9 de agosto de 2009

Jacques Le Goff - A civilização do ocidente medieval


LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru: EDUSC, 2005.

Posso estar me enganando sob uma perspectiva simplista acerca de uma observação que faço há muito tempo, mas me parece que o período conhecido como Idade Média é um dos que mais desperta curiosidade, principalmente nos jovens de nossa geração. Estes cresceram entre jogos ambientados em mundos fantásticos, RPG e demais formas de entretenimento que bebem desta época como inspiração. Eis que o já conhecido dos leitores deste blog, Jacques Le Goff, um dos maiores medievalistas do mundo, nos brinda com esta obra que tem como objetivo discorrer acerca de alguns dos principais aspectos deste período que tanto nos fascina por suas particularidades.

Esqueça qualquer cronologia ao ler este livro. Ao contrário de livros que seguem uma linha cronológica bem definida, de acordo com o calendário cristão ocidental, o livro ignora completamente a ordem dos acontecimentos. Até porque, como era de se esperar de um membro da Annales, o livro não foca em grandes acontecimentos. Foca nos aspectos políticos, religiosos, econômicos, geográficos e sociais do ocidente medieval.

Aliás, é preciso ressaltar o título desta obra. Grande parte dos medievalistas costuma não apelar para o termo “Idade Média”, por este ser demasiado genérico. Levando em conta que se trata de um período definido – e esta definição por si só já é controversa, pois embora a Idade Média oficialmente tenha terminado no século XV, muitos lugares mantiveram características fortes desta época até o século XIX – por eventos específicos, somos ludibriados por nossa mente, que se esquece de levar em consideração que a história da Idade Média é quase em sua totalidade eurocêntrica. Os demais povos de nosso mundo tiveram suas histórias paralelamente à Europa, e isso não pode ser ignorado por nenhum historiador que pretenda sequer considerar-se um medievalista.

A primeira parte do livro foca na transição do mundo antigo para a cristandade medieval. Seu primeiro capítulo, por exemplo, discute as invasões bárbaras, cuja importância para a formação do ocidente medieval é inegável. Sua inserção nos territórios do mediterrâneo enterrou diversos costumes, crenças, conhecimento; contudo, trouxe avanços em áreas diversas, como a metalurgia. A principal dúvida que o capítulo tenta abordar é: a transição da Antiguidade Clássica pra Idade Média foi uma continuidade ou uma ruptura?

Mais adiante, o livro passa por diversos fatos importantes para a formação do ocidente medieval, tal qual a dinastia carolíngia, a formação da cristandade, o renascimento urbano e o conhecido sistema feudal. Todos de forma detalhada, e sempre com algum destaque na etimologia de diversos termos que até hoje nos são conhecidos, apesar de seus significados terem mudado, algo que ocorre não só nesta primeira parte, mas durante todo o livro. A exemplo, podemos citar o trecho do livro em que o autor nos conta a origem do termo “urbano”, oriundo da palavra urbe, que significava “cidade”. Em contrapartida, a palavra Rus é o que dá nome ao campo. Seus habitantes são assim chamados de rustici (palavra que significa algo como grosseiro), palavra que dá origem ao termo “rústico”. A primeira parte termina com a crise na cristandade.

A segunda parte ignora a cronologia da primeira – que por si só já não era tão evidente – e volta a questões do conflito antiguidade/idade média. Desta vez, abordando a questão através dos conflitos religiosos entre paganismo e cristianismo.

As estruturas espaciais não são ignoradas. Possivelmente influenciado de forma direta pelo pensamento de Fernand Braudel, que não se esquecia do importante papel da Geografia na história, Le Goff trabalha com ambientes da época. Fala por exemplo da floresta, que era um lugar de aventuras, perigos inimagináveis e perdição. Eram praticamente consideradas como grandes desertos, que muitas histórias renderam. O tempo tampouco é deixado de lado.

A vida material é outro ponto importante da obra, pois tem uma importância vital em qualquer civilização. Determinados ou determinantes, os aspectos materiais possuem uma relação direta com as mentalidades, que também são magistralmente abordadas no livro.

Existem muitos livros á respeito desta época que ainda nos é tão misteriosa em muitos aspectos. Muito do que sabemos do período é oriundo das traiçoeiras histórias oficiais. Alguns outros conhecimentos provém da hagiografia, ou de relatos que por motivos variados foram registrados para a posteridade. Portanto, qualquer obra sobre este período deve ser sempre adquirida com cautela. Esta obra certamente é uma das que pode figurar na biblioteca de qualquer historiador, medievalista ou não. O resumo de tantos aspectos pertinentes da civilização ocidental medieval em uma mesma obra não é tão simples de ser encontrado de forma tão eficiente quanto neste livro. É verdade que a ausência total de uma cronologia pode estranhar jovens historiadores, acostumados com os livros didáticos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Quem não possui algum contato mais profundo com a História, e porque não com a Antropologia, pode ter dificuldades de se adaptar a questões que nestes mesmos livros didáticos são ignoradas ou muito superficialmente abordadas, como as mentalidades. Entretanto, para aqueles que querem livrar-se das amarras da história positivista, ao mesmo tempo em que anseiam compreender melhor este período ainda tão pertinente em nossas mentes, esta obra – longe de ser a mais completa do gênero, mas detalhada com êxito – é uma aquisição de peso. Recomendado.

18 de julho de 2009

Eamon Duffy - Santos e pecadores: história dos papas


DUFFY, Eamon. Santos e pecadores: história dos papas. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.

São muitos os fatores que podem ser decisivos a um leitor na hora de adquirir um livro. Seja um título chamativo, uma bela capa, a qualidade do papel, uma rica gama de ilustrações, um conteúdo condizente com o que o leitor busca, entre outros. O que me chamou a atenção para este livro foi seu possível conteúdo. O título me dava a entender algo diferente, mas eu estaria mentindo se dissesse que me decepcionei, porque são poucas as obras que dão ao seu autor a chance de poder gabar-se do quão completo é o conteúdo do seu trabalho. Eis uma delas.

Santos e pecadores: história dos papas é um livro que em nenhum momento soa pretensioso. O subtítulo é explicado pelo autor no prefácio, que afirma não ter tido a intenção de soar absoluto. Não é a história dos papas, mas sim, uma de suas histórias. Vale dizer que o livro originou-se de uma série para a televisão, mas em nenhum momento soa incompleto ou deixa lacunas.

Seu título me deu a impressão, quando o li, que se tratava de uma espécie de enciclopédia, contando sobre a vida dos papas individualmente. Não obstante, ao folhear o livro, percebi que estava enganado. No entanto, isso não foi motivo para que eu me decepcionasse. Eamon Duffy, católico assumido, em nenhum momento tenta adular os pontífices, tampouco tenta fazer saltar aos olhos suas falhas de caráter. Para não cair na armadilha de deixar-se levar por lendas e boatos de opositores de alguns papas, o autor deixa de lado muitos escândalos do papado, atendo-se apenas àqueles aonde de fato foi possível se comprovar o que foi dito.

A Igreja Católica desde seu início apoiou-se em cima de uma conhecida frase do Evangelho de Mateus, aonde Jesus Cristo dirige-se a seu apóstolo, Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja e te darei as chaves do Reino dos Céus”. O apóstolo teria o poder de ligar e desligar Céu e Terra. Os papas, proclamando-se sucessores de Pedro, consideram-se os detentores destas chaves simbólicas dadas por Cristo. É interessante notar em muitas das imagens que ilustram este livro – e são muitas, o livro é de fato belíssimo – mostram as ditas chaves, em boa parte pinturas do Renascimento, usando esta simbologia como instrumento de legitimação.

