foi uma das propostas oferecidas para Menocchio, que corajosamente não aceitou. Num determinado trecho do livro, ele foi submetido a uma tortura, obrigando a confessar suas “heresias”. Uma grande análise pode ser feita em relação a essa tortura, mas vou deixar a surpresa para os leitores.

Podemos ainda perceber que Menocchio se interessava muito pelos assuntos religiosos, tanto que ele tomou como referencia a Bíblia e o Alcorão. Expôs uma teoria de que Jesus era apenas um homem comum, e não aquela figura espiritual que o cristianismo colocava. A cada afirmação, Menocchio se encaixava no caráter deísta, idéia que foi forte no iluminismo.

Em diversos países estava ocorrendo revoltas contra as instituições católicas, e a mesma estava com receio do avanço protestante, talvez acusar Menocchio de protestante seria algo proveitoso para a situação, pois mostraria como os protestantes eram hereges de acordo com a doutrina católica.

O queijo e os vermes é um livro que eu recomendo para todos que possuem certa admiração pela história, em especial a micro-história, pois seu autor, Carlo Ginzburg, é um dos pioneiros dessa visão histórica. É um livro que não pode faltar na estante de nenhum historiador.

Preço Médio: R$ 18.90

Colaboradores para o Blog


Salve, leitor.

Venho através desta postagem anunciar que o blog Leitura ObrigaHISTÓRIA deixará de ser um "blog de um homem só". A partir de hoje, ele contará com colaboradores, que enviarão resenhas de livros lidos por estes. Os nomes destes colaboradores serão revelados conforme suas resenhas forem publicadas.

A primeira resenha será postada em instantes.

Obrigado.

22 de outubro de 2009

Jean-Claude Schmitt - O corpo das imagens


SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens: Ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2007.

Depois de um hiato de mais de dois meses, eis que finalmente posto uma nova resenha no blog. Esses últimos meses foram atribulados o suficiente para que minha leitura fosse atrasada e interrompida uma miríade de vezes. Sem mais delongas, vamos ao livro.

Todas as imagens têm sua razão de ser. Talvez devamos começar a analisar esta obra á partir deste ponto de vista. A antropologia cristã fora inegavelmente moldada através da iconografia; e nesse caso, quanto mais comum a imagem, mais ela nos revela as tendências da época em que elas foram produzidas. A função deste livro é discorrer sobre a imagem e suas funções durante toda a idade média.


A imagem, do latim imago, exprime um sentido. Pode carregar em si valores simbólicos, e por conta desta característica, acaba se tornando uma eficaz ferramenta de função política, religiosa ou ideológica; funções essas que não se prendem unicamente à imagem medieval. Como imagem, não podemos entender apenas pinturas ou esculturas. Por mais que estas formas de representação sejam o foco de Schmitt, devemos compreender que existem diversos suportes para a representação imagética, independente do que está sendo representado. Um deles, no entanto, é deveras ignorado: a imaginação. Esta se mescla com o real, dando origem a grande parte da iconografia cristã. Não nos esqueçamos que muito do que temos em mente á respeito de escatologias, por exemplo, é oriundo unicamente da imaginação dos responsáveis pelas obras de arte que as representam. Os elementos dessas obras, mediante orientação, brotam da mente dos artistas; ou seja, de sua imaginação.

Durante a Idade Média, as imagens serviam como mediadoras diretas entre o divino e o terreno. A confecção das mesmas era minuciosamente planejada para despertar emoções naqueles que as observavam. Desde o uso de pigmentação dourada para refletir a luz, até as representações de chagas para dar ênfase ao sofrimento de Cristo, por exemplo, muitos eram os artifícios para que as imagens, ou ao menos suas mensagens implícitas, se perpetuassem na imaginação dos que as observavam.

Jean-Claude Schmitt procura levar em conta não somente as imagens e o imaginário cristão medieval. O autor não se esquece de suas funções e seus usos no contexto social da época. Em um mundo em constante transformação, as imagens possuíram uma função deveras importante.

Sejam pinturas, sejam esculturas, sejam os sonhos ou a imaginação, as imagens tiveram um papel fundamental nessa antropologia cristã, em um período aonde ela definiu a maioria dos seus paradigmas.

Para todo historiador que almeja especializar-se em estudos iconográficos ou almejar manter contato com detalhes da história do cristianismo, independente do período, O corpo das imagens é, inegavelmente, uma obra de suma importância. Não nos esqueçamos que até os dias de hoje a iconodulia católica e a iconoclastia protestante – e de outras religiões – suscita conflitos ferrenhos. Entender a origem deste conflito e a argumentação de ambas as partes da contenda é fundamental para impedir julgamentos precipitados e sem embasamento. Uma leitura altamente recomendada.

Preço médio: R$ 57,00

19 de agosto de 2009

Carlos Roberto F. Nogueira - Bruxaria e história


NOGUEIRA, Carlos Roberto F. Bruxaria e história: as práticas mágicas no Ocidente cristão. Bauru: EDUSC, 2004.