No início, a Igreja Católica (do grego katholikós que significa algo como “totalidade”, podendo este significado ser adaptado para “universal”) era composta por algumas assembléias dispersas (a própria palavra Igreja é oriunda da palavra grega ecclesia, que significa “assembléia”). Por conta da distância e da não-unidade de direcionamento, haviam muitas questões divergentes. Uma delas, por exemplo, era a data da Páscoa, celebrada por algumas igrejas no dia 14 de nisã (data do pessach judeu), caísse no Domingo ou não.

Os bispos de Roma, no entanto, acreditavam que possuíam autoridade sobre os demais bispos. Para legitimar esta afirmação, os papas valiam-se da história de que Pedro havia morrido no circo de Nero, sendo crucificado de cabeça para baixo. No entanto, não existem documentos, nem outros vestígios de que essa história seja verdadeira. De igual modo, o que era um bispado que reclamava para si a liderança da Igreja, acabou se tornando o pontificado como o conhecemos, de um chefe religioso que declara-se senhor de uma doutrina infalível.

Um trunfo que este livro possui é justamente o que de início me pareceu estranho: não focar demais na vida dos pontífices. O que ocorre é um relato histórico aonde o papa é o personagem principal. O livro possui um foco muito bem equilibrado no cenário político, social e econômico dos reinados citados. Mesmo porque se trata de uma monarquia de aproximadamente dois milênios de existência, que muito teve que ser tolerada por certos governantes, necessitados do controle que o clero e a religião exerciam sobre o povo. Muitos destes governantes se tornaram extremamente impopulares por irem contra os pontífices nas mais diversas eras. Obviamente que muitos desastres se abateram sobre o Vaticano, como o saque das tropas Napoleônicas, ou o momento em que haviam dois papas em exercício (um em Avignon, na França, e outro em Roma). Existe um equilíbrio visível em sua narrativa que é notado sem esforço.

Embora o livro possua uma cronologia, seguidamente o autor cita um papa anterior ou um papa de anos após o momento até então narrado para encaixá-los no contexto. Isso pode vir á confundir o leitor mais desatento, mas o comparativo entre os pontífices se mostra necessário em alguns pontos. Alguns papas obviamente são destacados no livro. Tanto aqueles que deixaram uma marca positiva – como Gregório, o grande – como os que deixaram marca negativa – vide Gregório VII. Assim como elogia o caráter eclesiástico ou a amabilidade de alguns, não mede palavras ao tratar determinados pontífices como verdadeiras nulidades em seu tempo. Soa incômodo que em alguns casos, como a teoria de assassinato de João Paulo I, o autor apenas se contenha afirmando que essas teorias são “boatos infundados”, sem apresentar ao leitor argumentos que expliquem essa falta de fundamento. Afinal, seria interessante entender o porquê desta certeza por parte do autor.

Ao fim, o livro possui uma lista de todos os papas e do ano de seus respectivos pontificados, procurando minimizar possíveis confusões, sendo que á partir de João XIV os papas não só pelos nomes adotados por estes, mas também seus nomes originais. O segundo apêndice é um glossário com alguns termos cruciais para o entendimento do livro.

Passando por toda a história do papado até João Paulo II – o papa em exercício na época de sua publicação –, este livro é, pois, obrigatório para todos aqueles que desejam estudar a história do catolicismo, e consequentemente do cristianismo. Seus capítulos são longos, o livro em si possui letras pequenas, o que faz com que suas mais de trezentas páginas pareçam multiplicar-se. No entanto, cada linha vale á pena ser lida.

Preço médio: R$ 72,00

10 de julho de 2009

Hernan Cortez - O fim de Montezuma


CORTEZ, Hernan. O fim de Montezuma: relatos da conquista do México. Porto Alegre: L&PM, 1999.

A civilização Asteca e as demais tribos que habitavam a região do atual México ainda despertam fascínio e dúvida no nosso imaginário. Uma civilização mais avançada do que se poderia supor, com aquela que provavelmente era a maior cidade urbanizada do mundo (Tenochtitlán) e incontáveis pertences em ouro, cunhado com esmero invejável até mesmo pelos ditos civilizados da Europa. Muito do que se sabe deste povo provém dos relatos dos colonizadores espanhóis; entre eles, Hernan Cortez, o homem que conquistou os Astecas em nome do imperador da Espanha.

O livro em questão se trata, na realidade, de uma extensa carta escrita por Cortez ao imperador espanhol Carlos I. Foi a segunda carta enviada por este ao monarca, sendo que a primeira se perdeu. Nela há um meticuloso relato por parte de Cortez, desde o meio ambiente aos costumes dos povos encontrados, relatos de batalha, entre outras impressões.

A carta inicia-se com a adulação previsível de uma carta dirigida á um monarca. Cortez a inicia com “Mui alto e poderoso e mui católico príncipe, invictíssimo imperador e senhor nosso”. Durante toda a carta, Cortez atribui a cada um de seus atos um caráter de providência divina, e sempre reiterando que tudo o que faz é á serviço de sua majestade. O que me deixou até certo ponto surpreso é que o relato de Cortez é um tanto diferente do que eu esperava. Por se tratarem de indígenas de um novo mundo, pagãos, o que era de se esperar de um relato sobre estes seria um completo desdém. No entanto, Cortez se refere aos nativos da península de Yucatán de forma respeitosa. Vez ou outra deixa escapar seus ardis e suas táticas para convencer os nativos a se curvarem diante do poder da coroa espanhola, mas isso não muda o fato de que poucas são as vezes na carta que Cortez se refere aos Astecas ou demais povos de forma pejorativa.

Obviamente que muitos atos reprováveis são destacados de ambos os lados. Assim como Cortez aponta tentativas de emboscadas e traição por parte dos nativos, ele mesmo fala de ocasiões em que usou de violência para impor respeito ou punir. A exemplo, citemos a ocasião em que queimou vivos alguns indígenas, ou outra em que cortou uma mão de cada um dos cinquenta índios que tentaram lhe espionar enquanto estava em um acampamento. Em vários pontos da carta utiliza-se de uma argumentação religiosa para justificar seus atos, atribui a Deus diversas de suas vitórias e até mesmo troca os ídolos dos templos astecas por imagens de santos católicos.

A carta mostra também algo que foi fundamental para a vitória dos espanhóis sobre os astecas: a colaboração das tribos inimigas de Montezuma.

Os astecas possuíam uma crença de que deviam estar sempre fazendo sacrifícios humanos para o deus Huitzlopochtli. Os Astecas, como povo guerreiro que era, escravizava diversos povos, e desses povos provinham os sacrifícios. Os homens eram levados ao topo dos templos, aonde seus corações eram arrancados com estes ainda vivos. O corpo da vítima era jogado fora, enquanto seu coração era consagrado ao deus; depois o coração era utilizado na manufatura de seus ídolos, tal qual Cortez relata em uma passagem. Isso contribuiu para que os espanhóis conseguissem um enorme contingente de indígenas que lutassem contra os Astecas. Muito desse sucesso é dedicado à ajuda de Marina de Viluta, uma indígena que foi concubina de Cortez e muito o ajudou na função de intérprete.