Uma das características do período conhecido por nós como Idade Média foi, sem dúvida, nos deixar como herança uma vasta gama de idéias, concepções e pensamentos; estes, perpetuados em nosso imaginário. Quem nunca, em algum momento, se deparou com a imagem estereotipada da bruxa dos contos de fada, com seu chapéu pontudo, suas verrugas, muita idade e uma gama de feitiços tendo os mais diversos e estranhos ingredientes na sua confecção?

Ignorando esta imagem por motivos mais do que óbvios, Carlos Roberto Figueiredo Nogueira confeccionou esta obra chama Bruxaria e história. O autor tenta, valendo-se de vasta bibliografia e confrontando teorias anteriores, passar ao leitor um panorama do pensamento medieval e moderno á respeito dos conceitos de bruxa, feiticeira, magia, satanismo, entre outros aspectos pertinentes neste assunto.

Muito do que se tornou o paganismo, execrado pelo cristianismo até os dias de hoje, constitui de crenças, ritos e conceitos de civilizações da antiguidade. Não tendo força o suficiente para fazer frente ao progresso cristão, muitas dessas práticas se perderam com o passar dos séculos, enquanto outras passaram a ser encaradas como “fruto da sabedoria popular”. Os “sortilégios” que futuramente seriam responsáveis por uma eliminação sistemática das ditas bruxas e feiticeiras muitas vezes eram práticas até mesmo necessárias, em um mundo aonde confiar em poções e curas ditas místicas hoje em dia era uma das poucas esperanças frente a enfermidades e intempéries.

Outro ponto que deve ser levado em consideração é a busca de fundamentação além da realidade para atitudes do comportamento humano. Desde tentativas de controle climático, com objetivo de impedir a perda de uma colheita até atos que suprimissem as carências da vida material, é atitude natural do ser humano – e isso pode ser observado sem muito esforço através dos séculos sob as mais diversas manifestações – buscar fora do palpável e tangível as soluções das adversidades que se avizinham.

Mais do que explicitar as características das ditas bruxarias e feitiçarias – classificadas separadamente na obra –, o autor discorre acerca de alguns dos fatores que fizeram surgir não apenas esta mentalidade permeada de magia, mas também as causas que deflagraram a já conhecida perseguição às bruxas e demais hereges.

O livro – o autor já esclarece em sua introdução – não tem como objetivo dar um ponto final às questões que permeiam o assunto. Porém, o tratamento unilateral dado ao tema com o passar dos anos, inclusive em estudos recentes, deixam a impressão de que grandes equívocos se uniram as já conhecidas lacunas históricas para formar teorias questionáveis. O autor se incumbe da missão de desmistificar alguns pontos sob uma nova perspectiva, mediante contestação; sem ignorar, obviamente, estudos bem sucedidos na área. A abordagem da obra é focada diretamente nas mentalidades do indivíduo, seja ele perseguidor ou perseguido, durante este período entre os séculos XIV e XVII.

Uma demonstração da preocupação do autor com a mentalidade da época pode ser vista quando este nos mostra processos de bruxas. O tratamento misógino recebido pela mulher do período não é ignorado, tendo um importante esclarecimento; crucial, sem dúvida, para melhor compreensão das atitudes dos inquisidores. Estes, deve-se afirmar, grande parte das vezes faziam seu trabalho principalmente por acreditarem piamente na existência dos demônios, nos relatos – mediante tortura, o que lhes davam caráter duvidoso – acerca dos sabbats, dos vôos noturnos, das invocações diabólicas, das práticas sexuais promíscuas e de banquetes macabros.

Relacionando o real e o imaginário, o autor conclui que a existência de tudo o que foi descrito acima era legítima. Não de forma real ou material, mas no imaginário sem limites do medievo, aonde as mais absurdas imagens poderiam ser encaradas como a mais palpável das realidades, a existência de bruxas e seus malefícios era real. Logo, havia toda uma uniformidade de pensamento que corroborava as atitudes dos indivíduos. A crença no sobrenatural, sob o aspecto psicológico, exteriorizava uma crença de forma que ela, se não fisicamente real, regia o comportamento coletivo. Uma existência etérea.

Uma obra que certamente elucida diversos aspectos pertinentes sobre o tema “bruxaria”, contextualizando-o na história e nos principais aspectos da Europa cristã. Não apenas recomendado para todos que se interessem pelo tema, mas uma leitura obrigatória tanto a iniciantes quanto a veteranos no assunto.

Preço médio: R$ 43,00

LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR
Carlos R. F. Nogueira - O diabo no imaginário cristão

9 de agosto de 2009

Jacques Le Goff - A civilização do ocidente medieval


LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru: EDUSC, 2005.

Posso estar me enganando sob uma perspectiva simplista acerca de uma observação que faço há muito tempo, mas me parece que o período conhecido como Idade Média é um dos que mais desperta curiosidade, principalmente nos jovens de nossa geração. Estes cresceram entre jogos ambientados em mundos fantásticos, RPG e demais formas de entretenimento que bebem desta época como inspiração. Eis que o já conhecido dos leitores deste blog, Jacques Le Goff, um dos maiores medievalistas do mundo, nos brinda com esta obra que tem como objetivo discorrer acerca de alguns dos principais aspectos deste período que tanto nos fascina por suas particularidades.

Esqueça qualquer cronologia ao ler este livro. Ao contrário de livros que seguem uma linha cronológica bem definida, de acordo com o calendário cristão ocidental, o livro ignora completamente a ordem dos acontecimentos. Até porque, como era de se esperar de um membro da Annales, o livro não foca em grandes acontecimentos. Foca nos aspectos políticos, religiosos, econômicos, geográficos e sociais do ocidente medieval.

Aliás, é preciso ressaltar o título desta obra. Grande parte dos medievalistas costuma não apelar para o termo “Idade Média”, por este ser demasiado genérico. Levando em conta que se trata de um período definido – e esta definição por si só já é controversa, pois embora a Idade Média oficialmente tenha terminado no século XV, muitos lugares mantiveram características fortes desta época até o século XIX – por eventos específicos, somos ludibriados por nossa mente, que se esquece de levar em consideração que a história da Idade Média é quase em sua totalidade eurocêntrica. Os demais povos de nosso mundo tiveram suas histórias paralelamente à Europa, e isso não pode ser ignorado por nenhum historiador que pretenda sequer considerar-se um medievalista.

A primeira parte do livro foca na transição do mundo antigo para a cristandade medieval. Seu primeiro capítulo, por exemplo, discute as invasões bárbaras, cuja importância para a formação do ocidente medieval é inegável. Sua inserção nos territórios do mediterrâneo enterrou diversos costumes, crenças, conhecimento; contudo, trouxe avanços em áreas diversas, como a metalurgia. A principal dúvida que o capítulo tenta abordar é: a transição da Antiguidade Clássica pra Idade Média foi uma continuidade ou uma ruptura?

Mais adiante, o livro passa por diversos fatos importantes para a formação do ocidente medieval, tal qual a dinastia carolíngia, a formação da cristandade, o renascimento urbano e o conhecido sistema feudal. Todos de forma detalhada, e sempre com algum destaque na etimologia de diversos termos que até hoje nos são conhecidos, apesar de seus significados terem mudado, algo que ocorre não só nesta primeira parte, mas durante todo o livro. A exemplo, podemos citar o trecho do livro em que o autor nos conta a origem do termo “urbano”, oriundo da palavra urbe, que significava “cidade”. Em contrapartida, a palavra Rus é o que dá nome ao campo. Seus habitantes são assim chamados de rustici (palavra que significa algo como grosseiro), palavra que dá origem ao termo “rústico”. A primeira parte termina com a crise na cristandade.

A segunda parte ignora a cronologia da primeira – que por si só já não era tão evidente – e volta a questões do conflito antiguidade/idade média. Desta vez, abordando a questão através dos conflitos religiosos entre paganismo e cristianismo.

As estruturas espaciais não são ignoradas. Possivelmente influenciado de forma direta pelo pensamento de Fernand Braudel, que não se esquecia do importante papel da Geografia na história, Le Goff trabalha com ambientes da época. Fala por exemplo da floresta, que era um lugar de aventuras, perigos inimagináveis e perdição. Eram praticamente consideradas como grandes desertos, que muitas histórias renderam. O tempo tampouco é deixado de lado.

A vida material é outro ponto importante da obra, pois tem uma importância vital em qualquer civilização. Determinados ou determinantes, os aspectos materiais possuem uma relação direta com as mentalidades, que também são magistralmente abordadas no livro.

Existem muitos livros á respeito desta época que ainda nos é tão misteriosa em muitos aspectos. Muito do que sabemos do período é oriundo das traiçoeiras histórias oficiais. Alguns outros conhecimentos provém da hagiografia, ou de relatos que por motivos variados foram registrados para a posteridade. Portanto, qualquer obra sobre este período deve ser sempre adquirida com cautela. Esta obra certamente é uma das que pode figurar na biblioteca de qualquer historiador, medievalista ou não. O resumo de tantos aspectos pertinentes da civilização ocidental medieval em uma mesma obra não é tão simples de ser encontrado de forma tão eficiente quanto neste livro. É verdade que a ausência total de uma cronologia pode estranhar jovens historiadores, acostumados com os livros didáticos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Quem não possui algum contato mais profundo com a História, e porque não com a Antropologia, pode ter dificuldades de se adaptar a questões que nestes mesmos livros didáticos são ignoradas ou muito superficialmente abordadas, como as mentalidades. Entretanto, para aqueles que querem livrar-se das amarras da história positivista, ao mesmo tempo em que anseiam compreender melhor este período ainda tão pertinente em nossas mentes, esta obra – longe de ser a mais completa do gênero, mas detalhada com êxito – é uma aquisição de peso. Recomendado.

18 de julho de 2009

Eamon Duffy - Santos e pecadores: história dos papas


DUFFY, Eamon. Santos e pecadores: história dos papas. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.