Ao contrário do que pode se supor, o encontro e a convivência entre Cortez e Montezuma foi pacífica. Cortez acreditava que Montezuma era uma espécie de imperador asteca, quando na verdade se tratava de um tlacalecuhli, um título de governante que não garantia ao seu possuidor poder absoluto. O tlacalecuhli estava subordinado a um conselho tribal e a um co-soberano civil. Era um cargo vitalício, mas poderia ser revogado. Já Montezuma acreditava que Hernan Cortez e os espanhóis eram o cumprimento de uma profecia asteca. Segundo esta profecia, o criador haveria de um dia voltar a Terra. Os astecas acreditaram que o imperador espanhol do qual Cortez tanto falava era este ancestral superior, e portanto os astecas cederam ao domínio espanhol sem resistência. Tudo ocorria bem, até que em um determinado período em que Cortez esteve fora de Tenochtitlán, seus soldados que lá ficaram atacaram nativos enquanto estes faziam um ritual anual, que foi confundido com uma provocação para a guerra – segundo os relatos de Cortez, obviamente. Montezuma, que estava trancado no palácio como prisioneiro de Cortez – conivente com a própria prisão, diga-se de passagem –, foi deposto do cargo de tlacalecuhli, e quando saiu para tentar ordenar a interrupção do ataque por parte dos nativos, foi ferido. O ferimento em questão foi de tal seriedade que três dias depois este veio á falecer, sem que a guerra terminasse.

Mais para frente Cortez conta como conseguiu escapar com vida, embora com uma sequela permanente em uma das mãos. A carta termina com este novamente invocando o nome de Deus como responsável por sua sobrevivência e como responsável pela vitória que considerava certa. Neste fim, Cortez conta como estava conseguindo juntar um enorme contingente para invadir a capital asteca.

Mais do que um relato histórico por parte de alguém que era mais que um contemporâneo aos eventos, mas parte fundamental deste, esta carta transformada em livro é um bom instrumento para o estudo da história das mentalidades. Desde a forma com a qual Hernan Cortez fala dos nativos, seja pelo modo quase despreocupado como narra as mortes que causou e as vilas e cidades que incendiou, seja na demonstração fervorosa de fé no catolicismo ou nas vezes em que tenta passar ao imperador o máximo de detalhes e fidelidade possíveis, é possível entender a mentalidade do colonizador da época. Saber como este pensava, como via seus alvos e como pensava a respeito de seus próprios atos. Um livro que, se não obrigatório, é um excelente complemento para qualquer historiador.

Preço médio: R$ 10,00

5 de julho de 2009

Recomende um livro

Caros leitores,

A lista de livros que tenho em minha pequena biblioteca pessoal é grande o suficiente para que eu fique ocupado durante vários meses lendo. Levando em consideração as ocupações da faculdade, não me sobra muito tempo disponível para devorar estes livros conforme eu gostaria.

Entretanto, gostaria de pedir a colaboração dos leitores. Certamente aqueles que se dispõem a ler este blog gostam de livros, e provavelmente de história. Logo, por que não abrir espaço para o leitor fazer suas próprias recomendações?

Esta postagem terá um link no menu principal, para rápido acesso. Nos comentários dessa postagem, você pode recomendar aos demais leitores algum livro que lhe tenha agradado. Se possível, dentro do tema história, mas podendo abranger áreas como a literatura, antropologia, política, sociologia, psicologia, etc.

Dependendo do número de recomendações, posso vir a fazer postagens aleatórias com listas de livros aqui recomendados. Se possível, poste algo referente ao livro para que os demais leitores saibam do que se tratam as obras.

Até a próxima resenha.

Santiago Camacho - Biografia não autorizada do Vaticano

CAMACHO, Santiago. Biografia não autorizada do Vaticano: nazismo, finanças secretas, máfia, diplomacia oculta e crimes na Santa Sé. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006.


Tendo sido publicado em 2005 na Espanha sob o mesmo título, no equivalente espanhol, esta obra foi escrita pelo jornalista Santiago Camacho. Famoso por uma enorme gama de artigos e reportagens controversas e cheias de denúncia, costuma focar ser trabalho em questões polêmicas, como serviços de inteligências e teorias de conspiração. Por si só esses argumentos seriam suficientes para muitos lançarem olhares duvidosos sobre o trabalho do autor. Porém, a gigantesca gama de fontes apresentadas para a concepção desta obra é tamanha e colocada de forma tão ordenada que se torna difícil não render-se à compilação de tantas informações de forma tão coesa.

O livro, como o próprio autor explicita em sua introdução, não é anti-religioso. Contudo, tenta mostrar apresentando diversas fontes – que o mesmo recomenda a leitura para aprofundamento no assunto – aspectos da Santa Sé que foram durante muito tempo ocultados para a manutenção de sua imagem, abalada vez ou outra por algum escândalo.

O início do livro foca no nascimento do Vaticano como estado soberano, após a assinatura do tratado de Latrão, entre o papa Pio XI e Benito Mussolini. O duce, ateu declarado, viu que para prosperar em seus objetivos, necessitava do apoio da Igreja Católica, tão impregnada na identidade nacional italiana. Já a Igreja estava à beira da ruína, e são apresentados no livro alguns dos diversos fatores responsáveis para o declínio de uma instituição que, no passado, interveio com tanta imponência na história ocidental, tendo plenos poderes sob os mais diversos aspectos.

Sem fugir do aspecto financeiro, o livro trata de alguns dos principais responsáveis pelo ressurgimento da grandeza econômica da Igreja, como Bernardino Nogara. Segundo palavras do cardeal Spellman após seu falecimento: “Depois de Jesus Cristo, a melhor coisa que aconteceu à Igreja foi Bernardino Nogara”. Este aceitou a “gloriosa” missão de salvar as finanças do Vaticano, certificando-se, no entanto, que seus negócios deveriam estas livres de impedimentos baseados nos dogmas da Igreja. A partir de Nogara, a prática da usura deixou de ser condenada pela Igreja. Algo muito distante do que ocorria na Idade Média, onde o usurário era o pior dos condenados.

Podemos dizer, no entanto, que a parte mais chocante do livro engloba acontecimentos durante a segunda guerra mundial. Devo destacar o capítulo cinco, chamado “O outro holocausto. O Vaticano e o genocídio na Croácia”. Após a invasão dos nazistas à Iugoslávia, o Ustashi, partido católico fanático, tomou o poder do país, convertendo-o em um estado católico. Durante os quatro anos como estado independente, entre 1941 a 1945, foram executados na Croácia mais de 750 mil sérvios, judeus e ciganos, todos pelos católicos fanáticos da ustashi. Ao contrário dos nazistas, que em suas matanças prezavam pela descrição, o genocídio na Croácia e na Bósnia-Herzegovina foi caracterizado por assassinatos rituais em público e torturas que aumentavam em barbárie com o passar do tempo. Aos sacerdotes ortodoxos sérvios, por exemplo, eram relegadas algumas das piores torturas. Muitos deles foram queimados, esfolados ou esquartejados vivos. Ante Pavelic, chefe da ustashi, foi um dos principais, senão o principal responsável pelo genocídio em questão, muito apoiado por Alojzije Stepinac, que expressava sua gratidão a Pavelic e a Adolf Hitler pela independência croata. É importante citar que mesmo tendo papel marcante no genocídio na Croácia, foi elevado à categoria de beato pelo papa João Paulo II em outubro de 1998.

Em seguida, após tratar a Igreja no pós-guerra, o livro lida com nomes que muito contribuíram para o enriquecimento ilícito do vaticano e seu envolvimento com a máfia italiana e a Propaganda Due, uma poderosa loja maçônica – mesmo sendo a maçonaria sempre tendo sido rechaçada pela Igreja. Entre eles, Michele Sidona, homem que foi por tempos um dos homens mais ricos do mundo. Um trecho interessante do livro fala sobre a enorme admiração que Francis Ford Coppola possuía por Michele Sidona. Este, fascinado com o glamour de Hollywood, comprou parte das ações da Paramount. E que filme dirigido por Francis Ford Coppola fora produzido pela Paramount e fez enorme sucesso, tendo se tornado um dos maiores clássicos da história do cinema? O Poderoso Chefão, financiado em parte por Sidona e mostrando uma família Corleone sob um aspecto honrado, se comparada á outras famílias mafiosas. Os verdadeiros Corleone (apelido para a família Corleonese) eram tidos como brutos e sanguinários, até mesmo para os padrões das outras famílias mafiosas da época.