São muitos os fatores que podem ser decisivos a um leitor na hora de adquirir um livro. Seja um título chamativo, uma bela capa, a qualidade do papel, uma rica gama de ilustrações, um conteúdo condizente com o que o leitor busca, entre outros. O que me chamou a atenção para este livro foi seu possível conteúdo. O título me dava a entender algo diferente, mas eu estaria mentindo se dissesse que me decepcionei, porque são poucas as obras que dão ao seu autor a chance de poder gabar-se do quão completo é o conteúdo do seu trabalho. Eis uma delas.

Santos e pecadores: história dos papas é um livro que em nenhum momento soa pretensioso. O subtítulo é explicado pelo autor no prefácio, que afirma não ter tido a intenção de soar absoluto. Não é a história dos papas, mas sim, uma de suas histórias. Vale dizer que o livro originou-se de uma série para a televisão, mas em nenhum momento soa incompleto ou deixa lacunas.

Seu título me deu a impressão, quando o li, que se tratava de uma espécie de enciclopédia, contando sobre a vida dos papas individualmente. Não obstante, ao folhear o livro, percebi que estava enganado. No entanto, isso não foi motivo para que eu me decepcionasse. Eamon Duffy, católico assumido, em nenhum momento tenta adular os pontífices, tampouco tenta fazer saltar aos olhos suas falhas de caráter. Para não cair na armadilha de deixar-se levar por lendas e boatos de opositores de alguns papas, o autor deixa de lado muitos escândalos do papado, atendo-se apenas àqueles aonde de fato foi possível se comprovar o que foi dito.

A Igreja Católica desde seu início apoiou-se em cima de uma conhecida frase do Evangelho de Mateus, aonde Jesus Cristo dirige-se a seu apóstolo, Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e te darei as chaves do Reino dos Céus”. O apóstolo teria o poder de ligar e desligar Céu e Terra. Os papas, proclamando-se sucessores de Pedro, consideram-se os detentores destas chaves simbólicas dadas por Cristo. É interessante notar em muitas das imagens que ilustram este livro – e são muitas, o livro é de fato belíssimo – mostram as ditas chaves, em boa parte pinturas do Renascimento, usando esta simbologia como instrumento de legitimação.

No início, a Igreja Católica (do grego katholikós que significa algo como “totalidade”, podendo este significado ser adaptado para “universal”) era composta por algumas assembléias dispersas (a própria palavra Igreja é oriunda da palavra grega ecclesia, que significa “assembléia”). Por conta da distância e da não-unidade de direcionamento, haviam muitas questões divergentes. Uma delas, por exemplo, era a data da Páscoa, celebrada por algumas igrejas no dia 14 de nisã (data do pessach judeu), caísse no Domingo ou não.

Os bispos de Roma, no entanto, acreditavam que possuíam autoridade sobre os demais bispos. Para legitimar esta afirmação, os papas valiam-se da história de que Pedro havia morrido no circo de Nero, sendo crucificado de cabeça para baixo. No entanto, não existem documentos, nem outros vestígios de que essa história seja verdadeira. De igual modo, o que era um bispado que reclamava para si a liderança da Igreja, acabou se tornando o pontificado como o conhecemos, de um chefe religioso que declara-se senhor de uma doutrina infalível.

Um trunfo que este livro possui é justamente o que de início me pareceu estranho: não focar demais na vida dos pontífices. O que ocorre é um relato histórico aonde o papa é o personagem principal. O livro possui um foco muito bem equilibrado no cenário político, social e econômico dos reinados citados. Mesmo porque se trata de uma monarquia de aproximadamente dois milênios de existência, que muito teve que ser tolerada por certos governantes, necessitados do controle que o clero e a religião exerciam sobre o povo. Muitos destes governantes se tornaram extremamente impopulares por irem contra os pontífices nas mais diversas eras. Obviamente que muitos desastres se abateram sobre o Vaticano, como o saque das tropas Napoleônicas, ou o momento em que haviam dois papas em exercício (um em Avignon, na França, e outro em Roma). Existe um equilíbrio visível em sua narrativa que é notado sem esforço.

Embora o livro possua uma cronologia, seguidamente o autor cita um papa anterior ou um papa de anos após o momento até então narrado para encaixá-los no contexto. Isso pode vir á confundir o leitor mais desatento, mas o comparativo entre os pontífices se mostra necessário em alguns pontos. Alguns papas obviamente são destacados no livro. Tanto aqueles que deixaram uma marca positiva – como Gregório, o grande – como os que deixaram marca negativa – vide Gregório VII. Assim como elogia o caráter eclesiástico ou a amabilidade de alguns, não mede palavras ao tratar determinados pontífices como verdadeiras nulidades em seu tempo. Soa incômodo que em alguns casos, como a teoria de assassinato de João Paulo I, o autor apenas se contenha afirmando que essas teorias são “boatos infundados”, sem apresentar ao leitor argumentos que expliquem essa falta de fundamento. Afinal, seria interessante entender o porquê desta certeza por parte do autor.

Ao fim, o livro possui uma lista de todos os papas e do ano de seus respectivos pontificados, procurando minimizar possíveis confusões, sendo que á partir de João XIV os papas não só pelos nomes adotados por estes, mas também seus nomes originais. O segundo apêndice é um glossário com alguns termos cruciais para o entendimento do livro.

Passando por toda a história do papado até João Paulo II – o papa em exercício na época de sua publicação –, este livro é, pois, obrigatório para todos aqueles que desejam estudar a história do catolicismo, e consequentemente do cristianismo. Seus capítulos são longos, o livro em si possui letras pequenas, o que faz com que suas mais de trezentas páginas pareçam multiplicar-se. No entanto, cada linha vale á pena ser lida.

Preço médio: R$ 72,00

10 de julho de 2009

Hernan Cortez - O fim de Montezuma


CORTEZ, Hernan. O fim de Montezuma: relatos da conquista do México. Porto Alegre: L&PM, 1999.

A civilização Asteca e as demais tribos que habitavam a região do atual México ainda despertam fascínio e dúvida no nosso imaginário. Uma civilização mais avançada do que se poderia supor, com aquela que provavelmente era a maior cidade urbanizada do mundo (Tenochtitlán) e incontáveis pertences em ouro, cunhado com esmero invejável até mesmo pelos ditos civilizados da Europa. Muito do que se sabe deste povo provém dos relatos dos colonizadores espanhóis; entre eles, Hernan Cortez, o homem que conquistou os Astecas em nome do imperador da Espanha.

O livro em questão se trata, na realidade, de uma extensa carta escrita por Cortez ao imperador espanhol Carlos I. Foi a segunda carta enviada por este ao monarca, sendo que a primeira se perdeu. Nela há um meticuloso relato por parte de Cortez, desde o meio ambiente aos costumes dos povos encontrados, relatos de batalha, entre outras impressões.

A carta inicia-se com a adulação previsível de uma carta dirigida á um monarca. Cortez a inicia com “Mui alto e poderoso e mui católico príncipe, invictíssimo imperador e senhor nosso”. Durante toda a carta, Cortez atribui a cada um de seus atos um caráter de providência divina, e sempre reiterando que tudo o que faz é á serviço de sua majestade. O que me deixou até certo ponto surpreso é que o relato de Cortez é um tanto diferente do que eu esperava. Por se tratarem de indígenas de um novo mundo, pagãos, o que era de se esperar de um relato sobre estes seria um completo desdém. No entanto, Cortez se refere aos nativos da península de Yucatán de forma respeitosa. Vez ou outra deixa escapar seus ardis e suas táticas para convencer os nativos a se curvarem diante do poder da coroa espanhola, mas isso não muda o fato de que poucas são as vezes na carta que Cortez se refere aos Astecas ou demais povos de forma pejorativa.

Obviamente que muitos atos reprováveis são destacados de ambos os lados. Assim como Cortez aponta tentativas de emboscadas e traição por parte dos nativos, ele mesmo fala de ocasiões em que usou de violência para impor respeito ou punir. A exemplo, citemos a ocasião em que queimou vivos alguns indígenas, ou outra em que cortou uma mão de cada um dos cinquenta índios que tentaram lhe espionar enquanto estava em um acampamento. Em vários pontos da carta utiliza-se de uma argumentação religiosa para justificar seus atos, atribui a Deus diversas de suas vitórias e até mesmo troca os ídolos dos templos astecas por imagens de santos católicos.

A carta mostra também algo que foi fundamental para a vitória dos espanhóis sobre os astecas: a colaboração das tribos inimigas de Montezuma.

Os astecas possuíam uma crença de que deviam estar sempre fazendo sacrifícios humanos para o deus Huitzlopochtli. Os Astecas, como povo guerreiro que era, escravizava diversos povos, e desses povos provinham os sacrifícios. Os homens eram levados ao topo dos templos, aonde seus corações eram arrancados com estes ainda vivos. O corpo da vítima era jogado fora, enquanto seu coração era consagrado ao deus; depois o coração era utilizado na manufatura de seus ídolos, tal qual Cortez relata em uma passagem. Isso contribuiu para que os espanhóis conseguissem um enorme contingente de indígenas que lutassem contra os Astecas. Muito desse sucesso é dedicado à ajuda de Marina de Viluta, uma indígena que foi concubina de Cortez e muito o ajudou na função de intérprete.

Ao contrário do que pode se supor, o encontro e a convivência entre Cortez e Montezuma foi pacífica. Cortez acreditava que Montezuma era uma espécie de imperador asteca, quando na verdade se tratava de um tlacalecuhli, um título de governante que não garantia ao seu possuidor poder absoluto. O tlacalecuhli estava subordinado a um conselho tribal e a um co-soberano civil. Era um cargo vitalício, mas poderia ser revogado. Já Montezuma acreditava que Hernan Cortez e os espanhóis eram o cumprimento de uma profecia asteca. Segundo esta profecia, o criador haveria de um dia voltar a Terra. Os astecas acreditaram que o imperador espanhol do qual Cortez tanto falava era este ancestral superior, e portanto os astecas cederam ao domínio espanhol sem resistência. Tudo ocorria bem, até que em um determinado período em que Cortez esteve fora de Tenochtitlán, seus soldados que lá ficaram atacaram nativos enquanto estes faziam um ritual anual, que foi confundido com uma provocação para a guerra – segundo os relatos de Cortez, obviamente. Montezuma, que estava trancado no palácio como prisioneiro de Cortez – conivente com a própria prisão, diga-se de passagem –, foi deposto do cargo de tlacalecuhli, e quando saiu para tentar ordenar a interrupção do ataque por parte dos nativos, foi ferido. O ferimento em questão foi de tal seriedade que três dias depois este veio á falecer, sem que a guerra terminasse.