Como se não bastassem os escândalos financeiros, o livro ainda trata das teorias de assassinato dos papas Pio XI e João Paulo I. Mais do que isso, aponta alguns nomes suspeitos e indícios que afirmem as teorias, tudo de forma clara e convincente. Por fim, são expostos os escândalos financeiros durante o papado de João Paulo II, as circunstâncias de seu atentado – e de sua suposta visita de perdão ao atirador – e os milhares de casos de abuso sexual e pedofilia durante o papado deste, passando para o papado de Joseph Ratzinger, ainda recente quando o livro foi terminado.

Como dito no início desta resenha, o livro é polêmico e sua credibilidade pode ser colocada em cheque por muitos, principalmente aqueles que não simpatizam com teorias conspiratórias. No entanto, o número de fontes apresentadas e a consistência das mesmas não deixam dúvidas que se tratou de um árduo trabalho, com frutos visíveis que não devem ser ignorados. Um livro que pode abalar a fé de muitas pessoas, mesmo que sua intenção não seja esta. O trecho do livro de Mateus, capítulo 15, versículo 8, parafraseado no início do livro, é claro como água nesse aspecto: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim...”.

[EDIT] O livro contém um erro. Nele, o autor aponta o papa Estêvão V como responsável pelo que ficou conhecido como "Sínodo do Cadáver". No entanto, o papa responsável pelo sínodo na realidade foi Estêvão VI, que por alguns é chamado de Estêvão VII. O que ocorre é que o papa Estêvão morreu antes de assumir o pontificado, e seu sucessor adotou o mesmo nome. Segundo as leis canônicas modernas, o candidato se torna papa logo que é eleito, não quando toma posse. Portanto, o primeiro destes dois Estêvãos passou a ser conhecido por "Estêvão I", alterando a numeração de todos os demais Estêvãos. Logo, o papa que na época era Estêvão VI hoje é conhecido por Estêvão VII. De qualquer modo, esta confusão não justifica o erro.

Preço médio: 44,90

28 de junho de 2009

Jostein Gaarder, Victor Hellern, Henry Notaker - O livro das religiões

GAARDER, Jostein; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

É impossível definir o surgimento do sentimento religioso no ser humano. Sabemos que desde os primórdios o homem busca em crenças próprias a explicação para aquilo que ele não conhece. E desta busca por entendimento surgiram as mais diversas crenças, além de formas diferenciadas de culto, como o politeísmo, monoteísmo, monolatria, panteísmo, animismo, etc. É sabido também que a interpretação destas religiões é responsável não só para a formação da Ética, oriental ou ocidental, quanto pelos inúmeros conflitos que por incontáveis eras seguem sem aparente solução. Um assunto pertinente, sempre em voga, principalmente quando paramos para analisar o quanto a religião é usada como ferramenta de legitimação, seja política, moral ou social.

Tentando passar ao leitor explicações abrangentes sobre algumas das mais importantes religiões do mundo, Jostein Gaarder, Victor Hellern e Henry Notaker apresentam O livro das religiões. Jostein Gaarder, renomado escritor norueguês, nasceu em 1952. Filho de escritores, Gaarder ficou conhecido mundialmente pelo seu livro O mundo de Sofia, publicado em 1991. Através do sucesso dessa obra, o autor pôde dedicar-se integralmente à escrita.

Victor Hellern, nascido em 1928, é um historiador também norueguês conhecido por suas diversas obras sobre teologia. Contudo, sua única obra traduzida para o português é justamente esta resenhada. Por fim, temos Henry Notaker. Também norueguês, se trata de um jornalista, tendo este trabalhado em áreas de cultura e política exterior. Foi, inclusive, correspondente no Leste Europeu e na Espanha.

O livro inicia corretamente apresentando algumas das dúvidas mais básicas acerca do tema: “Por que ler sobre as religiões?”, “Como começaram as religiões?”, entre outras. Discorre acerca de questões relativas à crenças, como a vida após a morte, o sagrado, os conceitos de divindade, conceito de homem, mundo, cerimoniais, oração, sacrifícios, ética, entre tantas outras características indissociáveis da religião.

Antes de começar a detalhar as religiões, o livro separa de forma coerente as religiões orientais das ocidentais, para assim começar a analisar individualmente as religiões, começando pelo Hinduísmo. Obviamente que se trata de um resumo, pois se trata de uma religião deveras antiga e complexa. Contudo, é um texto aceitável para um rápido entendimento sobre o assunto. Logo, o texto passa para o Budismo, que mantém laços estreitos com sua religião de origem, anteriormente analisada pela obra. Adiante, passando pelas religiões do extremo oriente, temos adiante o Confucionismo, o Taoísmo e o Xintoísmo, todas de forma resumida.

Ainda mais compactadas estão as informações sobre religiões africanas. Os próprios autores deixam claro a enorme dificuldade de análise nesta área quando dizem:

“Ao agrupar as religiões africanas sob um só rótulo, deve-se ter em mente que seu número equivale ao de povos existentes na África. Cada um tem seu próprio nome para Deus, seus próprios rituais de culto, suas idiossincrasias. Por outro lado, elas apresentam também muitos traços em comum, pois os africanos não viveram uma existência estática, isolada”.
(1)

Tendo consciência do quão limitador é a compilação de tantas crenças sob o mesmo rótulo, os autores tentam dissertar sobre os padrões destas religiões tribais, os chefes tribais, os ritos, a concepção de deus (ou deuses), espíritos, morte, entre outros aspectos em comum.

A próxima parte do livro é, sem dúvida, a mais detalhada. É compreensível, já que ela trata das religiões monoteístas surgidas no Oriente Médio. Nos são apresentadas as religiões que mais são conhecidas pelo ocidente: Judaísmo, Islamismo e Cristianismo. O texto sobre Cristianismo é de uma riqueza de detalhes significativa, abordando diversos aspectos de sua doutrina, sem esquecer as diversas igrejas derivadas do mesmo. O livro aborda tanto a Igreja Católica Apostólica Romana como a Igreja Católica Ortodoxa, a Igreja Batista, Adventista, os Pentecostais, o Exército da Salvação, os Quacres, entre outros.

Mais adiante, nos são apresentadas filosofias não religiosas, como o Humanismo, o Materialismo e o Marxismo. No final, o livro passa por algumas religiões mais recentes, como o espiritismo, trata do ateísmo e do agnosticismo e possui um apêndice sobre as religiões no Brasil.

De fato, poderíamos estender durante várias páginas os detalhes deste livro. É paradoxal dizer que ele detalha as religiões ao mesmo tempo que resume. De fato, estudar cada uma delas individualmente requer maior busca de fontes e obras complementares, mas dificilmente uma obra aborda tantas religiões diferentes de forma tão competente quanto este livro, ainda mais de forma tão imparcial – talvez não na quantidade de conteúdo, mas certamente no respeito com todas estas. O fato de ter sido lançada em edição de bolso pela Companhia das Letras dá um maior acesso à obra, sem alterar o texto original. Qualquer pessoa, historiador ou não, que deseja estudar religiões, precisa ler esta obra. De grande valia principalmente para desmistificar preconceitos, já que é justamente o preconceito o responsável pela miríade de informações sem qualquer credibilidade e com nítida falta de conhecimento que vemos pelo mundo afora.

Preço médio: R$ 25,00

Notas:
(1) GAARDER, Jostein; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. pp 98.

21 de junho de 2009

Dee Brown - Enterrem meu coração na curva do rio

BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. Porto Alegre: L&PM, 2003.

A cultura popular em geral, desde filmes de faroeste a desenhos animados, sempre exaltou a ousadia do homem branco em solo americano, arriscando sua preciosa vida em nome do progresso, da civilização e do bem-estar do “povo americano.” Para tal, envolvia-se em perigosíssimas batalhas contra os índios; criaturas odiadas pelo branco, selvagens sanguinários, praticantes do brutal escalpo que, armados de arcos, flechas, lanças, pedras e rifles velhos, impediam a expansão americana.
Pois eis que em 1970, Dee Brown lança o livro Enterrem meu coração na curva do rio. Nascido em Louisiana, seu primeiro amigo fora um menino índio, que o acompanhava em todos os filmes que retratavam a luta do branco herói contra o índio maléfico. Ao término dos filmes, o garoto índio sempre aplaudia a vitória do branco sobre o índio. Dee Brown não entendia, até que questionou seu amigo sobre tal fato e este respondera “Não são índios de verdade.” Foi aí que Brown percebeu que de fato, os índios retratados em filmes, livros e desenhos não passavam de caricaturas estereotipadas dos verdadeiros indígenas; homens pacíficos que lutavam para manter o seu direito a vida, o direito de viver nas terras que sempre foram suas e de seus antepassados, a preservação da caça e a preservação da natureza, indispensável para a vida.
Formando-se na Universidade de Washington durante a grande Depressão, conseguiu um emprego de bibliotecário do Departamento de Agricultura. Foi nessa época que começou a mostrar suas habilidades como pesquisador. Para a criação de Enterrem meu coração na curva do rio, Brown utilizou-se de registros oficiais de conselhos e tratados, entrevistas concedidas por índios encontradas em obscuros jornais da época, entre outras fontes que dificilmente veriam a luz do dia se não fosse o interesse de um competente pesquisador.
O período que o livro analisa – e que é o período de onde os maiores mitos do velho oeste surgiram – é o que compreende os 30 anos entre 1860 a 1890. Enquanto a historiografia americana guardava em sua memória massacres como o de Little Big Horn, aonde morreu o General Custer, eternizado como um bravo comandante e mostrado neste livro como um sanguinário perseguidor de índios, se esquece de massacres dezenas de vezes mais brutais, tal qual o massacre de Sand Creek.
O número de leis criadas para benefício dos índios que foram sumariamente ignoradas com o tempo, o número de tratados quebrados e a quantidade de massacres é difícil de se enumerar. Vou usar apenas o exemplo citado no parágrafo anterior, sobre o massacre de Sand Creek.
Os índios Cheyennes estavam acampados em Sand Creek, por terem recebido a garantia de paz do major Anthony, comandante do Fort Lyon. Este os manteve próximos (o acampamento ficava a 65Km de distância do forte) até que recebesse reforços. Além destes, juntaram-se a ele os homens do coronel Chivington, ex-pastor metodista. Alguns homens de Anthony, como o tenente Joseph Cramer e o capitão Silas Soule, foram terminantemente contra o ataque. Conta-se que Chivington esmurrou Cramer e disse: “Vim para matar índios e acho que é certo e honroso usar qualquer meio sob o céu do Senhor para matar índios.”
O massacre é detalhadamente descrito, segundo relatos dos sobreviventes, de ambas as partes da batalha. Adiante, um longo trecho do livro que descreve os requintes de crueldade com que os soldados agiam, retirados do testemunho de Robert Bent, um dos homens que estava cavalgando contra sua vontade por ordem de Chivington:
“Vi uma squaw (mulher indígena) no banco, com a perna quebrada por um obus; um soldado foi até ela com o sabre desembainhado; ela levantou um braço para se proteger, quando ele golpeou, quebrando-lhe o braço; ela rolou e levantou o outro braço, que ele golpeou e quebrou; depois, deixou-a, sem matá-la. Parecia haver uma matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças. Havia cerca de trinta ou quarenta squaws
Reunidas numa caverna como abrigo. Enviaram uma menina de cerca de seis anos com uma bandeira branca num pau; mal dera uns passos, ela foi atingida e morta. Todas as squaws da caverna foram mortas mais tarde, além de quatro ou cinco homens fora dela. As squaws não ofereceram resistência. Todo mundo que vi morto estava escalpado. Vi uma squaw com seu filho ainda não nascido, segundo me pareceu, ao seu lado. O capitão Soule me disse depois que havia sido isso mesmo. Vi o corpo de Antílope Branco com os genitais cortados e ouvi um soldado dizer que iria fazer uma bolsa de fumo com eles. Vi uma squaw com os genitais cortados... Vi uma menina de uns cinco anos que se escondera na areia; dois soldados descobriram-na, tiraram seus revólveres e a mataram, arrastando-a depois pelo braço sobre a areia. Vi várias crianças de colo mortas com suas mães.” (1)

Este é apenas um dos trechos do livro que descreve a crueldade com a qual o soldado branco agia. Neste episódio em particular, um dos principais líderes do acampamento, Chaleira Preta, saíra com uma bandeira dos Estados Unidos e fora em direção a um dos dois grupos de soldados. A ele foi prometido que, empunhando a bandeira norte-americana, nenhum soldado atiraria nele. Chaleira Preta e os demais índios ao seu redor foram alvejados pelos rifles dos homens de Chivington e Anthony. Devo citar, aproveitando a ponte, que o ato do escalpo que durante tantas décadas foi creditado ao "índio senvagem" na realidade foi introduzido na américa pelos espanhóis e só passou a ser utilizado pelos índios norte-americanos porque os casacos-azuis assim o fizeram primeiro, tal como está descrito no relato postado acima. Infelizmente, não era conveniente que os "bravos soldados" fossem retratados como realmente eram. Era mais simples enumerar relatos de barbáries indígenas para legitimar a matança dos "inimigos do progresso e do homem branco".

Gradativamente, dezenas de outros povos foram exterminados ou reduzidos a poucos representantes. Desta época sangrenta surgiram nomes que, mesmo estando do lado até então considerado vil, sobreviveram na mentalidade americana. Nomes como Nuvem vermelha, Cochise e Touro-Sentado fazem parte desse grupo.
Este livro, mais do que um triste relato sobre todos os infortúnios que os índios norte-americanos tiveram que enfrentar, foi fundamental para toda uma revisão histórica e uma mudança de mentalidades. Pode-se dizer que esta obra mexeu com a consciência dos norte-americanos, e foi a partir dele que surgiram diversos filmes mostrando o lado dos vencidos.

Levando em conta que ele trata exclusivamente da história dos Estados Unidos, muitos talvez não se interessem pelo mesmo. Sua leitura pode ser um tanto cansativa para quem não possui interesse no tema. Mas mesmo assim me vejo no dever de recomendar este livro para qualquer historiador. Mais do que um simples estudo de três décadas de injustiças, ele é uma mostra da brutalidade humana, do que o homem é capaz de fazer para atingir seus objetivos. Seria de uma ingenuidade tamanha acreditar que estes foram episódios isolados e que tais mostras de barbárie não se repetem nas inúmeras guerras e guerrilhas que ainda hoje nos batem à porta mediante jornais e noticiários em geral. Mais do que conhecer acontecimentos do passado de um outro país, ler este livro é conhecer a mentalidade daqueles que sempre justificaram suas ações com seus discursos demagogos de caráter civilizatório.