Mais para frente Cortez conta como conseguiu escapar com vida, embora com uma sequela permanente em uma das mãos. A carta termina com este novamente invocando o nome de Deus como responsável por sua sobrevivência e como responsável pela vitória que considerava certa. Neste fim, Cortez conta como estava conseguindo juntar um enorme contingente para invadir a capital asteca.

Mais do que um relato histórico por parte de alguém que era mais que um contemporâneo aos eventos, mas parte fundamental deste, esta carta transformada em livro é um bom instrumento para o estudo da história das mentalidades. Desde a forma com a qual Hernan Cortez fala dos nativos, seja pelo modo quase despreocupado como narra as mortes que causou e as vilas e cidades que incendiou, seja na demonstração fervorosa de fé no catolicismo ou nas vezes em que tenta passar ao imperador o máximo de detalhes e fidelidade possíveis, é possível entender a mentalidade do colonizador da época. Saber como este pensava, como via seus alvos e como pensava a respeito de seus próprios atos. Um livro que, se não obrigatório, é um excelente complemento para qualquer historiador.

Preço médio: R$ 10,00

5 de julho de 2009

Recomende um livro

Caros leitores,

A lista de livros que tenho em minha pequena biblioteca pessoal é grande o suficiente para que eu fique ocupado durante vários meses lendo. Levando em consideração as ocupações da faculdade, não me sobra muito tempo disponível para devorar estes livros conforme eu gostaria.

Entretanto, gostaria de pedir a colaboração dos leitores. Certamente aqueles que se dispõem a ler este blog gostam de livros, e provavelmente de história. Logo, por que não abrir espaço para o leitor fazer suas próprias recomendações?

Esta postagem terá um link no menu principal, para rápido acesso. Nos comentários dessa postagem, você pode recomendar aos demais leitores algum livro que lhe tenha agradado. Se possível, dentro do tema história, mas podendo abranger áreas como a literatura, antropologia, política, sociologia, psicologia, etc.

Dependendo do número de recomendações, posso vir a fazer postagens aleatórias com listas de livros aqui recomendados. Se possível, poste algo referente ao livro para que os demais leitores saibam do que se tratam as obras.

Até a próxima resenha.

Santiago Camacho - Biografia não autorizada do Vaticano

CAMACHO, Santiago. Biografia não autorizada do Vaticano: nazismo, finanças secretas, máfia, diplomacia oculta e crimes na Santa Sé. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006.


Tendo sido publicado em 2005 na Espanha sob o mesmo título, no equivalente espanhol, esta obra foi escrita pelo jornalista Santiago Camacho. Famoso por uma enorme gama de artigos e reportagens controversas e cheias de denúncia, costuma focar ser trabalho em questões polêmicas, como serviços de inteligências e teorias de conspiração. Por si só esses argumentos seriam suficientes para muitos lançarem olhares duvidosos sobre o trabalho do autor. Porém, a gigantesca gama de fontes apresentadas para a concepção desta obra é tamanha e colocada de forma tão ordenada que se torna difícil não render-se à compilação de tantas informações de forma tão coesa.

O livro, como o próprio autor explicita em sua introdução, não é anti-religioso. Contudo, tenta mostrar apresentando diversas fontes – que o mesmo recomenda a leitura para aprofundamento no assunto – aspectos da Santa Sé que foram durante muito tempo ocultados para a manutenção de sua imagem, abalada vez ou outra por algum escândalo.

O início do livro foca no nascimento do Vaticano como estado soberano, após a assinatura do tratado de Latrão, entre o papa Pio XI e Benito Mussolini. O duce, ateu declarado, viu que para prosperar em seus objetivos, necessitava do apoio da Igreja Católica, tão impregnada na identidade nacional italiana. Já a Igreja estava à beira da ruína, e são apresentados no livro alguns dos diversos fatores responsáveis para o declínio de uma instituição que, no passado, interveio com tanta imponência na história ocidental, tendo plenos poderes sob os mais diversos aspectos.

Sem fugir do aspecto financeiro, o livro trata de alguns dos principais responsáveis pelo ressurgimento da grandeza econômica da Igreja, como Bernardino Nogara. Segundo palavras do cardeal Spellman após seu falecimento: “Depois de Jesus Cristo, a melhor coisa que aconteceu à Igreja foi Bernardino Nogara”. Este aceitou a “gloriosa” missão de salvar as finanças do Vaticano, certificando-se, no entanto, que seus negócios deveriam estas livres de impedimentos baseados nos dogmas da Igreja. A partir de Nogara, a prática da usura deixou de ser condenada pela Igreja. Algo muito distante do que ocorria na Idade Média, onde o usurário era o pior dos condenados.

Podemos dizer, no entanto, que a parte mais chocante do livro engloba acontecimentos durante a segunda guerra mundial. Devo destacar o capítulo cinco, chamado “O outro holocausto. O Vaticano e o genocídio na Croácia”. Após a invasão dos nazistas à Iugoslávia, o Ustashi, partido católico fanático, tomou o poder do país, convertendo-o em um estado católico. Durante os quatro anos como estado independente, entre 1941 a 1945, foram executados na Croácia mais de 750 mil sérvios, judeus e ciganos, todos pelos católicos fanáticos da ustashi. Ao contrário dos nazistas, que em suas matanças prezavam pela descrição, o genocídio na Croácia e na Bósnia-Herzegovina foi caracterizado por assassinatos rituais em público e torturas que aumentavam em barbárie com o passar do tempo. Aos sacerdotes ortodoxos sérvios, por exemplo, eram relegadas algumas das piores torturas. Muitos deles foram queimados, esfolados ou esquartejados vivos. Ante Pavelic, chefe da ustashi, foi um dos principais, senão o principal responsável pelo genocídio em questão, muito apoiado por Alojzije Stepinac, que expressava sua gratidão a Pavelic e a Adolf Hitler pela independência croata. É importante citar que mesmo tendo papel marcante no genocídio na Croácia, foi elevado à categoria de beato pelo papa João Paulo II em outubro de 1998.

Em seguida, após tratar a Igreja no pós-guerra, o livro lida com nomes que muito contribuíram para o enriquecimento ilícito do vaticano e seu envolvimento com a máfia italiana e a Propaganda Due, uma poderosa loja maçônica – mesmo sendo a maçonaria sempre tendo sido rechaçada pela Igreja. Entre eles, Michele Sidona, homem que foi por tempos um dos homens mais ricos do mundo. Um trecho interessante do livro fala sobre a enorme admiração que Francis Ford Coppola possuía por Michele Sidona. Este, fascinado com o glamour de Hollywood, comprou parte das ações da Paramount. E que filme dirigido por Francis Ford Coppola fora produzido pela Paramount e fez enorme sucesso, tendo se tornado um dos maiores clássicos da história do cinema? O Poderoso Chefão, financiado em parte por Sidona e mostrando uma família Corleone sob um aspecto honrado, se comparada á outras famílias mafiosas. Os verdadeiros Corleone (apelido para a família Corleonese) eram tidos como brutos e sanguinários, até mesmo para os padrões das outras famílias mafiosas da época.

Como se não bastassem os escândalos financeiros, o livro ainda trata das teorias de assassinato dos papas Pio XI e João Paulo I. Mais do que isso, aponta alguns nomes suspeitos e indícios que afirmem as teorias, tudo de forma clara e convincente. Por fim, são expostos os escândalos financeiros durante o papado de João Paulo II, as circunstâncias de seu atentado – e de sua suposta visita de perdão ao atirador – e os milhares de casos de abuso sexual e pedofilia durante o papado deste, passando para o papado de Joseph Ratzinger, ainda recente quando o livro foi terminado.

Como dito no início desta resenha, o livro é polêmico e sua credibilidade pode ser colocada em cheque por muitos, principalmente aqueles que não simpatizam com teorias conspiratórias. No entanto, o número de fontes apresentadas e a consistência das mesmas não deixam dúvidas que se tratou de um árduo trabalho, com frutos visíveis que não devem ser ignorados. Um livro que pode abalar a fé de muitas pessoas, mesmo que sua intenção não seja esta. O trecho do livro de Mateus, capítulo 15, versículo 8, parafraseado no início do livro, é claro como água nesse aspecto: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim...”.

[EDIT] O livro contém um erro. Nele, o autor aponta o papa Estêvão V como responsável pelo que ficou conhecido como "Sínodo do Cadáver". No entanto, o papa responsável pelo sínodo na realidade foi Estêvão VI, que por alguns é chamado de Estêvão VII. O que ocorre é que o papa Estêvão morreu antes de assumir o pontificado, e seu sucessor adotou o mesmo nome. Segundo as leis canônicas modernas, o candidato se torna papa logo que é eleito, não quando toma posse. Portanto, o primeiro destes dois Estêvãos passou a ser conhecido por "Estêvão I", alterando a numeração de todos os demais Estêvãos. Logo, o papa que na época era Estêvão VI hoje é conhecido por Estêvão VII. De qualquer modo, esta confusão não justifica o erro.