Pode soar falso, mas dizer que se trata de um livro emocionante, que realmente faz você pensar sobre a mentalidade humana e lhe ensina a olhar com desconfiança a dita “história oficial”, não é exagero.

Preço médio: R$ 23,00

Notas:
(1): BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. Porto Alegre: L&PM, 2003. pp 78-79

20 de junho de 2009

Peter Burke - A escola dos Annales

BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.


Sem dúvida, a originalidade e a inovação são caminhos que levam qualquer profissional, de qualquer área, a tornar-se referência. Eis que na historiografia essa regra não é inexistente. O inglês Peter Burke reitera isto ao publicar esta obra, A escola dos Annales.

Annales foi uma revista criada na França em 1929, responsável pela criação do que hoje é chamado de “Nova História”. Até o momento da criação desta revista, a história era basicamente positivista. Esta história consiste na exaltação de grandes homens, grandes feitos, uma história política que em muitos casos era uma forma de legitimação. Quaisquer outras abordagens históricas, quando tentadas, dificilmente recebiam o devido interesse. Aos poucos, essa história positivista fortemente influenciada pelas Ciências Naturais começou a receber duras críticas, principalmente por parte dos durkheimianos. Foi então que Lucien Febvre e Mark Bloch criaram a já citada revista Annales. Sua metodologia, que futuramente se estabeleceu como novo paradigma, consistia em abrir caminho para uma interdisciplinaridade entre a história e as Ciências Sociais, aos poucos estendendo esta conexão com outras disciplinas como a Geografia, Antropologia e a Psicologia.

A história que até o momento consistia apenas em apresentar a narrativa de acordo com as fontes – e nesse caso as fontes dificilmente ultrapassavam os limites da escrita – passou a apresentar mais do que narrativas, mas problemáticas; deixando de focar exclusivamente em grandes feitos, abrindo caminho para o estudo de temas cotidianos. Essa roupagem que lembrava as ciências sociais deu à história uma concepção mais científica que até o momento relutava-se em admitir.

Sendo um pouco mais específico, pode-se dizer que a história tradicional era narrativa, possuía uma cronologia definida, escrita de forma linear, usando documentos oficiais como fonte, era evolucionista e privilegiava fatos de cunho político. A história-problema foge deste padrão, a começar pelas fontes. Tal qual Gilberto Freyre fez em seu clássico Casa grande e senzala, o novo historiador utiliza-se de fontes diversas, de imagem à arquitetura. Dispensa uma ordem cronológica e, mais do que reproduzir os documentos, ele precisa interpretá-los; escolhe um objeto de estudo presente e busca as respostas no passado. Não tenta ser imparcial, anulando sua crítica e sua opinião, e claramente escolhe os fatos de acordo com o que for mais conveniente para seu estudo. Mais do que narração de fatos, essa Nova História está carregada de senso crítico.

A primeira geração da escola dos Annales foi liderada basicamente pelos seus criadores: Lucien Febvre – o maior defensor da história-problema, do uso de fontes não-documentais e do diálogo entre os historiadores quanto a suas metodologias – e Mark Bloch. Estes, entre outras coisas, buscavam mais do que as singularidades da história, marca positivista; buscavam uma “história das mentalidades”. Algo diferente do que o líder da segunda geração da escola, Fernand Braudel, focalizou.

Braudel acreditava em uma história de “três períodos”. A história de curta duração, média duração e longa duração. A primeira podemos explicar fazendo uma analogia com as noticias que diariamente vemos nos jornais. Fatos que fazem parte de uma história de um curto período. Um período maior classifica-se como média duração e por fim, a história de longa duração é aquela que para Braudel importava. A história de longa duração não sofria interferência de pequenos fatos, da história de curta duração.

Criando sua metodologia em cima de uma história que, mantendo-se interdisciplinar, era claramente quantitativa, Braudel usou a demografia e o tempo como objetos de estudo. Sua obra mais importante, O Mediterrâneo e Felipe II, é um claro exemplo disto. A obra apresenta de forma clara que, para o autor, a geografia e o tempo são de importante influência na história. Não podemos ignorar, obviamente, o fato desta obra ter sido criticada consideravelmente, mas seria um erro ainda maior ignorar os paradigmas que ela ajudou a fortalecer. Neste ponto a história das mentalidades sofreu um decréscimo de importância, visto que nesta nova abordagem quantitativa a história das mentalidades não possuía a mesma sustentação que a história socioeconômica.

Durante a terceira geração da escola dos Annales, duras críticas foram advindas de sua abordagem. Por conta de sua crítica, os historiadores do movimento foram acusados de negligenciarem a história política. A crítica não procedia, pois o afastamento da história política não era algo generalizado dentro dos Annales. Nesta época há uma retomada da história narrativa e de eventos.

O livro de Peter Burke não é o único que aborda a escola dos Annales. Contudo, pode ser considerada a mais bem-sucedida síntese do que foi este movimento e o que ele significou para a história. Desmistifica a idéia de conflito entre a História Cultural e a História Marxista, nos apresenta com riqueza de informações a evolução do movimento, seus grandes nomes e suas metodologias. Historiadores em geral devem ter contato com esta obra, já que dela podem ser extraídas informações cruciais para o entendimento das mudanças que marcaram a escrita da história no século XX. Se hoje a história é tão vastamente fragmentada – e não dou a esta fragmentação um caráter pejorativo, visto que o leque de possibilidades aumenta consideravelmente –, devemos isto em grande parte ao movimento que este livro tão competentemente analisa.

Preço médio: R$ 30,00

Leia também, do mesmo autor:
Hibridismo cultural
Testemunha ocular

16 de junho de 2009

Peter Burke - Testemunha ocular

BURKE, Peter. Testemunha ocular: história e imagem. Bauru: EDUSC, 2004.

Quem leu a abertura deste blog talvez lembre do trecho em que eu dizia ter me inspirado em fazer este blog enquanto lia um livro que julgava essencial para qualquer historiador. Pois bem, o livro é este. Testemunha ocular, de Peter Burke.

Burke, como alguns já sabem, mas tantos outro não, é um inglês professor de História Cultura na Universidade de Cambridge e, segundo fui informado, é colunista de um grande jornal de São Paulo no caderno “Mais” de domingo. Casado com uma professora brasileira, Maria Lúcia Pallares-Burke, é um conhecedor de nossa cultura e grande admirador de Gilberto Freyre.

Neste livro, Burke tenta mostrar ao historiador a importância das imagens como fontes históricas. Entretanto, é necessário informar desde o início que o livro, ao contrário do que possa parecer, não é uma espécie de guia com fórmulas para análise de imagens como fontes. Uma de suas principais funções, na realidade, é informar principalmente as armadilhas que as imagens podem oferecer a quem analisa.
Com um prefácio escrito pelo próprio Burke para a edição brasileira, o livro faz uma introdução ao tema, sendo que desta ressalto o trecho em que Burke afirma preferir o termo “indícios” ao invés de “fontes”, pois segundo ele:

“os historiadores têm se referido ao seus documentos como “fontes”, como se eles estivessem enchendo baldes no riacho da Verdade, suas histórias tornando-se cada vez mais puras, à medida que se aproximam das origens. A metáfora é vívida, mas também ilusória no sentido de que implica a possibilidade de um relato do passado que não seja contaminado por intermediários.” (1)

O primeiro capítulo fala sobre a fotografia e a pintura com realismo fotográfico. Principalmente se atendo à primeira, o autor comenta sobre a facilidade com que alguém pode ser enganado pela impressão de realidade que uma foto dá. Afinal, por mais que a imagem esteja fielmente retratada, o que se vê é apenas uma parte do todo, a visão do fotógrafo, e este pode forjar uma cena. Já o segundo trata da iconografia e da iconologia, ambos os termos ás vezes colocados como sinônimos, significando o estudo da mensagem que a imagem tenta passar.

O terceiro capítulo trata do uso de imagens em religiões, geralmente como um instrumento de fé. Entre as discussões do mesmo, estão a figura do diabo, dos santos, a iconoclastia e a propagação de idéias por parte destas, como as imagens que criticavam a Igreja Católica Apostólica Romana, propagadas pelos protestantes. O quarto capítulo, abordando aspectos mais políticos, fala do uso da imagem como arma de protesto e o seu poder para tal fim. Já o quinto mostra a imagem como veículo de propagação da cultura material, bem como ferramenta para sua compreensão, mostrando algumas das principais armadilhas desse tipo de divulgação e alguns casos conhecidos em que a imagem mostrava mais do que a realidade. Claro que não podemos desconsiderar casos em que só através das imagens tivemos acesso visual a coisas que já não mais existem.

O aspecto social é mais discutido em capítulos posteriores. O sexto, intitulado “Visões de sociedade”, aborda a retratação de determinados aspectos sociais e de seus elementos. Uma parte do capítulo, por exemplo, é dedicada apenas à retratação das crianças, enquanto outra é dedicada às mulheres. O sétimo, o primeiro capítulo com o qual tive contato e, na minha opinião, um dos melhores, fala do perigo do estereótipo. A imagem do outro, o desconhecido, formada em cima de clichês ou de pré-concepções é algo pertinente demais na sociedade, e por que não dizer que é algo incrustado no ser humano... de qualquer modo, o capítulo ressalta que nem todo o estereótipo é leviano, sendo por vezes a primeira imagem que se tem de algo que não se conhece, á partir de elementos comuns ao espectador.
O capítulo seguinte é dedicado á idéia de “Narrativas Visuais”, partindo do pressuposto que toda a imagem conta uma história, desde uma imagem única até uma série de imagens. O nono aborda o pintor ou o cineasta como propagadores da história, á partir do momento que deixam de ser testemunha e passam a ser “historiadores”. Novamente Burke atesta para as diversas armadilhas da imagem.
O fim do livro, mais precisamente os capítulos 10 e 11, abordam os aspectos psicológicos e culturais das mesmas. Ao fim do último capítulo, Burke novamente ressalta o objetivo de seu livro. Algumas frases-chave para o entendimento da obra são:

“As imagens dão acesso não ao mundo social diretamente, mas sim, visões contemporâneas daquele mundo [...] O testemunho das imagens necessita ser colocado no “contexto”, ou melhor, em uma série de contextos no plural (cultural, político, material, e assim por diante [...] Uma série de imagens oferece testemunho mais confiável do que imagens individuais [...] No caso de imagens, como no caso de textos, o historiador necessita ler nas entrelinhas, observando os detalhes pequenos mas significativos – incluindo ausências significativas – usando-os como pistas para informações que os produtores de imagens não sabiam que eles sabiam, ou para suposições que eles não estavam conscientes de possuir.” (2)

Possivelmente, a pergunta que fica no ar é: por que este livro é indispensável?

Foi-se o tempo em que a história era apenas uma pesquisa de documentos oficiais, focada em uma história intrinsecamente positivista, onde os documentos falavam por si e demais fontes eram ignoradas. Hoje existe a consciência de que imagens podem nos fornecer valiosos testemunhos que a escrita ou a oralidade não o podem, na maior parte das vezes por um distanciamento da época retratada. Você ultrapassa as barreiras das histórias oficiais e passa a ver, mesmo que como um leve resquício, coisas que estes documentos não podem mostrar, como imagens do cotidiano de pessoas menos favorecidas economicamente e iletradas; ou seja, que não podiam perpetuar seu testemunho.

Sobre o livro, fisicamente falando, é necessário ressaltar que se trata de um exemplar de ótima qualidade. Ricamente ilustrado (o que não poderia deixar de ser) e feito com papel reciclado, é visualmente muito bonito.


Como já ressaltei, este livro não ensina fórmulas de análise. Contudo, fornece informações valiosas sobre os perigos desta mesma análise, tanto quanto ressalta sua importância. Claro que, se você é apenas um entusiasta da história, pode não se interessar pelas entrelinhas de uma imagem, mas fica aqui a dica de uma obra excelente.

Preço médio: R$ 39,90


Notas:
(1) BURKE, Peter. Testemunha ocular: história e imagem; tradução Vera Maria Xavier dos Santos; revisão técnica Daniel Aarão Reis Filho. – Bauru, SP: EDUSC, 2004. pp 16
(2) BURKE, Peter. Testemunha ocular: história e imagem; tradução Vera Maria Xavier dos Santos; revisão técnica Daniel Aarão Reis Filho. – Bauru, SP: EDUSC, 2004. pp 236-238

LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR:
Hibridismo cultural
A escola dos Annales

14 de junho de 2009

Carlos Roberto F. Nogueira - O Diabo no imaginário cristão


NOGUEIRA, Carlos Roberto F. O Diabo no imaginário cristão. 2ª Ed. Bauru: EDUSC, 2002.

Caros leitores
Depois de pensar um pouco, decidi que o próximo livro a ser resenhado seria o último livro que li, mais precisamente O Diabo no imaginário cristão, de Carlos Roberto F. Nogueira. Conciso e direto, o livro explica a inserção do antagonista de Deus no cristianismo.

Falando pouco sobre o autor, basta citar que o mesmo é professor titular da Universidade de São Paulo, sendo especialista em história antiga e medieval. Nota-se através deste livro que, de fato, possui grande conhecimento destes períodos, principalmente no que tange á religião e crenças populares.

O que seria dos bons se não houvessem os maus? Se não existisse o mau, possivelmente o conceito de bondade seria inexistente. Não obstante, o Deus do Antigo Testamento bíblico é o senhor do bem e do mau. Concede dádivas quando há merecimento, mas também pode causar grandes catástrofes para punir, caso necessário. Como exemplo, podemos citar a destruição de Sodoma e Gomorra, além do conhecido grande dilúvio.

Já no Novo Testamento, o que temos? A inserção de um antagonista: o diabo. Se no Antigo Testamento haviam algumas figuras que apenas futuramente foram associadas ao demônio, no Novo Testamento ele é uma peça fundamental. É aquele que desvirtua o homem, que tenta Jesus durante seu jejum, que traz a ruína e quem, no fim dos tempos, se digladiaria contra o Senhor no Juízo Final, sucumbindo enfim.

Esta inserção do mito do demônio é explicada nesta obra, mas o principal foco dela é a paranóia medieval do demoníaco. A presença do diabo 24 horas por dia, sendo responsável por todos os males, todas as falhas de caráter. Em outras palavras, podemos dizer claramente que o mundo era dominado pelo demônio, e alcançar a graça divina era uma dádiva da qual poucos virtuosos poderiam se orgulhar de receber.

De uma criatura sem face para uma aberração, geralmente descrita pelas visões de Santos ou pelos depoimentos de acusados de bruxaria, o demônio passou a ser retratado de forma semelhante ao que conhecemos hoje. Aspecto grotesco, asas de morcego e em várias obras, um rosto no lugar do ânus, que seus adoradores beijavam em cerimônias macabras – reiterando que estes eram depoimentos de supostos envolvidos com bruxaria sob intensa tortura. Não podemos esquecer que as representações de divindades pagãs contribuíram muito para a concepção atual do demônio, desde divindades antropozoomórficas de povos antigos como os babilônios até divindades de povos chamados pelo ocidente medieval de bárbaros.