Preço médio: 44,90

28 de junho de 2009

Jostein Gaarder, Victor Hellern, Henry Notaker - O livro das religiões

GAARDER, Jostein; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

É impossível definir o surgimento do sentimento religioso no ser humano. Sabemos que desde os primórdios o homem busca em crenças próprias a explicação para aquilo que ele não conhece. E desta busca por entendimento surgiram as mais diversas crenças, além de formas diferenciadas de culto, como o politeísmo, monoteísmo, monolatria, panteísmo, animismo, etc. É sabido também que a interpretação destas religiões é responsável não só para a formação da Ética, oriental ou ocidental, quanto pelos inúmeros conflitos que por incontáveis eras seguem sem aparente solução. Um assunto pertinente, sempre em voga, principalmente quando paramos para analisar o quanto a religião é usada como ferramenta de legitimação, seja política, moral ou social.

Tentando passar ao leitor explicações abrangentes sobre algumas das mais importantes religiões do mundo, Jostein Gaarder, Victor Hellern e Henry Notaker apresentam O livro das religiões. Jostein Gaarder, renomado escritor norueguês, nasceu em 1952. Filho de escritores, Gaarder ficou conhecido mundialmente pelo seu livro O mundo de Sofia, publicado em 1991. Através do sucesso dessa obra, o autor pôde dedicar-se integralmente à escrita.

Victor Hellern, nascido em 1928, é um historiador também norueguês conhecido por suas diversas obras sobre teologia. Contudo, sua única obra traduzida para o português é justamente esta resenhada. Por fim, temos Henry Notaker. Também norueguês, se trata de um jornalista, tendo este trabalhado em áreas de cultura e política exterior. Foi, inclusive, correspondente no Leste Europeu e na Espanha.

O livro inicia corretamente apresentando algumas das dúvidas mais básicas acerca do tema: “Por que ler sobre as religiões?”, “Como começaram as religiões?”, entre outras. Discorre acerca de questões relativas à crenças, como a vida após a morte, o sagrado, os conceitos de divindade, conceito de homem, mundo, cerimoniais, oração, sacrifícios, ética, entre tantas outras características indissociáveis da religião.

Antes de começar a detalhar as religiões, o livro separa de forma coerente as religiões orientais das ocidentais, para assim começar a analisar individualmente as religiões, começando pelo Hinduísmo. Obviamente que se trata de um resumo, pois se trata de uma religião deveras antiga e complexa. Contudo, é um texto aceitável para um rápido entendimento sobre o assunto. Logo, o texto passa para o Budismo, que mantém laços estreitos com sua religião de origem, anteriormente analisada pela obra. Adiante, passando pelas religiões do extremo oriente, temos adiante o Confucionismo, o Taoísmo e o Xintoísmo, todas de forma resumida.

Ainda mais compactadas estão as informações sobre religiões africanas. Os próprios autores deixam claro a enorme dificuldade de análise nesta área quando dizem:

“Ao agrupar as religiões africanas sob um só rótulo, deve-se ter em mente que seu número equivale ao de povos existentes na África. Cada um tem seu próprio nome para Deus, seus próprios rituais de culto, suas idiossincrasias. Por outro lado, elas apresentam também muitos traços em comum, pois os africanos não viveram uma existência estática, isolada”.
(1)

Tendo consciência do quão limitador é a compilação de tantas crenças sob o mesmo rótulo, os autores tentam dissertar sobre os padrões destas religiões tribais, os chefes tribais, os ritos, a concepção de deus (ou deuses), espíritos, morte, entre outros aspectos em comum.

A próxima parte do livro é, sem dúvida, a mais detalhada. É compreensível, já que ela trata das religiões monoteístas surgidas no Oriente Médio. Nos são apresentadas as religiões que mais são conhecidas pelo ocidente: Judaísmo, Islamismo e Cristianismo. O texto sobre Cristianismo é de uma riqueza de detalhes significativa, abordando diversos aspectos de sua doutrina, sem esquecer as diversas igrejas derivadas do mesmo. O livro aborda tanto a Igreja Católica Apostólica Romana como a Igreja Católica Ortodoxa, a Igreja Batista, Adventista, os Pentecostais, o Exército da Salvação, os Quacres, entre outros.

Mais adiante, nos são apresentadas filosofias não religiosas, como o Humanismo, o Materialismo e o Marxismo. No final, o livro passa por algumas religiões mais recentes, como o espiritismo, trata do ateísmo e do agnosticismo e possui um apêndice sobre as religiões no Brasil.

De fato, poderíamos estender durante várias páginas os detalhes deste livro. É paradoxal dizer que ele detalha as religiões ao mesmo tempo que resume. De fato, estudar cada uma delas individualmente requer maior busca de fontes e obras complementares, mas dificilmente uma obra aborda tantas religiões diferentes de forma tão competente quanto este livro, ainda mais de forma tão imparcial – talvez não na quantidade de conteúdo, mas certamente no respeito com todas estas. O fato de ter sido lançada em edição de bolso pela Companhia das Letras dá um maior acesso à obra, sem alterar o texto original. Qualquer pessoa, historiador ou não, que deseja estudar religiões, precisa ler esta obra. De grande valia principalmente para desmistificar preconceitos, já que é justamente o preconceito o responsável pela miríade de informações sem qualquer credibilidade e com nítida falta de conhecimento que vemos pelo mundo afora.

Preço médio: R$ 25,00

Notas:
(1) GAARDER, Jostein; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. pp 98.