O livro é direto, e esta edição que resenho aqui possui o diferencial de ser ilustrada com belas imagens (dependendo, é claro, da concepção de beleza de cada um, já que imagens do demônio oriundas de pinturas do período gótico não são exatamente belas, mas enfim...) coloridas, tanto de pinturas quanto de relevos, que servem como referência ao leitor leigo.

Para quem se interessa por cristianismo e quer estudar o efeito da religião na mentalidade e na cultura, este livro é um excelente material.

Preço médio: R$ 25,00

LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR:
Carlos R. F. Nogueira - Bruxaria e história

Jacques Le Goff - A Bolsa e a vida

LE GOFF, Jacques. A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

Usura. Esta é a palavra que será repetida uma infinidade de vezes durante o decorrer desta obra sendo o tema central deste livro de Jacques Le Goff. Confesso que soa um tanto hipócrita que na apresentação do blog eu tenha falando sobre a facilidade de se procurar material de Le Goff, Foucault e outros por serem conhecidos e agora estar postando dois livros deste autor em sequência. No entanto, são livros baratos, relativamente fáceis de se encontrar e possuem um conteúdo muito rico para a compreensão da cultura medieval e sua sociedade como um todo, novamente salientando a impossibilidade de o fazer sem envolver a religião, mais precisamente o cristianismo – sob a forma da Igreja Católica Apostólica Romana.


Para iniciar a resenha, creio que seja necessário primeiro elucidar o significado da palavra usura, que caiu em desuso com o passar do tempo. Usura é o ato de se emprestar dinheiro e obter lucro em cima dos juros decorrentes do tempo. Em outras palavras, empréstimo, geralmente sob altos juros.

A principal problemática do livro gira em torno da condenação ferrenha do cristianismo à pratica da usura. Segundo os católicos, o usurário era a pior espécie de ser humano. Enquanto ladrões roubavam bens e objetos, o usurário roubava Deus. Ora, se o usurário empresta o dinheiro e recebe o lucro em cima do tempo, sendo Deus o único dono e senhor do tempo, logo o usurário está roubando a Deus. O problema é que essa condenação exagerada do usurário começou a se tornar inconveniente quando aos poucos o sistema capitalista começou a dar mostras de nascimento. Então, convenientemente, criou-se a idéia de que um usurário, caso devolvesse o lucro ilícito proveniente da usura antes da morte, poderia encontrar a salvação – esta provavelmente pelo purgatório. Como em um determinado trecho é explicitado: “O purgatório, decididamente, não é mais do que uma oportunidade que o cristianismo dá ao usurário no século XIII, mas só o purgatório lhe assegura o paraíso sem restrição.”

O livro ilustra através de pequenas parábolas da época o medo que o usurário tinha da morte e todos os infortúnios que a prática da usura o traria, em vida ou após a morte. Mostra também o quanto essa aversão contribuiu para agravar a imagem negativa que o ocidente medieval cristão possuía dos judeus.

Porém, como já dito anteriormente, os usurários foram peças fundamentais para a formação do capitalismo como o conhecemos atualmente. Os usurários do passado – pelo menos boa parte deles – se tornaram comerciantes, e assim esses sistema econômico teve seu surgimento.


Considero o trabalho anteriormente resenhado (O Deus da Idade Média) mais interessante, mas devo dizer que isso se deve ao fato de eu ser mais interessado nos aspectos religiosos do que político-econômicos das civilizações. Este livro torna-se de grande valia para qualquer um que queira entender como a religião teve que adaptar-se às mudanças da sociedade, mesmo aquelas que feriam suas doutrinas mais antigas.

Preço médio: 21,90

Jacques Le Goff - O Deus da Idade Média

LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.



Enquanto o mundo se afoga em profecias apocalípticas de fim dos dias, Igrejas das mais diversas surgem prometendo a salvação, esta sendo rejeitada gradativamente por um mundo que torna-se apático ao que no passado era a razão de todo um comportamento regrado. Se hoje podemos nos imaginar livres de religiões e dogmas, o ocidente medieval não podia. É impossível dissociar Deus, Igreja Católica e a Idade Média, dado o grau de importância que esta Igreja possuía e sua influência sobre toda uma civilização, com diversos resquícios que duram até hoje.

Este cenário, que podemos chamar de exótico caso queiramos nos utilizar de eufemismo, é ideal para inspirar uma boa obra. E esta resenha fala de uma. Mais precisamente O Deus da Idade Média, do medievalista francês Jacques Le Goff.

Sendo um dos maiores medievalistas do mundo, Le Goff dedicou a maior parte de suas obras a essa época tão cheia de nuances. Neste livro, o autor foca na presença de Deus neste período, desenvolvendo a obra através de conversas – como já explicita o sub-título – com o historiador e redator-chefe da revista Le Monde de La Bible, Jean-Luc Pouthier.

O livro aborda diversas questões. É discutida, por exemplo, a visão que a população medieval possuía de Deus, como o imaginavam e sua relação com o mesmo. Logo no primeiro capítulo, com poucas palavras, Le Goff explicita o início do Cristianismo e esboça sua expansão:

“A Antiguidade tardia é o período em que o Deus dos cristãos se torna o Deus único do Império Romano. Esse Deus é um Deus oriental que consegue se impor no Ocidente. Os primeiros grupos de cristãos se desenvolveram um pouco à maneira de uma seita, que faz conquistas e cujo número de membros cresce.” (1)

Ainda no mesmo capítulo, é importante frisarmos a influência de práticas pagãs no culto cristão. Essas práticas continuaram sendo praticadas na surdina pelos camponeses. Ora, á partir do momento que 90% da população se concentrava nos campos, temos aí uma grande deturpação deste culto cristão que prega a idéia de que toda crença fora do cristianismo é de origem demoníaca.

No segundo capítulo, Le Goff aborda a presença de duas figuras que alcançaram grande status na época e que até hoje mantém-se com força: o Espírito Santo e a Virgem Maria. O capítulo tenta mostrar a flexibilidade do monoteísmo cristão medieval quanto à presença de outras figuras que não Deus. Ilustra a dificuldade não apenas do povo entender a presença deste Espírito Santo e da unidade da Santíssima Trindade quanto a dos clérigos da época ao tentarem criar uma concepção compreensível desta.

No terceiro capítulo, é discutida a presença de Deus na Idade Média, principalmente sua representação. Afinal de contas, os cristãos representam Deus através da arte, diferentemente de judeus e muçulmanos que cultuam um Deus não visualizado. Não apenas isso, os cristãos o representam sob um aspecto monárquico, praticamente imperial; tal qual um rei em seu trono, com poderes absolutos.

No quarto capítulo, o livro foca no papel da Igreja na cultura medieval. É um tanto complicado apontar o foco da discussão, já que esse é um assunto suficientemente longo; contudo, é algo que jamais pode ser ignorado, já que essa influência marcou para sempre a cultura e a formação da ética ocidental. Por mais que não se perceba, seus elementos estão presentes em nosso cotidiano, mesmo depois de tantos séculos.

Um livro pequeno, poucas páginas, letras grandes, que pode ser lido rapidamente. Porém, possui um conteúdo tão rico que é impossível menosprezá-lo. Ele segue o caminho inverso de livros gigantescos que se perdem em floreios e fogem do foco. Objetivo, é uma leitura obrigatória para qualquer historiador que deseje compreender a inserção da Igreja na sociedade medieval.

Preço médio: R$ 25,00


LEIA TAMBÉM, DO MESMO AUTOR
A civilização do ocidente medieval
A bolsa e a vida

COM CAPÍTULO DO MESMO AUTOR
Questões para a história do presente

Notas:
(1) LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier; Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. pp 18